| Fala o Leitor
O brasileiro tem fama de ser um povo pacífico e acomodado diante das
situações que lhe afligem. O estereótipo imputado ao brasileiro é de um povo alegre e
brincalhão, que gosta de carnaval e futebol, praia e cerveja. Porém, estereótipos são
generalizações que se fazem a partir de casos isolados e que não refletem a pretendida
totalidade, nem mesmo a maioria. Se recuperarmos a memória histórica, veremos que o povo
brasileiro não é tão pacífico assim. Sem julgamento aos líderes ou ao mérito e moral
de cada movimento, vale lembrar a revolta de canudos, a cabanagem, os cangaceiros de
lampião, o movimento tenentista, as guerrilhas urbana e rural do fim da década de 60 e
início de 70, alguns mais populares, outros mais intelectualizados, porém todos
organizados com o objetivo de luta política, seja por cidadania ou declaradamente contra
injustiças sociais.
Talvez o brasileiro seja muito
tolerante, mas não pacífico. E isso é mais perigoso do que se possa imaginas. As
pesquisas sobre comportamento há muito mostraram que, quando um sujeito descarrega
frequentemente sua raiva, ou seja, o conhecido "pavio curto", sua reação é
menos violenta, mais branda. Todavia, quando um sujeito frequentemente tolera a raiva, o
famoso "engolidor de sapos", quando enfim a descarrega, sua reação é
extremamente violenta. Assim ninguém se engane com os aparentemente calmos e controlados,
pois são como bombas ou panelas de pressão, que aos poucos vão acumulando vapor até
explodir.
Nos últimos anos, o povo brasileiro
vem assistindo e, aparentemente tolerando, muitas injustiças sociais. É o salário
mínimo, com aumentos irrisórios, e que não dá nem para a cesta básica de um
trabalhador individual, quanto mais para a satisfação das necessidades básicas de
moradia, alimentação, transporte, educação e lazer de uma família; é o discurso da
"baixíssima inflação", que todos os que vão aos supermercados e feiras sabem
que não é verdade; é o desrespeito ao dinheiro público, exemplificado nos absurdamente
elevados salários pagos aos funcionários dos poderes executivo, legislativo e
judiciário, bem como nas esdrúxulas gratificações; nos milhões pagos pelas sessões
parlamentares em períodos de recesso e os inúmeros e vergonhosos casos de corrupção e
malversação de verbas públicas que se descobrem a cada dia. Enquanto o povo luta para,
literalmente, sobreviver, tendo que fazer milagre com o minguado salário, pagando,
diversos e elevados impostos, os poderosos têm de sobra e se divertem fazendo farra com o
dinheiro dos impostos pagos pelo tão sofrido povo brasileiro.
O governo deveria tratar o povo com
mais respeito pois, atrás da alegria do carnaval e do futebol, podem estar cotidianamente
fermentando-se frustrações e raivas acumuladas ao longo dos anos, que a qualquer momento
podem explodir em revolta social, de conseqüências imprevisíveis.
Hilma
Khoury - psicóloga e professora de psicologia social. |