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Plácido de Castro expulsou os gringos da Amazônia

Vem de longe a cobiça estrangeira pela Amazônia. A rigor, podemos dizer que começou com o Tratado de Tordesilhas o empenho de apartar a Amazônia do que viria a ser o Brasil de hoje. Por esse Tratado, com que o Papado brindou o Reino de Castela em detrimento de Portugal, seria apenas uma nesga à parte da Amazônia incorporada ao território a que aportara Pedro Álvares Cabral.

Inconformada com a imposição, obstinou-se a Coroa Portuguesa em alargar para as lonjuras do Oeste desconhecido os seus domínios territoriais. Assim é que, já a partir da segunda década do século XVII, os chefes militares portugueses deram início à intensa construção de fortins fluviais ao longo do rio Amazonas e seus afluentes, cujo exemplo mais patente é o Forte Príncipe da Beira, lá no extremo Oeste, lindando com o Peru, destinado a não deixar dúvidas à comunidade internacional de então da determinação lusa de exercer soberania sobre a maior parte da imensidão da Amazônia.

Mesmo assim, volta e meia os colonizadores espanhóis baixavam das escarpas dos Andes, adentravam o Amazonas e iam sair no Atlântico, sempre com os seus intentos de posse territorial firmemente repelidos pelas tropas coloniais portuguesas.

INGERÊNCIA NORTE-AMERICANA

Mas, historicamente o empenho que os brasileiros herdaram dos portugueses de manter o domínio sobre a vastidão da Amazônia, tem em Plácido de Castro o seu herói mais genuíno. Aproveitando-se de que o Brasil estava engolfado na Guerra do Paraguai, um tal tenente Mathew E. Maury, superintendente dos serviços Hidrográficos dos EUA, imagina e lança um audacioso plano de exploração da Amazônia pelos norte-americanos, como primeiro passo para a definitiva internacionalização de toda essa região. Obtém rapidamente o apoio da opinião pública de seu país e os bons oficiais da diplomacia do Departamento de Estado. Habilmente consegue envolver a Inglaterra, França e Holanda, em litígios fronteiriços com o Brasil nas Guianas, como também países latino-americanos limítrofes como a Bolívia, Peru, Colômbia e Venezuela. Levantando a bandeira de que a livre navegação no Amazonas e seus afluentes atenderiam os interesses das potências internacionais e dos países limítrofes, acabam os norte-americanos por impor ao Brasil, em 1867, plena Guerra do Paraguai, o livre trânsito dos navios estrangeiros na Amazônia. Daí seguiram-se as concessões territoriais, criando verdadeiros enclaves estrangeiros em pleno território nacional.

Estimulados pela capitulação do governo imperial brasileiro, os americanos engendram e lançam o plano do Bolivian Syndicate, que significaria nada menos que instalar em plena Amazônia um vasto território norte-americano. Sob a forma de uma grande corporação de negócios, presidida por Hoover Jr. filho do presidente norte-americano, adquiriram da Bolívia por 10 milhões de dólares - soma vultuosa para aqueles tempos - uma enorme e imprecisa área boliviana na Amazônia, que envolveria porções importantes do território brasileiro.

Foi aí que a bravura de Plácido de Castro, encarnando todo um passado histórico de defesa da Amazônia, decidiu gritar um basta às investidas norte-americanas e internacionais sobre a região. Agrimensor de seringais e ele mesmo um seringalista vindo das terras gaúchas, mobiliza a população local através de numerosas reuniões por toda a faixa territorial fronteiriça com a Bolívia. Lança um enérgico manifesto conclamando à luta armada para impedir que os norte-americanos metam "a pata suja no coração mesmo da América Latina", e que isto seria ruinoso não só para o Brasil, como também para todo o continente sul-americano. Prega assim a luta armada contra a investida norte-americana, não apenas dos brasileiros, mas também dos bolivianos, colombianos, peruanos, equatorianos e venezuelanos. Isso foi na última década do século XIX. A luta foi dura e se estendeu até meados da primeira década do nosso século. Decidido a entregar no Bolivian Syndicate o território vendido, o próprio general-presidente boliviano vem pessoalmente comandar suas tropas contra o Exército do Acre que Plácido de Castro criara. Exímios conhecedores da intricada floresta amazônica, os seringueiros que formavam o grosso do Exército do Acre impõe derrotas sobre derrotas às forças bolivianas. Até que a batalha final se trava na chamada Boca do Acre, Plácido e seus guerreiros assaltam a fortaleza ocupada pelo general-presidente boliviano, seu Estado Maior e a missão militar prussiana que lhes assistia. Depois de renhida batalha, rendem-se os bolivianos que caem prisioneiros de Plácido de Castro. Na hora de receber a rendição, na sala de armas do forte, eis que o brasileiro assume uma posição de clarividência histórica, que bem serve para os nossos dias: recusa-se a receber as armas dos vencidos e chama-os de irmãos da mesma luta em defesa da Amazônia da cobiça estrangeira, principalmente norte-americana. Por tal atitude, Plácido de Castro recebeu manifestações populares aténa capital boliviana, como autêntico herói nacional também naquele país.

*Jornalista e escritor

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