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 Golpe na Indonésia: 1 milhão de mortos CIA preparou “listas de execução” para Suharto

Se há algum crime que as agências de terrorismo dos EUA, em especial a que centraliza as outras, a CIA, fazem, há anos, tudo o que podem para ocultar as provas documentais (outras não faltam), é o golpe contra o presidente Sukarno e o massacre na Indonésia, que se sucedeu a ele, em 1965 e 1966. Foram massacradas pelos esbirros da CIA – Suharto e quadrilha, ou diretamente – um milhão de pessoas.

Em 2.001, a CIA literalmente seqüestrou o volume editado pelo Departamento de Estado sobre essa época, já impresso, encadernado e pronto para distribuição. O livro (Foreign Relations, volume XXVI, referente às relações dos EUA com a Indonésia, Malásia e Filipinas no período 1964-1968) é composto, como os demais da série, por documentos já liberados de acordo com a lei, acompanhados de comentários dos editores – o “Comitê Consultivo Histórico do Departamento de Estado”.

Não foi a primeira vez: em 1990, a CIA censurou outro volume, o referente ao golpe no Irã, e apagou dele qualquer menção à sua participação – ou seja, reduziu o volume a nada, pois sem a CIA não teria havido golpe nenhum no Irã. Em protesto, a coordenação do Comitê do Departamento de Estado renunciou, e o escândalo acabou na imprensa.

Ou seja, apesar do Departamento de Estado ser um ministério, a CIA decide o que ele publica ou deixa de publicar. No entanto, pelo menos um exemplar do livro sobre a Indonésia escapou ao seqüestro, pois a Imprensa Oficial dos EUA já tinha enviado alguns aos seus próprios pontos de venda, e seu conteúdo tornou-se público antes que fosse recolhido.

Pelo que se pode ler nele, difícil é saber onde acaba a CIA e começa o Departamento de Estado – ou, talvez, vice-versa. É verdade que o último tem seu próprio antro de terrorismo, o Bureau of Intelligence and Research (INR), implicado em ações encobertas em várias partes do mundo, segundo investigação do próprio Congresso dos EUA.

 ANTRO DE TERRORISMO 

Mas não é somente o INR que é um antro de terrorismo. Pelo livro do Departamento de Estado sobre a Indonésia, ele próprio, que é o ministério de relações exteriores dos EUA, funciona como antro de terrorismo, em estreita vinculação com a CIA e demais congêneres.

No livro, se sabe que Suharto e sua gangue usaram as “listas de descarte” preparadas pela CIA para assassinar em massa. O Departamento de Estado admite que três listas foram entregues aos bandidos de Suharto pela embaixada. Um telegrama, datado de agosto de 1966, assinado pelo embaixador dos EUA em Jacarta, Marshall Green, informa ao Departamento de Estado que “uma versão saneada [isto é, sem rastros dos seus verdadeiros autores] das listas foi disponibilizada para o governo indonésio [isto é, os golpistas] no último mês de dezembro e está aparentemente sendo usada pelas autoridades de segurança da Indonésia, que parecem carecer da mais simples e evidente informação sobre a liderança do PKI [Partido Comunista Indonésio]” (Foreign Relations, XXVI, págs. 386-387). Green acrescenta que também foram entregues listas de membros do Partindo (um outro partido progressista), e também do Baperki, a associação dos indonésios descendentes de chineses, que tinham apoiado o presidente Sukarno.

 FARISEU MAFIOSO 

A linguagem é de fariseu mafioso: para que as listas de execução foram entregues, senão para que os integrantes delas fossem executados? Um mês antes da entrega das listas a Suharto, no dia 13 de novembro de 1965, um telegrama da embaixada ao Departamento de Estado informava que de “de 50 a 100 membros do PKI são mortos todas as noites no leste e no centro de Java” (págs. 338-339). O telegrama esclarece que a fonte eram os esquadrões da morte de Sukarno, isto é, “tropas de civis anti-comunistas com a bênção do exército”.

Os mortos não eram somente membros do PKI, na época um dos maiores partidos do mundo. Eram quaisquer progressistas, nacionalistas, simpatizantes de Sukarno, líder da independência da Indonésia, embora a correspondência do Departamento de Estado sempre prefira – contradizendo a si mesma – dizer que são todos membros do PKI. Em 15 de abril de 1966, um outro telegrama diz que “francamente, nós não sabemos se o quadro real é perto de 100.000 ou de 1.000.000 [de mortos], mas acreditamos que seria mais sábio errar para o lado mais baixo das estimativas, especialmente quando questionados pela imprensa” (pág. 339).

Uma série de outros telegramas se esmera em dar detalhes. Quanto mais macabros, melhor. Por exemplo, “em Atjeh estão decapitando e colocando suas cabeças em estacas ao longo da estrada. Os corpos foram lançados nos rios ou no mar para não contaminar o solo” (pág. 338).

 CONLUIO CRIMINOSO 

Tudo isso era dirigido pela CIA e pelo Departamento de Estado. Em 2 de dezembro de 1965, o mesmo embaixador Green subscreve ao Departamento de Estado um pedido de 50 milhões de rúpias para um esquadrão criminoso imitador dos nazistas até mesmo no nome, Kap-Gestapu. Segundo diz Green ao secretário de Estado Assistente, George McBundy, “a julgar pelos resultados, eu diria que suas atividades são altamente bem sucedidas. Este grupo de inspiração militar, mas composto de civis, está carregando o peso dos atuais esforços repressivos, tendo como alvo o PKI, particularmente em Java central”.

O documento seguinte é um memorando da CIA sobre o mesmo assunto, assinado pelo famigerado William Colby, nomeado por Nixon para diretor geral da CIA, no lugar de Richard Helms. Colby, o mesmo que organizara os assassinatos da “Operação Phoenix”, no Vietnã, era, na época do golpe na Indonésia, diretor de operações da “agência”. Mas o memorando de Colby está censurado totalmente. O fato é que o Kap-Gestapu se empanzinou de sangue na ilha de Java. Depois, a CIA e outros antros ianques fizeram com que o corrupto Suharto tornasse o Estado indonésio um monopólio do assassinato, da tortura e do terrorismo - até sua queda, em meio à fúria popular, e à ascensão da filha do grande Sukarno ao governo.

CARLOS LOPES

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