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 A guerra no Iraque não acabou, apenas começou

* MIGUEL URBANO RODRIGUES

Três semanas durou a guerra no Iraque. Os EUA começaram a perdê-la politicamente no dia em que os seus primeiros mísseis e bombas explodiram em Bagdá.

Em Washington os estrategistas do sistema de poder não tomaram ainda consciência dessa realidade. Os generais que comandaram a agressão ao povo iraquiano e o pró-cônsul nomeado para administrar o país também não perceberam o desfecho que espera o projeto imperial: a derrota.

Os políticos e generais norte-americanos da atualidade são menos instruídos e inteligentes do que os seus colegas franceses do final dos anos 50. George Bush filho, comparado com De Gaulle, tem a capacidade mental de um orangotango de Bornéu. O gigantesco poder militar dos EUA não anula essa evidência.

 O imperialismo está minado por crises devastadoras  

O Iraque como a Argélia é uma sociedade multinacional cujos povos e etnias conservaram a sua especificidade cultural ao longo de dezenas de séculos. Não obstante formas dialetais muito variadas, o árabe é, no convívio com outros idiomas, a língua oficial de iraquianos e argelinos. No Iraque essa língua (e o acervo cultural dela inseparável) sobreviveu, resistindo à dominação de impérios tão poderosos como o mongol, o persa e o otomano. Na Argélia, a presença turca passou como ondas sobre a areia de uma praia. E o sonho assimilador da França teve um desfecho de pesadelo.

Hoje, apesar do seu enorme poder, o imperialismo está minado por crises devastadoras que tendem a aprofundar-se e essa realidade não escapa às vítimas das suas guerras de conquista.

No Iraque, após as destruições provocadas pelas armas inteligentes e pelas convencionais, a luta pela libertação nacional apenas principiou. O crime de cultoricídio consumado com o saque do Museu de Arqueologia e os disparos quase diários das tropas de ocupação contra multidões desarmadas atuam sobre a consciência do povo como exemplos do que ele pode esperar da paz americana.

 A maré da resistência popular 

O gigantesco protesto dos peregrinos de Kerbala e as ininterruptas manifestações contra a presença militar antecipam a subida da maré da resistência popular.

Há meses que a propaganda norte-americana sustentava que os seus soldados seriam recebidos pela maioria xiita como libertadores. A ilusão logo foi desmentida pelos fatos. A comunidade xiita tem demonstrado uma combatividade crescente, exigindo a saída do exército de ocupação.

Contra o que Washington esperava, os iraquianos que vieram na bagagem das suas forças armadas inspiram desprezo ao povo. Ahmad Chalabi fala como os colaboracionistas que na Europa ocupada pelos nazis lhes mendigavam os favores; faz lembrar os caids e bachagas que na Argélia em luta atuavam como aliados dos franceses.

As duas primeiras reuniões com “notáveis”, convocadas para debater a formação de um governo iraquiano (sob tutela dos EUA), fracassaram. Ninguém ali se entendeu, apesar de quase todos serem gente submissa. Uma terceira reunião está prevista para o final de Maio. O representante pessoal do presidente Bush, um aventureiro de nome Zalmay Khalilzad, não conseguiu esconder o seu pessimismo. Utilizou a expressão “autoridade interina” para qualificar o executivo fantoche em preparação, a que dias antes chamava “governo”.

Massacres com os de Fallujah, nos dias 28 e 30 de Abril - 18 mortos e mais de 70 feridos - contribuem para amadurecer as espigas da seara de ódio contra o invasor. A soldadesca estadunidense comporta-se perante as populações como uma horda de bárbaros. O temor dos homens-bomba descontrola a tropa; um simples protesto pode desencadear uma chacina.

 Povo iraquiano: coragem e espírito combativo

O povo está oferecendo nas ruas provas de uma grande coragem, de um espírito combativo que os estrategistas do Pentágono não haviam previsto.

O fantástico poder destruidor das novas armas é impotente contra a vontade do povo.

No Iraque a guerra não acabou; apenas começou. Doravante será uma guerra diferente das que figuram nos manuais dos generais do Pentágono. Tal como aconteceu na Argélia, a força maior do povo que nela entra e que dela sairá vencedor não é a vinda de armas que não possui. É a força que sobe da memória da história, das raízes de uma grande cultura, a força que leva os povos às grandes epopéias na luta pela liberdade - uma força que os torna invencíveis na larga duração do tempo. Os EUA já principiaram a perder esta guerra. E o Iraque sairá dela independente, livre.

* jornalista e ex-deputado português

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