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Fragilidade do euro condensa debilidade da economia dos Estados Unidos

Dependência dos EUA de capitais externos para cobrir gigantesco e crescente déficit em conta corrente aumenta demanda por dólares e pressão pela venda de euros, o que desvaloriza moeda da UE. "Nunca uma grande potência tornou-se tão vulnerável como os EUA atualmente", demonstra neste artigo o economista Nilson Araújo de Souza, presidente do Instituto do Trabalho Dante Pellacani

O governo norte-americano capitaneou, pouco antes da fracassada reunião do FMI/BIRD realizada em Praga, uma operação de salvamento do euro bancada pelos Bancos Centrais dos países do G-7. Muitos ainda estão se perguntando por que os EUA teriam tomado essa decisão, já que, em princípio, na disputa entre os EUA e a União Européia, interessaria ao governo e à oligarquia financeira daquele país o enfraquecimento da Europa.

É verdade que a fragilidade do euro expressa a fragilidade de um conturbado e indefinido processo de "unificação" européia sob comando do império germânico. Revela as dificuldades de, sob o capitalismo imperialista, unir distintas nações sob o domínio monetário de uma única moeda e, portanto, da potência mais forte. As contradições entre os grupos capitalistas dos distintos países, além dos naturais e legítimos interesses nacionais, condensados na resistência a aceitar o domínio imperial-financeiro da potência mais forte - no caso, a Alemanha -, tendem, naturalmente, a dificultar a consolidação de uma moeda única.

Mas, contraditoriamente, o problema básico da fragilidade do euro, na verdade, não está na economia européia, mas do outro lado do Atlântico: a fraqueza do euro condensa a debilidade da economia americana. Como dissemos em matéria anterior ("A ameaça de nova turbulência vem dos EUA"), "a economia norte-americana nunca esteve tão vulnerável como no momento atual". Isso porque o seu déficit em conta corrente (que mede as transações comerciais e financeiras com o resto do mundo) pulou de US$ 143,5 bilhões em 1997 para US$ 419,4 bilhões previstos para este ano, subindo de 1,75% do PIB para 4,25%. Esse rombo indica a dependência dos EUA em relação a capitais externos, particularmente os especulativos. Esses capitais escasseiam cada vez mais, tanto é que a "sobra" de seu balanço de pagamento caiu drasticamente de US$134,1 bilhões em 1997 para minguados US$ 5,6 bilhões neste ano. A continuar essa tendência, "rapidamente os EUA perderão a capacidade de financiar seu déficit", como registramos naquela matéria.

O que pressiona esse rombo, além do déficit crônico e crescente na balança comercial, são os encargos financeiros de uma dívida externa explosiva: segundo nos informa Rubens Ricupero, secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento), estrangeiros detêm, atualmente, US$6,5 trilhões de haveres financeiros nos EUA.

Nunca uma grande potência tornou-se tão vulnerável como os EUA no momento atual. Isso é sintoma da decadência em que mergulhou sua economia desde os anos 70, e que se expressou principalmente na sua perda da capacidade competitiva em relação ao Japão e à Alemanha. Os gigantescos e crescentes rombos em sua balança comercial não são mais do que expressão dessa decadência.

É precisamente por essa vulnerabilidade externa, por essa necessidade inadiável de capitais externos, que o Federal Reserve (Banco Central americano) vem subindo suas taxas de juros nos últimos dois anos. É a forma de atrair esses capitais e assim cobrir seu rombo externo. Se não cobri-lo, as contas externas dos EUA e, portanto, o dólar entram em colapso. E é precisamente esse fato que vem enfraquecendo o euro. Atraídos pelos juros mais altos nos EUA (6,5% ao ano), os capitais europeus fogem para esse país - os juros na Europa, que havia optado pelo crescimento da produção, estavam na faixa dos 3% ao ano, portanto, menos da metade dos juros americanos. A Europa vem usando, não apenas seus superávits em conta corrente para aplicar no mercado financeiro norte-americano. Mais capitais têm feito esse trajeto. Assim, apesar dos superávits na conta corrente, se considerarmos o conjunto do Balanço de Pagamentos da Europa, que inclui, além das transações correntes (comércio e "serviços"), o movimento de capitais, ele se tornou negativo de 1998 para cá, expressando a fuga de capitais, particularmente para os EUA. Em 1999, o rombo foi de 145 bilhões de euros e, neste ano, até julho, já era de 65 bilhões de euros; se considerarmos os 12 meses terminados em junho, já haviam escapado da Europa, principalmente para os EUA, US$180 bilhões, conforme dados do FMI. O resultado natural dessa conversão de euro em dólar é o aumento da demanda de dólar e o aumento da pressão por venda de euro, provocando a desvalorização dessa moeda. Foi isso que levou à sua queda, em relação do dólar, de 28% desde sua criação até a data da intervenção orquestrada pelos EUA.

Ora, euro fraco significa mais capacidade dos produtos europeus competirem no exterior, pois se tornam mais baratos em moeda estrangeira, e mais limitação às suas importações. No outro lado da moeda, os EUA, com o dólar valorizado, terão maiores dificuldades de exportação e serão ainda mais invadidos pelos produtos estrangeiros. Num momento em que cresce seu rombo externo e eles encontram maiores dificuldades para financiá-lo, a desvalorização da moeda européia torna-se mortal. Por isso, a operação-salvamento do euro é, na verdade, uma tentativa de adiar o provável estouro das contas externas norte-americanas e o conseqüente colapso do dólar.

O governo norte-americano repete em relação ao euro a mesma operação que realizara antes com o iene. Este havia despencado de 80 ienes por dólar para mais de 140 há cerca de dois anos, o que vinha provocando a invasão dos EUA pelos produtos japoneses, além da dificuldade dos produtores americanos acessarem o mercado japonês. A intervenção sobre o mercado de ienes, orquestrada pelo Fed., conseguiu valorizar um pouco a moeda japonesa - passou para cerca de 110 ienes por dólar -, mas nem por isso conseguiu aliviar a balança comercial americana, que seguiu em trajetória explosiva.

Tudo indica que, no caso do euro, nem uma certa valorização se conseguirá, na medida em que o crescente déficit externo dos EUA vai seguir provocando a manutenção de elevadas taxas de juros nesse país, que, por sua vez, vão seguir atraindo capitais da Europa e debilitando o euro. O máximo que eles conseguirão com essa compra maciça da moeda européia é adiar um pouco o colapso. Para impedir que seus capitais sigam fugindo para o mercado financeiro norte-americano, os governos europeus teriam que elevar suas taxas de juros, coisa que, aliás, já vêm fazendo, ainda que de forma moderada. Mas, essa disputa acirrada por capitais vadios, com juros subindo nos dois lados do Atlântico, precipitaria ainda mais rapidamente a depressão que se avizinha na economia mundial, desencadeada pelo gigantesco rombo da economia americana.

Remendos como as operações de salvamento do iene ou do euro podem adiar um pouco o colapso, mas não poderão evitá-lo. Está cada vez mais evidente que a apodrecida desordem mundial que impera no mundo de hoje, hegemonizada pela decadente economia norte-americana, tem de ser varrida do planeta para que se inicie a construção de um novo mundo capaz de prosseguir o desenvolvimento da Humanidade.

Nilson Araújo de Souza

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