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Saci como afirmação da identidade nacional

Entidade reivindica Dia do Saci, em  31 de outubro, como forma de reavivar no imaginário de crianças e jovens os legítimos representantes da nossa cultura

U m dos mitos mais populares do folclore brasileiro, o Saci, com sua figura simpática, matreira e cheia de poderes, está sendo convocado para uma nobre missão: usar das mil travessuras que lhe são atribuídas para, como já escrevia Monteiro Lobato em 1917, “dar nó na crina das potências que invadem os outros países com uma indústria cultural predadora e orquestrada”.

Defensores do folclore brasileiro e, em especial, a Sosaci, entidade que reúne interessados em valorizar e difundir a tradição oral, a cultura popular e infantil, os mitos e as lendas brasileiras, querem reavivar no imaginário de nossas crianças e jovens os legítimos representantes da nossa cultura. Como ponto de partida, a entidade está organizando um abaixo-assinado solicitando ao ministro da Cultura, Gilberto Gil, a instituição do dia 31 de outubro como Dia do Saci e seus Amigos, em âmbito nacional. Segundo o manifesto “o Saci é reconhecido como uma força da resistência cultural”. Na figura do divertido personagem, “esbarram hoje, impotentes, os x-men, os pokemon, os raloins e os jogos de guerra, como esbarravam ontem patos assexuados e ratos com orelhas de canguru”. Não por acaso, a escolha do dia 31 de outubro coincide com o Halloween, o dia das bruxas dos Estados Unidos, que a cada ano vem se infiltrando no Brasil, inclusive nas escolas, como macaqueação de manifestações totalmente alheias à nossa cultura.  

Toda essa movimentação, que surgiu junto com a Sosaci, em São Luiz de Paraitinga, cidade do interior paulista conhecida por sua grande atividade cultural e musical, já corre também nas instâncias do poder: um projeto de lei sobre o Dia do Saci, na Câmara dos Deputados, e outro na Câmara de Vereadores de São Paulo. Em São Luiz de Paraitinga, os vereadores já instituíram o Dia do Saci. “A idéia é valorizar a cultura nacional que é tão rica e está sendo esquecida com a difusão da cultura americana”, afirmou o vereador e co-autor do projeto de lei, Marcelo Toledo.

Para Jô Amado, um dos fundadores da Sosaci, “a cultura popular é um elemento essencial à identidade de um povo. As tentativas insidiosas de apagar do imaginário do povo brasileiro sua cultura, seus mitos, suas lendas, representam a tentativa de destruir a identidade do nosso país, e, dentre todos os mitos e lendas do nosso folclore, o Saci representa a essência da brasilidade porque integra as diversas raízes do povo brasileiro – a indígena, africana e européia”.

 A figura do Saci é uma das mais difundidas do folclore brasileiro. Como todos os mitos, sua origem e figura como a conhecemos atualmente é também motivo de inúmeras e controvertidas interpretações, tendo atravessado uma sucessão de modificações, sob a influência dos índios, negros e portugueses. 

ORIGEM 

Segundo muitos autores, o Saci seria uma divindade de origem indígena (o nome é de origem tupi-guarani), “que teria como função o controle, sabedoria e manuseio de tudo que estava relacionado às plantas medicinais. Era visto como guardião das sabedorias e técnicas de preparo e uso de chás, concentrados e outros medicamentos feitos a partir de plantas. Como suas qualidades eram as da farmacopéia, também era atribuída a ele o domínio das matas onde guardava estas ervas sagradas, e costumava confundir as pessoas que não pediam a ele a autorização para a coleta destas ervas”.

Para outros estudiosos, na tradição indígena, “o Saci era um mito ornitológico, na forma de um pássaro encantado conhecido por Martim Tapirera”.

Enredado em diversas lendas, também é visto de formas e até com denominações diferentes nas várias regiões do país, ora como “assombração tenebrosa, ora como ser simpático e graciosamente assustador, ora como imagem de benfeitor - o Negrinho do Pastoreio, que encontra objetos perdidos”.

Mas a figura mais popular e que se difundiu por todo o Brasil é a que mais representa a mistura de raças que compõe o nosso povo: o Saci-Pererê com os poderes mágicos atribuídos pelos índios, representado por um negrinho de uma perna só, fumador de cachimbo como o inseparável pito dos negros velhos, e que usa um barrete vermelho, que, segundo também alguns folcloristas, lhe teria sido “colocado na cabeça” pelos colonizadores portugueses que o adotaram como parte de suas crenças e supertições quando chegaram ao Brasil.   

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