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Kirchner defende reservas e rechaça extorsão do FMI

Depois de suspender o pagamento da dívida de quase US$ 3 bilhões no último dia 9, o presidente argentino fecha acordo preservando a soberania e faz o FMI a abandonar suas cláusulas de achaque

O presidente argentino, Néstor Kirchner, após suspender o pagamento da dívida de quase 3 bilhões de dólares com o FMI que venceu na terça-feira, dia 9 passado, fechou um acordo com o organismo internacional que teve que abrir mão das cláusulas de achaque que pretendia impor, preservando a soberania do país.

Nas condições anteriores que o Fundo pleiteava, a Argentina, que tem em suas reservas internacionais US$ 13,6 bilhões, despenderia quase 25% delas em um momento em que os esforços do país se concentram na retomada do crescimento econômico.

 A NEGOCIAÇÃO 

A Casa Rosada tinha afirmado que “o governo ratificou sua vontade e intenção de continuar as negociações em curso com vistas a atingir um acordo que garanta o crescimento econômico, o aumento do emprego e a redução da pobreza, junto com a capacidade de normalizar - progressivamente - as relações com os credores do exterior, as que se encontram, parcialmente, em situação irregular desde o colapso da conversibilidade a finais de 2001”.

“Isto demonstra que é possível chegar a acordos a partir de uma postura de dignidade”, expressou uma fonte do governo, na quarta-feira, dia 10, marcando a correção da política do presidente.

A negociação se estendeu durante vários dias. “Não venham nos ameaçar com o caos e as sete pragas (do Egito, se referindo à expressão bíblica). Nos assustaram com o caos e terminamos como terminamos. Tenhamos confiança em nós mesmos. Se ficamos todos juntos podemos sonhar com uma Argentina diferente, mas temos que ser solidários conosco mesmos”, conclamou Kirchner durante um ato numa instituição infantil, na mesma terça-feira passada, descartando a descabida pressão que o Fundo realizou nas últimas semanas.

“As exigências do FMI ultrapassaram a barreira do aceitável”, declarou Roberto Lavagna, ministro da Economia, se referindo aos pontos que o organismo que responde à política dos EUA tentou impor: um novo ajuste fiscal, aumentos de tarifas dos serviços públicos prestados pelas ineficientes e depre-dadoras empresas priva-tizadas, e a “compensação” aos bancos pelo fim da engessada paridade do peso com o dólar, acontecido em janeiro de 2002. O acordo acertado respeita as condições apresentadas pelo governo argentino.

Néstor Kirchner desmontou uma a uma as cláusulas pretendidas pelo FMI. “Quando nós discutimos, por exemplo, o superávit fiscal primário, não discutimos aleatoriamente um número. Se definimos um superávit fiscal mais alto, isso se paga com mais ajuste, com mais fome, com menos investimento. Ou seja, restando possibilidades reais à Argentina de que possa se desenvolver”, advertiu.

Além de rejeitar a pretensão do FMI, o presidente condenou os “setores neoliberais dentro da própria Argentina que dizem que devem ser feitos mais ajustes, ou dar mais superávit fiscal primário para poder ‘ordenar’ a situação e que venham os capitais”.

Desde o último dia 7, Kirchner assumiu pessoalmente as negociações com o FMI. Abordando o inédito papel do Fundo de defensor do aumento de tarifas das grandes empresas que tiveram margens exorbitantes de lucro durante o governo de Menem (1989-99), que fez as selvagens privatizações de que a Argentina foi vítima, frisou que “tem alguns setores que teimam em que haja um cronograma de tarifas. Devem saber que somos nós, os argentinos, os que temos que definir quando, como e aonde o vamos fazer e o momento, a situação, a decisão e o marco que corresponda, se é que é necessário”.

 CRESCIMENTO 

“A Argentina vai começar a crescer. Mudou a lógica e tem começado a baixar paulatinamente o desemprego, e indigência e a pobreza. Cresce o consumo, o consumo dos serviços públicos, cresce a arrecadação, e tudo isso é recente”, assegurou.   

O presidente argentino revelou que disse a um integrante da comitiva do FMI que está no país que “tinha alguns funcionários desses organismos que durante muitos anos - quase 10 - estiveram assessorando muito mal à Argentina. Não chegamos a esta situação só pelos erros argentinos e pelo desgoverno que havia. Lembrem que em muitos casos se protegia a governos que falavam que eram muito bons, como esses que houve na década dos 90”, se referindo tacitamente a Carlos Menem.

Mostrou que “o grande endividamento argentino aconteceu com a gestão de Alfredo Martinez de Hoz e se aprofundou paulatinamente com os governos democráticos mas se potencializou fortemente na década de 90 gerando uma dívida que é realmente incompreensível”, detalhou.

“A sociedade necessita que aqueles que governam este país também o façam solidariamente, entendendo com responsabilidade os corpos legislativos, não desde o capachismo, mas desde posturas absolutamente construtivas”, concluiu Kirchner.

SUSANA SANTOS

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