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Cruz e Souza: Cantor
de seu povo e de sua raça O grande líder
negro - e poeta - Eduardo de Oliveira sempre manifestou um apreço especial por Cruz e
Souza. O autor destas linhas jamais entendeu. Como se tratava de uma figura tão
extraordinária quanto o professor Eduardo, dava a Cruz e Souza o benefício da dúvida.
Afinal, Cruz e Souza, apesar de negro, aderiu a um credo estético particularmente
decadente e, sobretudo, elitista. Ele foi o mais importante dos nossos simbolistas
mas talvez aí haja uma pista: entre os brasileiros que aderiram ao simbolismo, é
provável que ele tenha sido o único verdadeiro poeta. Sucintamente, o que em outros era
pose o sofrimento e certa tonalidade melancólica e plangente nele era
proveniente da vida, ou seja, era verdadeiro nele o que em outros era encenação, ainda
que inconsciente. Comparem-se os versos do poeta negro com as produções de Alphonsus de
Guimaraens (por exemplo, o seu soneto mais conhecido, Hão de chorar por ela os
cinamomos...), e o leitor terá uma mostra do que dizemos. Sem dúvida, Cruz e Souza
não conseguiu encontrar os caminhos artísticos e os políticos - que o poderiam
tornar um grande da nossa literatura. Mas o que Sidnei Schneider, poeta e crítico
gaúcho, demonstra neste artigo para o HP é que apesar disso problemas que Sidnei
reconhece Cruz e Souza foi um cantor de seu povo, de sua raça. Neste 13 de Maio,
é a homenagem que prestamos aos brasileiros que vieram da África para construir o nosso
país: a recuperação, através do texto de Sidnei, de um dos negros que fizeram a nossa
literatura. C.
L. A poética do
Simbolismo, ao privilegiar o contorno e não a essência das coisas, não se constituía
exatamente num meio privilegiado de apreensão da realidade, mas continuava o
despreocupado culto da forma que presidia a estética parnasiana, desta vez através do
cultivo do símbolo, das correspondências, da musicalidade e da troca da pretensa
objetividade parnasiana pela busca do inefável. Apesar disso, a realidade rompeu a crosta
teórica que supostamente guiava o movimento, bastando citar como exemplo as próprias
Flores do Mal do pioneiro Charles Baudelaire (1821-1867), e, em especial, os poemas da
seção Quadros Parisienses o mesmo já não se poderia dizer da poesia de
Stéphane Mallarmé (1842-1898), no aprofundamento, até os estertores, daquela poética.
No Brasil, o fato de ser um negro filho de escravos a maior personalidade da escola
simbolista acabou por gerar uma poesia que superou tais limitações estéticas: Mas
essa mesma algema de amargura,/ Mas essa mesma Desventura extrema/ Faz com que
tualma suplicando gema/ E rebente em estrelas de ternura (O Assinalado
- Últimos Sonetos, US). A monótona
repetição de que Cruz e Sousa (1861-1898) era o poeta da cor branca, e que tinha, no
fundo, o desejo de ser branco, após o ensaio do pesquisador francês Roger Bastide,
dificultou a percepção do papel que sua poesia cumpriu, não só como expressão dos
sofrimentos da população negra, mas também de combate e busca de soluções. Oh!
trânsfugas do bem O
basta gigantesco, Eu
quero em rude (Cambiantes
- O Livro Derradeiro, LD) A tematização do
negro, direta ou indiretamente, é constante em sua poesia. Muitas vezes tal se dá
através da universalização do seu drama pessoal, como se pode ler no primeiro livro de
poemas: Pedem-te bis e um bis
não se despreza!/ Vamos! retesa os músculos, retesa/ Nessas macabras piruetas
daço.../ / E embora caias sobre o chão, fremente,/ Afogado em teu sangue estuoso e
quente,/ Ri! Coração, tristíssimo palhaço (Acrobata da dor - Broquéis , B). Alguns anos mais
tarde, o riso conquistaria outro teor, mais combativo: Rir! Não parece ao século presente/ Que o rir traduza,
sempre uma alegria.../ Rir! Mas não rir como essa pobre gente/ Que ri sem arte e sem
filosofia./.../ Rir! Mas com o rir demolidor e quente/ Duma profunda e trágica ironia. (Rir - Outros Sonetos - LD).
Não há, como se pode ver, oposição entre o que é pessoal e comum a todos: Por toda a parte escrito em fogo eterno:/
Inferno! Inferno! Inferno! Inferno! Inferno! (Pandemonium - Faróis, F). O espaço restrito a
que são relegados os marginalizados é tematizado: Sim! Bendita a cova estreita/ Mais larga que o mundo vão,/ Que
possa conter direita/ A noite do teu caixão! (Canção do bêbado - F). Contra as dificuldades, o
poder do coletivo: Ó pobres!
O vosso bando/ É tremendo, é formidando!// Ele já marcha crescendo/ O vosso bando
tremendo... (Litania dos
Pobres - F). No poema que abre
Faróis, o filho homenageado é a própria salvação para o poeta: Meu filho, frágil e terno,/ Socorre-me
do atro Inferno (Recolta
de Estrelas - F). O futuro do rebento transforma-se em angustia, porém, em outro
momento do livro: Ah! quanto
sentimento! ah! quanto sentimento!/ Sob a guarda piedosa e muda das Esferas/ Dorme, calmo,
embalado pela voz do vento,/ Frágil e pequenino e tenro como as heras./.../
Minhalma se debate e vai gemendo aflita/ No fundo turbilhão de grandes ânsias
mudas:/ Que esse tão pobre ser, de ternura infinita,/ Mais tarde irá tragar os venenos
de Judas! (Meu filho - F).
Os dois filhos de Cruz e Sousa morreram ainda pequenos, e o que nasceu logo após a morte
do poeta também veio a falecer. A esposa, Gavita, negra carioca, tomada pela loucura,
muito sofreu até ser internada. Tal trajetória pessoal e familiar poderia ser resumida
no verso Sei que cruz
infernal prendeu-te os braços (Vida Obscura Últimos Sonetos, US), onde o autor
se utiliza do próprio nome como ícone da escravidão e suas conseqüências. Quando,
como que por um milagre, Gavita retorna, sã e curada, o poeta não se contém de alegria: Posso mesmo já rir de tudo, tudo/ Que me
devora e me oprime./ Voltou-me o antigo sentimento mudo/ Do teu olhar que redime. (Ressurreição - F). Quanto
às crianças, não apenas as suas, mas as de todos os afro-brasileiros, o autor interpela
o próprio coração: És tu
que... a púrpura do amor vais estendendo/ Sobre as crianças, para protegê-las./.../
Vai, coração!...// As crianças negras, vermes da matéria,/ Colhidas do suplício à
estranha rede,/ Arranca-as do presídio da miséria/ E com teu sangue mata-lhes a sede!
(Crianças Negras - Dispersas -
LD). Cruz e Sousa não quer a submissão e propõe dar o troco: Resume todos esses travos/ Que a terra fazem
languescer./ Das mãos e pés arranca os cravos/ Das cruzes mil de cada ser.// A
terra é mãe! mas ébria e louca/ Tem germens bons e germens vis.../ Bendita
seja a negra boca/ Que tão malditas coisas diz! (Canção Negra - F). Para ele não existe
consideração pelo que é humano se inexistir reprovação ao que corrompe e desumaniza: Ódio são, ódio bom! sê meu escudo/
Contra os vilões do amor, que infamam tudo (Ódio Sagrado - US). Para o Ceará, a
primeira província a abolir a escravidão, o poeta dedicou um soneto: Da enérgica batalha estóica do Direito/
Desaba a escravatura a lei cujos fossos/ Se ergue a consciência e a onda em
mil destroços/ Resvala e tomba e cai o branco preconceito. (25 de Março Outros Sonetos, LD).
Em outro poema, ao afirmar que O
século é de revolta do alto transformismo, Cruz e Sousa propõe: Se
é força, se é preciso erguer um evangelho,/ mais reto, que instrua estético
mais novo/ Esmaguem-se do trono os dogmas de um velho/ E lance-se outro sangue aos
músculos do povo (A
revolta Cambiantes LD), onde as novas filosofia e estética se
mesclam com a necessidade de superar o Império de Dom Pedro II. E então? Ainda é
possível se considerar este um poeta que traiu a sua cor e bajulou a sociedade
escravocrata?
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