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Juros reais aumentam e atingem 13,8% em janeiro

Com o BC mantendo os juros nominais na estratosfera, e a inflação em queda, o resultado foi o aumento dos juros reais: de 4% em maio para 13,8% em janeiro

Os juros reais  atingiram 13,8% (ao ano) em janeiro.  Em fevereiro eles aumentaram ainda mais, pois a inflação declinou. Apesar disso, com a aproximação da reunião do Copom, especuladores promoveram na quarta-feira um charivari alarmista, segundo o qual a inflação estaria subindo. O motivo é claro: manter os juros altos.

O juro real é o verdadeiro valor do juro. Significa o juro nominal menos a inflação. É uma questão análoga a do salário real: para aferir o verdadeiro valor do salário é necessário descontar dele a inflação. Pois, como aconteceu em alguns países do mundo, ele pode ter um valor nominal designado em milhões e, no entanto, não comprar quase nada, se a inflação for muito alta. Nos juros, dá-se o mesmo: o que importa é o seu valor real, ou seja, depois de descontada a inflação.

O patamar de 13,8% ao ano (o segundo do mundo, somente atrás da Turquia) foi atingido devido à política do BC, que através do Copom, por duas vezes manteve a taxa de juros básicos em 16,5%, contra a vontade de todo o país – do presidente da República ao mais simples cidadão – e, sobretudo, contra o bom senso. Como a inflação dos últimos 12 meses esteve em queda, isso significa que o juro real subiu. 

QUEDA 

A explicação do Copom para manter inalterada a taxa de juros foi, ao contrário, de que a inflação estaria aumentando. No entanto, desde maio do ano passado, com oscilações insignificantes, a inflação medida pelo IBGE está em queda. A variação da inflação em 12 meses medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) - que é usado habitualmente para calcular os juros reais ao ano - caiu de 17,2% em maio para 7,7% no último mês de janeiro.

Quanto à inflação mensal, desde março de 2003 - quando a devastação causada por oito anos de Fernando Henrique, Serra, Ricardo Sérgio e outros, ameaçava fazê-la realmente aumentar – ela caiu a menos de 1%. Evidentemente, houve oscilações: de 0,98% em abril, ela foi negativa em junho (-0,15%), depois atingiu 0,78% em setembro, para depois cair a 0,29% no mês seguinte. Em janeiro, ela foi de 0,76%, absolutamente nada indicando que havia qualquer surto inflacionário. Tanto assim que ela caiu outra vez em fevereiro (por exemplo, o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) medido pela Fipe caiu de 0,65% em janeiro para 0,19%. Até o fechamento desta edição o IBGE ainda não havia divulgado o IPCA de fevereiro).

Naturalmente, com o BC mantendo os juros nominais na estratosfera, o resultado foi o aumento dos juros reais: eles passaram de 4% em maio para 13,8% em janeiro. Esse aumento de quase 10 pontos percentuais foi renitente, recalcitrante, e contra todo o país, inclusive o seu principal dirigente: em junho eles foram para 5,1%; em julho, para 7,4%; em agosto, depois que o Copom foi obrigado a baixar ligeiramente a taxa de juros, eles desceram também ligeiramente: 6,7%. Mas, no mês seguinte, subiram outra vez: 7,6%; e não mais caíram: 8,7% em outubro; 11,4% em novembro; 12,9% em dezembro e 13,8% em janeiro. 

LUCROS 

A situação somente não foi pior devido à atuação do presidente da República, expressando a vontade de todo o país. Pois, a questão que está em pauta nas taxas de juros é se o país deve crescer ou não. Os juros básicos, como se sabe, puxam (ou empurram) os demais juros da economia: o financiamento às empresas e ao consumidor. Com juros básicos altos, os juros dessas outras operações são muito maiores ainda. Além do que, a manutenção dos juros reais básicos altos - isto é, os juros dos títulos públicos - faz com que os bancos prefiram lucrar com eles do que emprestando às empresas e ao consumidor. O que tem outra conseqüência: o aumento da dívida pública, com a asfixia das verbas e investimentos do Estado.

Como conseqüência do que houve de maio para cá, as empresas produtivas sofreram perdas, ou não conseguiram crescer, ou tiveram um crescimento pífio. O desemprego continuou alto. E somente um setor conseguiu lucros apreciáveis, mais exatamente, escandalosos: o lucro líquido dos quatro maiores bancos instalados dentro do país aumentou, em média, 28,4% em 2.003 em relação ao ano anterior (Globalinvest, “Relatório Mensal – Taxas de Juros – Janeiro 2004”). Seu patrimônio líquido aumentou 26,5%. Já os lucros dos setores produtivos – incluindo aqui as grandes empresas estatais e privadas – aumentaram em média meros 2%.

VALDO ALBUQUERQUE

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