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Lorde Hutton ataca a BBC e a liberdade de imprensa para acobertar mentiras de Blair No momento em que o
inspetor-chefe de armas de Bush reconhece que não há armas de destruição em
massa no Iraque, o juiz inglês Lorde Hutton acaba de produzir uma escandalosa
peça de encobrimento ao isentar Blair nas “investigações” sobre a morte
do Dr. Kelly – que abalou o país – e concluir que a direção da BBC
permitiu o jornalista Andrew Gilligan acusar “sem fundamento” o governo inglês
de ter exagerado o dossiê sobre o Iraque para justificar a invasão do país,
com a inclusão da ameaça de uso de armas químicas em 45 minutos, que não
existia antes. Principal fonte das denúncias do jornalista, o Dr. Kelly –
respeitado especialista em armas biológicas que já fora inspetor de armas no
Iraque – apareceu morto após ter sua identidade revelada, através de
estratagema, pelo ministério da Defesa. Este convocou uma coletiva onde dizia o
perfil da “fonte” – que só se aplicava a Kelly - e depois confirmava o
nome perguntado pelos repórteres presentes. LORDE CULPA A VÍTIMA Mas o lorde isentou o governo de qualquer responsabilidade na morte deste. “A identidade ia aparecer de qualquer maneira”, sentenciou o douto juiz, concluindo praticamente que a morte de Kelly foi culpa dele mesmo, por ser “muito fechado” e por ter se dado conta de que “iria perder o emprego”. A propósito, o juiz, barão de Bresagh, não é neófito na produção de excrementos “jurídicos”. Dirigiu durante vários anos a autoridade judiciária na Irlanda do Norte – onde qualquer desavisado era rapidamente transformado em perigoso elemento do IRA, pelos zelosos juízes. Ao se demitir na quarta-feira, o presidente da BBC, Gavyn Davies, denunciou a “ameaça à liberdade da imprensa” contida nas conclusões do relatório de Hutton. “O informe de Hutton é seletivo, grosseiramente parcial e ameaça o futuro do jornalismo de investigação”, denunciou no dia 29 à AFP Jeremy Dear, secretário-geral do Sindicato Nacional do Jornalismo britânico. “Os fatos mencionados por Gilligan eram reais. Isso é o mais importante, e é o que o governo quer esconder”, destacou Barry White, coordenador nacional da Campanha para a liberdade da imprensa e da mídia. “A maioria das pessoas e dos jornalistas não acredita que o relatório de Hutton seja confiável”, completou Dear. Por todo o país, centenas de jornalistas e funcionários da BBC se manifestaram contra as demissões e o relatório acintosamente pró-Blair. Por sua vez o diretor-geral da BBC, Greg Dyke, que se demitiu, contestou o relatório Hutton, dizendo que lhe falta equilíbrio e está coalhado de erros. “Eu, como outros na BBC, certamente nossa equipe jurídica, estamos muito surpresos pela natureza do relatório”, afirmou ao programa “Today”. “É marcante como ele deu o benefício da dúvida a virtualmente todos no governo e a ninguém na BBC”. Também o jornalista Andrew Gilligan se demitiu em repúdio à farsa. Enquete do jornal conservador Daily Telegraph registrou que 56% consideram o relatório um “encobrimento”, enquanto 67% disseram “confiar na BBC”. Além de encobrir o papel decisivo de Blair para levar o cientista à morte – que incluíram o confinamento deste por 24 horas antes do depoimento que prestou ao parlamento – Hutton também fez de tudo para dar um ar de normalidade à inclusão, na última hora, da “ameaça das armas químicas disparadas em 45 minutos”. Não entrou no último projeto de declaração do serviço secreto, de 29 de agosto, porque “ainda não haviam recebido informação” que receberam e foi considerada para o documento final de 5 de setembro, explicou. Era impossível obter tal confirmação por fonte fidedigna – não havia armas químicas -, nem havia tempo hábil – seis dias - para uma confirmação, se de fato estivessem considerando a hipótese, e não se tratasse, como se tratou, de uma mentira plantada para dar pretexto ao roubo do petróleo iraquiano. Foi isso que Gilligan denunciou. Até mesmo porque, como afirmava repetidamente o governo de Sadam, não havia armas de destruição em massa, e agora Mr. Kay, o inspetor uma vez tão confiante de encontrá-las, acaba de reconhecer que elas não existem. Mas Blair mantém sua mentira dos “45 minutos” – que foi decisiva para justificar a guerra, num país onde havia ocorrido as maiores manifestações da história, 2 milhões em Londres, contra a agressão. Como disse o ex-chanceler Robin Cook, que se demitiu do governo inglês contra a invasão, “eu não vejo como Tony Blair pode manter a linha de que ele estava certo quando todo mundo mais está agora admitindo que eles estavam errados”. Mas Lorde Hutton está fazendo o que pode para ajudar o comparsa Blair. AP
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