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Não Tropece na Língua Desculpem a nossa falha *MARIA TEREZA DE QUEIROZ PIACENTINI “Como
tenho lido e ouvido versões várias, pergunto: o certo é desculpe o transtorno
ou desculpe pelo transtorno? O Houaiss cita como exemplo desculpe a insistência
enquanto Sacconni abomina desculpe a nossa falha. O que faço?” Marcelo,
Recife/PE Ora, ora, que intransigência. Pois o Padre Vieira, nos seus famosos “Sermões” (1679), já usava o verbo desculpar como transitivo direto: “Por isso já desculpa a ingratidão dos homens com a sua ignorância”. Os exemplos clássicos e atuais são inúmeros nesse sentido. Pode o leitor amigo confiar e continuar a dizer: Desculpe o atraso. Desculpe a insistência. Desculpem o pouco conforto no nosso flat e fiquem à vontade. Desculpa o mau jeito! Desculpa a minha fraqueza, podes? Desculpem as brincadeiras. Peço que vocês desculpem nossos amigos pelos excessos cometidos. Queira desculpar a falta de urbanidade dos colegas. A boa senhora estava sempre disposta a desculpar os outros. Desculpe,
não ouvi bem, pode repetir? É bom notar que a forma “desculpe” é o imperativo da terceira pessoa (VOCÊ), e “desculpa” é da segunda, isto é, refere-se a TU. Ao empregar “desculpem”, estamos falando com mais de uma pessoa: “vocês desculpem/desculpem vocês”. Essas são formas usuais de polidez, para justificar ou minimizar a falha cometida. Essas fórmulas ou frases de desculpas também poderiam ser usadas pronominalmente, ou seja, com o pronome átono e uma preposição, tipo Desculpe-me pela demora. Desculpe-me por insistir no assunto. Desculpa-me por ter te chamado assim tão cedo. Não vou desculpá-lo por tanto atraso! Desculpem-me
pelos erros que deixei passar no texto. No entanto, até por comodismo, costuma-se deixar pronome e preposição de lado. Aliás, observe-se que falamos da preposição POR na versão acima, atual. Já nos exemplos registrados em dicionários antigos e novos a preposição encontrada é DE, e também COM quando se trata de “alegar ou pretextar como desculpa”: O visconde abriu a porta da sala imediata, culpando-se e desculpando-se da demora. Desculparam-se de só chegar àquela hora. Tornou o mineiro a desculpar-se da insuficiência e mau preparo da comida. Teresa,
desculpando-se com o cansaço, arrancou-se ao martírio de não poder chorar em
silêncio. “Na
frase: ‘Muito caros Fulano, Beltrano e Sicrano.’ A dúvida é relativa ao
emprego das palavras ‘Muito caros’. E o porquê dessa utilização.” A.R.,
Paranaíba/MS O emprego da expressão “muito caros”, embora raro, está correto. O adjetivo plural “caros” está no lugar de “queridos”. Seria assim: Fulano, Beltrano e Sicrano são queridos. Fulano, Beltrano e Sicrano são muito queridos. Fulano,
Beltrano e Sicrano são muito caros. Isso corresponde a dizer, no início de um discurso ou de uma correspondência: Meus caros amigos... Meus amigos muito caros... Meus muito caros amigos... Muito
caros [amigos] Fulano, Beltrano e Sicrano. *Diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros “Só Vírgula”, “Só Palavras Compostas” e “Língua Brasil – Crase, pronomes & curiosidades” - www.linguabrasil.com.br |