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Sadam Hussein: “Esta é uma farsa montada por Bush, o criminoso” Após seis meses de tortura, incomunicável nas masmorras da CIA, levado, sem saber onde ia, a quartel dos invasores, Sadam respondeu, quando um serviçal que fazia o papel de “juiz” lhe perguntou o nome: “Sadam Hussein al-Majid, presidente do Iraque” O local era um quartel
ianque em Bagdá; o “juiz”, um
atabalhoa do fantoche sob medida para o
“tribunal” de Bush; generais ianques, de paletó, se amontoavam pela sala,
onde apenas uns poucos jornalistas contados a dedo puderam ingressar; nada de
advogados: finalmente visto em público, Sadam Hussein, após seis meses de
tortura em prisão isolada, incomunicável, levado para lá sem saber para onde
estava indo. Durante esse tempo, derrotara os estripadores da CIA em incontáveis
interrogatórios. Agora, na quinta-feira, continuava pronto para o bom combate.
Um gigante do seu povo, o líder de uma revolução que nacionalizou o petróleo
e arrancou o povo iraquiano da miséria e da ignorância. “Isso tudo é uma
farsa montada por Bush, o criminoso, para ajudar sua campanha eleitoral”, ele
afirmou. Sereno. Contundente. Nessa hora, risonho diante da atrapalhação do
serviçal que representava o papel de “juiz” e do fracasso de Bush.
Realmente, se há algo que o aparecimento de Sadam não ajudou foi à campanha
de Bush. Não seria Sadam a colaborar com isso. Somente um idiota, um rato que não
sabe o que vale um homem, é que poderia esperar o contrário. “ELE ESTÁ NO COMANDO” Uma agência de notícias reproduziu o diálogo entre dois iraquianos que viam o “julgamento” em um local público. “Ele está comandando”, disse um; ao que o outro respondeu, também risonho: “é por isso que ele é o presidente”. Nos dias que se seguiram, o povo foi às ruas, empunhar seu retrato, sua face honrada, orgulhosa. O seu presidente. Sadam. As fotografias da encenação foram rigorosamente censuradas. Foi proibido o registro de som, e o vídeo que depois apareceu na televisão foi feito sem autorização dos invasores – como relatou depois um câmera, ele deixou ligado o seu aparelho quando ordenaram que o desligasse. Bem que o serviçal tentou
fazer o que lhe foi requerido. Abriu a encenação perguntando o nome do
interrogado. “Sadam Hussein Al-majid, presidente da República do Iraque”.
Diante da resposta, resolveu “orientar” um escrivão para que pusesse entre
parênteses um ex. Ex-presidente. “Não, atual. Presente”, retrucou Sadam:
“é a vontade do povo”. Perguntou, então, onde era a residência de Sadam.
“Em cada casa iraquiana”, eis a resposta. “JUIZ” DOS INVASORES Estupefatos, os invasores e colaboracionistas viram o líder iraquiano exigir do serviçal que se identificasse. Sadam prosseguiu: “Você tem um certificado legal? Desde quando você foi reconhecido como juiz, após a ocupação ou antes?” Desde os dias do prévio regime – esclareceu o colaboracionista – até agora. E se entrega: “A autoridade da coalizão me pediu para realizar este julgamento”. Então Sadam abriu um grande e irônico sorriso: “então você está me investigando por ordem das forças de ocupação. Portanto, você é um iraquiano que está representando as forças de ocupação?” O sujeito tentou explicar que era juiz mesmo porque... tinha sido designado por decreto do próprio Sadam. O presidente iraquiano retrucou: “Então você reitera que todo iraquiano deve respeitar a lei iraquiana. Portanto a lei que foi instituída anteriormente representa a vontade do povo, certo?”. O “juiz” se viu forçado a concordar. “Sim, com a vontade de Deus”. Portanto – concluiu Sadam -, “você não deveria trabalhar para as forças de ocupação”. O colaboracionista tentou ainda se justificar: “estou reassumindo e continuando meu trabalho”. O presidente prosseguiu: “Você é um juiz? Você é um juiz? Juízes valorizam a lei e julgam de acordo com a lei, certo? Direito? Direito é uma questão relativa. Para nós, o direito é nossa herança com base no Alcorão, na Sharia, certo?” Então, o líder iraquiano
afirmou: “Não estou falando de Sadam Hussein, se ele era um cidadão ou
detinha outras qualificações. Não falo por apego à minha posição, mas em
respeito à vontade do povo que decidiu escolher Sadam Hussein como o líder da
revolução. Portanto, quando eu digo presidente da República do Iraque, não
é uma formalidade ou por apego a uma posição, mas sim para reiterar ao povo
iraquiano que respeito a sua vontade”. SEM ADVOGADO Sadam desmascarou, então, o jogo de cartas marcadas: “o sr. me convocou para me impor acusações, não, o sr. chamou de crimes”. O colaboracionista declarou-se, então, um “juiz investigativo”: se houver provas, “então eu encaminharei para uma corte de jurisdição.” Sadam replicou: “Qualquer acusado, quando ele comparece a um tribunal, antes precisa haver uma investigação. Isso não é uma corte. Deixe-me esclarecer isso. Espero que você se lembre que é um juiz empossado pelo povo. Realmente, não importa se você vai me condenar ou não; isso não é importante. Mas o que é importante é que você se lembre que é um juiz”. Sadam aproveitou para lembrar outro ligeiro detalhe de um processo legal: “o sr. foi notificado de que eu tenho advogados, certo? Eu não devo me encontrar com os advogados antes de comparecer à sua presença?” Voltou a encurralar o serviçal da invasão: “Por qual lei você está me processando?” “De acordo com a lei iraquiana”, emendou o serviçal. Então – revidou o presidente iraquiano – “é pela lei que eu promulguei. Pela lei que eu aprovei e ratifiquei”. O colaboracionista passou então a enumerar aquela lista de acusações parida pela CIA e a Casa Branca. “Portanto os crimes, as acusações: morte intencional através do uso de armas químicas em Halabja”. “Não” – interrompeu-o o líder iraquiano. Depois de mais algumas repetições da propaganda de Bush, o colaboracionista chegou a “sétima acusação é contra Sadam Hussein como presidente da república e comandante em chefe do exército quando o exército foi ao Kuait”. “Como pode você, um iraquiano, falar em invasão do Kuait? Todo iraquiano sabe que o Kuait é parte do Iraque”, interrompeu-o Sadam, acrescentando: “não foi uma invasão”. Referindo-se ao sheik do Kuait e à meia dúzia que o cerca, o presidente iraquiano afirmou: “Eu revidei ao Kuait porque aqueles cães queriam transformar as mulheres iraquianas em prostitutas de dez dinares. Os soldados iraquianos foram defender a honra do Iraque”. “A lei julgará Sadam Hussein porque ele defende o Iraque?”. Os delicados ouvidos do colaboracionista se incomodaram com a referência a “cães” e ele pediu “respeito” naquele canil. Sadam questionou, ainda, o
julgamento de um presidente, à margem das normas legais e constitucionais.
“De acordo com a competência formal, é permissível não reconhecer um título
oficial [isto é, o de presidente da República]? A pessoa tem que ser tratada a
esse respeito sem violação das garantias que são oferecidas pela Constituição.
É esta a lei que você está utilizando contra mim agora”. ENCENAÇÃO Nesse ponto, o serviçal
considerou melhor encerrar a encenação e pediu que o líder iraquiano
“assinasse os documentos com as “acusações”. Sadam se recusou.
“Permita-me não assinar nada até que os advogados estejam presentes”.
“As garantias ... o senhor tem que assinar porque foram lidas para o
senhor”, balbuciou o colaboracionista. “Não, eu assinarei quando os
advogados estiverem presentes”, decidiu Sadam. O sujeito, então, perguntou se
Sadam tinha advogados, uma pergunta idiota – e cínica, pois é público que
existem alguns milhares de advogados querendo defender Sadam, e os invasores não
os deixaram se encontrar com Sadam, mantendo-o incomunicável. Disse, também,
que eles – ou seja, colaboracionistas dos invasores e traidores do país –
poderiam nomear um advogado para ele, se ele não pudesse pagar os honorários
de algum. Sadam retorquiu com ironia: “segundo os americanos, eu tenho alguns
milhões de dólares em Genebra, então acho que dá para eu pagar um”.
Nenhuma das “acusações” era sobre esse dinheiro, porque sabem que ele só
existe na propaganda da CIA. Sadam não assinou nada. Os invasores e fantoches
tinham acabado de criar seu próprio e inelutável julgamento. ANTONIO PIMENTA
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