|
|
Wilson Choeri, diretor-geral do Pedro II “O
Colégio Pedro II deve ser o paradigma da educação pública de massa e de
qualidade”
Em
entrevista ao HP, o diretor-geral reeleito do Colégio Pedro II fala sobre a
história de um dos colégios públicos mais importantes do país, sobre o
ensino no Brasil e suas metas para a nova gestão. “É preciso dar aos jovens
instrumentos capazes de estimular seu potencial infinito de criar e
desenvolver” Para Choeri, parte da história do
Pedro II se ajusta à própria História do Brasil do Segundo Reinado. O colégio
foi criado em 1837, e por muito
tempo serviu de modelo para a educação. “Quando
foi organizado por Bernardo de Vasconcelos, seguiu o modelo de educação
francesa e durante muito tempo manteve esta influência curricular de humanidade
que era corrente na época”, afirma. Com
o advento da república, o colégio mudou de nome temporariamente, passou a se
chamar Ginásio Nacional e depois, no governo do Marechal Hermes da Fonseca,
voltou a ter a denominação de Colégio Pedro II. O diretor lembra que até 1930, o
colégio servia de modelo através dos exames de credenciamento de escolas. Entretanto, com a Revolução de 1930 e a criação do Ministério
da Educação, o colégio passou a não mais exercer os exames de credenciamento
da educação brasileira. Antes de 30, a educação estava ligada ao Ministério
da Justiça dos Negócios do Interior e passou a ser do novo ministério, o Mec.
“O primeiro ministro foi Francisco Campos, que já tinha uma tradição muito
boa em matéria de educação. O
Mec passou a centralizar toda a educação brasileira, passando a oferecer os
programas a serem seguidos em todo o território nacional, a estabelecer todas
as normativas de provas, o calendário escolar passou a ser unificado e o Mec
fiscalizando através de uma equipe formada por concurso público muito rígido
de inspetores educacionais. Isso
foi um grande avanço”. O colégio Pedro II, acrescentou
Choeri, continuou tendo a autonomia relativa que possuía com administração
direta. A congregação do colégio tinha um peso específico muito grande,
porque os grandes catedráticos do colégio ainda existiam e já eram
considerados homens de nível acadêmico altíssimo.
“Porém, no decorrer do tempo o colégio foi perdendo essa capacidade
de ser o padrão da educação brasileira porque apareceram, pela evolução,
pelo crescimento do país e pelas diversificações ocorridas, outros centros
acadêmicos de excelência por todo o país. O Pedro II, na nossa visão, não
é mais a escola modelo para todo o universo, mas tem que ser o paradigma da
educação pública de massa e de qualidade”.
“Quando fui secretário de
ensino do colégio, antes de ser diretor, fizemos a transformação que levou o
Pedro II a voltar a ser, não o modelo, mas o paradigma.
Tínhamos 3.800 alunos, hoje há cerca de 14. 300.
A massa não é na sala de aula e sim no espaço geral do colégio”. “Estamos sobre a égide da lei
9394/96, que é anterior ao governo Lula. E
esta lei foi um cheque em branco
que se pôde preencher como quisesse, deu um grau de liberdade muito grande, e
essa liberdade em um país em desenvolvimento deveria ter um direcionamento
maior, porque a criatividade não é bem distribuída. Então, a escola tem que
estabelecer currículos, parâmetros e objetivos para serem cumpridos para
queimar etapas na área de conteúdo da educação”.
Choeri afirma ainda que a lei exige que o professor tenha que utilizar
recursos metodológicos que não dominou, que as faculdades de educação
não passaram. O diretor-geral afirmou que foi
feito um projeto pedagógico muito bom no Colégio Pedro II, com muito debate. “Da classe de alfabetização até a quarta série temos um
avanço muito grande. Entretanto, um problema que estamos ressentindo no ensino
médio e fundamental é que esse plano de reforma não está atingindo a ponta
do processo, porque precisava fazer uma capacitação muito grande do
professor”. E, para Choeri, essa
capacitação não é no conteúdo “porque de um modo geral o conteúdo do
professor é bom. Porém,
a metodologia e as técnicas que essa lei exige, como a contextualização
do conhecimento, faz com que seja necessário mudar o professor para que ele
tenha uma cultura metodológica de domínio de determinadas técnicas que ele não
tem. O professor está acostumado
àquela forma tradicional da prova verificando o conteúdo, quando agora não
somente a prova verifica o conteúdo. Vários outros aspectos têm de ser
considerados, como o trabalho em grupo, a interdisciplinaridade”.
Todo o universo escolar, segundo
Choeri, não recebeu do Mec, no governo FHC, verbas para a capacitação do
professor no uso das novas técnicas. Para sua nova gestão, o diretor-
geral tem como um dos objetivos criar a secretaria do ensino fundamental e
secretaria do ensino médio dentro de uma secretaria de ensino.
“A secretaria de ensino fundamental teria a classe de alfabetização
até a 2ª série como o ciclo de alfabetização.
A 3ª e a 4ª série formam um novo ciclo onde o professor não é mais
polivalente, já é um professor específico.
A 5ª e a 6ª série formariam o ciclo que coroaria o ensino fundamental. A 7ª e a 8ª série seriam o ciclo propedêutico para a
passagem para o ensino médio. Então,
temos que reestruturar os conteúdos programáticos para a 7ª e 8ª séries”.
O
professor Choeri explica que no ensino médio, teriam as 1ª e 2ª séries com
todas as disciplina aprofundadas. Na
3ª série, haveria
uma bifurcação. O aluno que
pretende fazer faculdade, passa a ter a 3ª
série já visando a universidade. A
outra vertente teria a possibilidade de fazer um curso técnico de caráter
terciário. “Vamos abrir para que
o jovem possa ter o início de um conhecimento que o permita encontrar emprego
se não quer ir para a universidade. E
vamos fazer uma 4ª série optativa, para que o aluno possa sair técnico.
Tudo isso sem perder as características do Pedro II de um ensino de
qualidade, e criar um homem que vai influir no processo da economia”.
O Exército doou para o Ministério
da Educação uma área de 57 mil metros quadrados no bairro de Realengo, Zona
Oeste do Rio de Janeiro, que será transferida pelo ministério para o Colégio
Pedro II construir uma nova unidade do colégio. “Com essa área, podemos
fazer unidade escolar, unidade cultural, várias atividades. Se
o novo ministro desejar fazer de fato uma ação muito grande, podemos
desenvolver essa área como sendo catalisador
dentro daquela região, que é extremamente carente”. Choeri acrescenta que também está
em negociação com a prefeitura do Rio a cessão do turno da noite da Escola
Municipal Gil Vicente para que seja implantado ali uma unidade do colégio. “Já
possuo todo o planejamento para isso. A prefeitura vai ceder o espaço e o
Ministério da Educação, os equipamentos e professores”, disse. Wilson Choeri foi o criador do
Projeto Rondon no qual “o jovem universitário ia sentir a realidade
brasileira no interior do país, tomar um banho de Brasil, vivenciar seu chão.
A primeira fase do projeto Rondon conscientizou a nação para a Amazônia,
tanto que o lema era integrar para não entregar”.
O segundo projeto era o “Campos
Avançados”. Nesse projeto, que tinha mais de 30 campos, o aluno não era mais
sazonado. O jovem ia de 30 em 30
dias e ficava em um município do interior brasileiro. O município dava o
alojamento, o projeto dava a alimentação, e a universidade, os recursos
humanos. “Depois propus um terceiro
projeto, o Serviço de Integração Nacional (SIN), no qual o aluno que
ingressasse na universidade e optasse por participar do Serviço de Integração
Nacional, teria seu curso inteiramente grátis”. No término do curso ele ficaria
no mínimo dois anos interiorizado recebendo o salário profissional pelo Fundo
de Participação do Município. Segundo
Choeri, os municípios seriam escolhidos pela importância para o
desenvolvimento nacional. “O
estudante de administração e economia, por exemplo, vai ensinar como fazer o
orçamento participativo. Se for um
aluno de geologia, vai com um contador geiger e detectar na região afloramento
de urânio radioativo. O estudante
vai levar o que ele aprendeu para o interior”.
Já nas universidades
particulares, ressalta, o estudante que recebe bolsa do governo federal não
pagará com juros, e sim interiorizado. “O
jovem que vai para o interior, acaba se fixando. O desemprego jovem é muito
grande. Com o projeto, ele teria
emprego por dois anos. É muito fácil
fazer isso, basta ter vontade. A
educação tem que ter uma visão geopolítica.
O Estado brasileiro precisa de uma visão geoestratégica”.
Finalizando,
Choeri afirmou: “Imagine agora, no Governo Lula, reunir nesse projeto,
por exemplo, o Ministério da Educação, do Bem Estar Social, da Saúde e
outros. Haveria um entrosamento dos
Ministérios visando a interiorização do país.
Acredito na juventude porque o jovem é a levedura moral da Nação. É
preciso dar a eles instrumentos capazes de aproveitar esse potencial infinito de
criar e desenvolver”.
|