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Secretário de Argaña confirma: ‘ele já estava morto antes do atentado’

Como denunciou o HP em janeiro de 2000, Luis Molinas, secretário particular do ex-vice-presidente do Paraguai, disse que o atentado foi uma farsa montada para atingir Raúl Cubas e o líder Lino Oviedo

Luis Recasens Molinas, secretário particular do ex-vice-presidente do Paraguai, Luis Maria Ar-gaña, confirmou a denuncia feita pela Hora do Povo em minuciosa pesquisa fotográfica publicada na edição de 11 de janeiro de 2000: Argaña já estava morto antes do atentado do dia 23 de março de 1999.

O embuste foi montado, como denunciamos também na edição de 31 de março de 1999 - a primeira depois do crime - para dar um golpe no governo de Raúl Cubas e impedir a chegada ao poder do principal líder político do Paraguai, o general Lino Oviedo, até hoje exilado no Brasil. Só não eram conhecidos os detalhes da patifaria, agora desvendados na reportagem publicada pela revista Isto é, dia 25 de abril.

Molinas, que tem seu pedido de asilo político tramitando em Brasília, relatou que naquele 23 de março foi acionado pelo segurança de Argaña, Walter Domin-guez, para tirar o corpo do vice que “sofreu de um mal súbito quando estava no apartamento de uma amante. Para esconder isso e ao mesmo tempo atingir adversários políticos, a família e alguns aliados tramaram o atentado”. O medo de ser morto levou Molinas a registrar em um cartório de Assunção o seu testemunho. 

23 de março de 1999 às 0h30 

O secretário contou que chegou ao apartamento e encontrou Fabiana Casadio (a amante) em estado de choque e Argaña estendido na cama, “vestido apenas com uma cueca e sem sinais vitais”. Tiraram o corpo sem ser vistos, o levaram para a sua residência e aí, com a doentia cumplicidade dos filhos, principalmente do mais neurótico deles, Nelson Argaña, os filhotes de Stroessner  – derrubado por um levante militar e popular liderado pelo general Oviedo – armaram a farsa que se configurou em golpe de Estado contra o governo legítimo de Cubas. A quadrilha formada por Juan Carlos Galaverna, José Al-berto Planas e Walter Bower, entre outros. Contaram também com a assessoria do médico José Bellasai, autor da autópsia que respaldou a mentira.

Molinas disse que escutou dois tiros disparados no quarto onde estava o corpo do vice-presidente. “Nelson Argaña entrou no escritório [onde ele estava] com um saco preto levando uma mini Uzi, duas granadas e duas pistolas calibre 9 milímetros. Ele nos mandou que acompanhássemos o capitão Her-nán Ramirez até uma praça na esquina das ruas Venezuela e Sargento Gauto, bem próximo de onde se daria o atentado”, falou à Isto é, acrescentando que puderam ver Planás descendo a escada com uma arma na mão.

Detalhando a montagem, Molina contou que ele e Domin-guez, o segurança, foram deixados numa praça para impedir a passagem de uma Nissan Patrol bordô, que estaria transportando o corpo. Lá ocorreria a encenação do “assassinato” de Argaña. 

A armação

“Uma hora depois, porém, vimos que a Nissan com o corpo fora interceptada por um Fiat Tempra antes que chegasse onde estávamos. Ouvimos tiros. Nesse momento, Dominguez correu pela rua, passou por mim, disse que fora um prazer me conhecer e fugiu. Com a arma na mão, corri para minha casa e, assustado, me escondi no banheiro”, recorda. Segundo Molinas, o Fiat foi incinerado para não deixar rastros pelo dono, que se transformou em assassino confesso, Pablo Vara Esteche.

Molinas disse que resolveu falar porque, escaldado pela sucessão de crimes que aconteceram para garantir a impunidade dos trânsfugas, “temo ter o mesmo fim de Gumercindo Aguilar”. Molinas refere-se ao ladrão e alcagüete da polícia contratado para prestar falso testemunho para envolver o general Oviedo e acabou assassinado em setembro de 2003.

Aguilar, vulgo “Condorito”, foi pago para dizer em 27 de março de 1999 que tinha participado do planejamento do atentado que teria sido realizado numa reunião na cidade de Juan Caballero. O general Oviedo, Conrado Pappalardo, e o então governador Victor Hugo Pania-gua, estavam nesse encontro, pela testemunha de Aguilar, usada pelos crápulas para botar no governo o subserviente presidente do Senado, Gonzá-lez Macchi.

Em reportagem na edição de 11 de janeiro de 2000, o HP destaca: “O general Lino Ovie-do denunciou em sua página na internet que o vice-presidente Luis Maria Argaña, já estava morto antes do atentado do dia 23 de março do ano passado. Oviedo, através de uma farta documentação e de inúmeras fotografias, sustenta que Argaña não morreu dentro do automóvel”. 

As evidências 

Uma das principais evidências expostas pelo general nesta edição foi a ausência de manchas de sangue na camisa branca vestida por Argaña nas fotos tiradas 15 minutos depois dos disparos. Segundo a necropsia, o vice-presidente foi atingido por cinco tiros do lado direito do tórax e abdômen. O banco traseiro do carro – no qual Argaña caiu – apesar do contato com os ferimentos, não continha manchas de sangue. Por outro lado, de forma estranha, o corpo do vice tombou para a direita, em sentido contrário ao dos projéteis que o atingiram. Além disso, o líder paraguaio alertava que o corpo do vice-presidente já apresentava rigidez cadavérica, processo que se estabelece cerca de seis horas depois da morte, no mínimo.

O HP também reproduziu a denuncia, agora confirmada por Molinas, da participação criminosa do médico Bellasai. O jornalista Hugo Olazar, do jornal paraguaio ABC Collor, que denunciou a farsa e o golpe das viúvas de Stroessner, colaborou com o HP escrevendo esclarecedores artigos que desmascaram a versão oficial sobre o acontecido. 

Interesses 

“A primeira pergunta que se faz normalmente um bom policial quando acontece um crime é qual foi o butim ou, pelo menos, quem saiu beneficiado por um crime como o do Argaña. Neste caso, não só foi desalojado do poder que ocupava em forma absolutamente legítima, mas foi exilado no Brasil. O homem que possibilitou sua vitória nas eleições presidenciais de maio de 1998, Lino Oviedo, andava desde 9 de dezembro na clandestinidade, até que aconteceu sua prisão e remissão a um cárcere de Brasília”, destacou.

“Em contrapartida, os arganhistas-stroessnistas, que já tinham se retirado anos atrás para quartéis de inverno, reciclaram-se e hoje monopolizam o poder como nos velhos tempos da ditadura”, destacou Hugo, em artigo para o Hora do Povo, em 18 de junho de 2000.   

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