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“Reacesa a chama do compromisso nacional!”

Entusiasmado com o vigor da Petrobras - em que destaca a competência, tecnologia, dedicação dos seus funcionários, compromisso com o Brasil - o diretor de Exploração e Produção da estatal, Guilherme Estrella, anuncia a antecipação para o fim de 2005 da conquista da auto-suficiência do Brasil em petróleo: “É como vencer um megacampeonato mundial”. Publicamos a seguir a entrevista, concedida na sede da empresa, no Rio de Janeiro

HP - Pode-se dizer que a Petrobras sintetiza a aspiração dos brasileiros de serem livres, independentes e desenvolvidos? 

Estrella - Não só para o Brasil, mas a Petrobras é um marco da capacidade dos povos em desenvolvimento. Ela é considerada na África, de onde estou chegando, a prova de que os países em desenvolvimento são competentes e capazes de grandes realizações, de criar grandes empresas com  compromisso com seus países. A Petrobras é um símbolo internacional para os países que como nós, como o Brasil, lutam para se desenvolver e atingir níveis mais justos de desenvolvimento econômico e social, um símbolo extrapola os limites nacionais.

O motivo desta viagem à África foi a sexta reunião dos países de língua portuguesa, que ocorreu em São Tomé. Eram oito países e o presidente Lula se fez acompanhar de representantes de empresas estatais, do governo brasileiro, e tivemos inúmeros contatos onde tivemos a possibilidade de a Petrobras oferecer contribuições efetivas a esses países, para ajudá-los a organizar seus setores petrolíferos nacionais de uma maneira que atenda aos interesses dos seus povos. 

HP - Qual o papel do petróleo para a sustentação da economia? 

Estrella - Muitos tentam definir o petróleo como uma commodity, um bem que se compra e vende livremente, como se ele fosse laranjas e bananas. Mas não é. Há um escritor norte-americano especializado no assunto, Daniel Yergin, autor  de “O Petróleo”, que demonstra que o petróleo passou a ser o principal insumo mundial, um bem estratégico para todos os países. Mas, a existência do petróleo é uma excepcionalidade da natureza, localizado em condições especiais. Não está em todo lugar do mundo, não está à disposição de todos os países. Então, os grandes países produtores, detentores de grandes reservas, passaram a ser objeto de preocupação dos países centrais. Eles são chamados países centrais pelas condições tecnológicas e econômicas de desenvolvimento que atingiram, então não foi à toa que o Iraque foi recentemente invadido. Através de uma análise estratégica, os países centrais definiram o Oriente Médio como uma área de risco para o fornecimento e para a segurança de abastecimento de suas próprias economias. O Iraque foi invadido justamente para que isso fosse assegurado. 

BEM NATURAL E ESTRATÉGICO 

O petróleo, já na I Guerra Mundial, segundo Daniel Yergin no livro dele, já era a base do desenvolvimento das chamadas grandes potências. Na II Guerra Mundial, a mesma coisa. Enfim, chamar o petróleo de commodity é no mínimo uma avaliação ingênua, para não dizer maldosa, em relação aos países que detêm as grandes reservas mundiais desse bem. O petróleo, como afirma o professor Bautista Vidal, é um bem natural estratégico dos países. Está na base do desenvolvimento econômico das nações: quanto a isso, não há dúvida que é a energia. E hoje, em razão de todos esses conflitos que giram em torno do petróleo, nós vemos o barril bater o recorde de US$ 44 ou US$ 45, que são os preços mais altos da história, refletindo uma previsão de crescimento mundial - principalmente por causa da China e dos países do sudeste asiático, que estão crescendo grandemente o seu consumo - e a não descoberta de reservas correspondentes.

Para manter o equilíbrio tem que se descobrir reservas no mínimo equivalentes ao que se gasta, ao que se consome. O mundo inteiro precisa descobrir de 25 a 30 bilhões de barris por ano, mas hoje consumimos 80 milhões de barris por dia, e, com a continuidade do crescimento da China, nós devemos atingir 100 milhões de barris por dia de consumo antes de 2015, e aí teremos que atingir descobertas de cerca de 40 bilhões de barris por ano de novas reservas. Mas isso, geologicamente, é improvável. Vislumbrando isso, os agentes econômicos globalizados já elevaram os preços. Esses US$ 45 não são uma bolha de crescimento, nós estamos efetivamente passando de um patamar de US$ 28, que era o preço que a Opep considerava, para um patamar de US$ 30 a US$ 35. Tudo isso faz com que os agentes econômicos ajam assim, e ainda ficam dando desculpas de que “é um atentado nos EUA”.

No entanto, hoje, nós retiramos em torno de 30% a 40% do petróleo que descobrimos. Esse é o chamado índice de recuperação ou fator de recuperação. O resto do petróleo que descobrimos, de 60% a 70%, fica lá embaixo, na rocha. O fator de recuperação pode ser elevado grandemente, só que são necessárias tecnologias que são muito caras. Portanto, não se pode dizer que estamos perto do fim da era do petróleo - o que acabou foi a era do petróleo barato. Nós não vamos conseguir repor as reservas que estão sendo consumidas rapidamente. O que vamos fazer é abrir margem para que novas reservas sejam descobertas onde já existem, nos campos que estão produzindo. Vamos apenas elevar o fator de recuperação. Hoje, as reservas mundiais são em torno de 1 trilhão de barris. Se aumentarem 10%, adicionaremos mais 100 bilhões de barris de reservas mundiais; então, o petróleo não vai faltar, mas vai ficar cada vez mais caro. 

HP - Qual a situação do Brasil neste quadro? 

Estrella - No Brasil, nós estamos numa situação muito confortável com as descobertas que a Petrobras fez, principalmente no ano passado, que nos colocam hoje no que a gente chama uma razão de reserva/produção - quantos anos nós podemos produzir mantendo a mesma produção de hoje, que é cerca de 1 milhão e 700 mil barris por dia (barris de óleo-equivalente, quer dizer, óleo e gás) - essa razão de reserva/produção hoje é de 20 anos. Ou seja, se nós não descobríssemos mais nada, se mantivéssemos a produção nos níveis de hoje, nós manteríamos esse nível durante 20 anos. Isso apenas com as descobertas já incorporadas no ano passado. Mas temos muito mais a descobrir, muito mais a incorporar. A nossa projeção é chegarmos a 2010 com uma produção de 2 milhões e 300 mil barris por dia, e com a nossa razão de reserva/produção de 17 anos. Isso se não descobríssemos mais nada. Uma situação ainda muito confortável: uma razão de 12 a 15 anos dá um conforto muito grande aos países. Isso é previsto também até 2015, com um consumo previsto para esse qüinqüênio em torno de 2 milhões de barris por dia.   

HP - Como é essa capacidade de encontrar petróleo onde ninguém mais encontra? 

Estrella - Em termos de bacia sedimentar brasileira, a Petrobras é altamente competente; não que os nossos sejam os melhores geólogos, mas é que temos um acúmulo de 50 anos de estudos sobre essas bacias. Temos uma experiência e uma competência de explorar petróleo no Brasil que é um fator de diferenciação entre a Petrobras e as outras empresas. E não só em termos de experiência, mas a empresa investe muito nas pessoas. Investe na atualização, investe em tecnologia. 

HP - O compromisso com o Brasil interfere? 

Estrella - Sem dúvida! A energia é um fator primordial para o desenvolvimento. Sem querer criticar o passado, houve uma mudança no governo Lula. Houve uma reafirmação dos compromissos da Petrobras com o Brasil. A primeira grande decisão na primeira semana da nova diretoria foi incluir um conteúdo nacional nas nossas plataformas. Foi uma questão de reafirmação do compromisso nacional. Nós reafirmamos o compromisso primeiro da Petrobras - com o Brasil. Em um país com as inúmeras dificuldades que enfrentamos, tendo uma empresa petrolífera que fornece uma base energética, uma infra-estrutura energética para o crescimento, isso é meio caminho andado. 

MAIS QUE UMA COPA DO MUNDO 

 Devemos atingir a auto-suficiência já no final do ano que vem, mantida essa mesma tendência de crescimento da produção. Isso será um fato histórico. Na verdade, foi para isso que a Petrobras foi criada. Essa é a consecução de uma meta e de um sonho. O povo brasileiro foi às ruas para isso. Vai ser uma efeméride sensacional, vai ter um impacto social na auto-estima das pessoas. Eu diria que é mais do que um campeonato mundial de futebol, é mais do que uma Copa do Mundo, é um megacampeonato mundial. Inclusive os investidores, quem quer comprar ação da Petrobras, têm de olhar o futuro, e o futuro é que nós vamos terminar este ano já com quase 1 milhão e 700 mil barris por dia. E o ano que vem adicionaremos cerca de 150 a 200 mil barris/dia, tornando o Brasil auto-suficiente. As condições são excelentes.

Essa reafirmação do compromisso com o Brasil reacendeu uma chama. Uma chama que não tinha absolutamente morrido. Todo mundo que é ligado à Petrobras, é, antes de tudo, brasileiro. Mas é preciso que o funcionário encontre eco para externar o que ele sente, seu compromisso, seu trabalho, sua criatividade. Isso é um ponto que a diretoria conseguiu. Internamente, nós assopramos essa chama, que era enorme, como sempre foi. A relação empregatícia entre a Petrobras e seus funcionários é diferente das outras empresas. Aqui, vestir a camisa é mais do que vestir a camisa: não tem camisa, é a pele do cara - se tirar, o cara morre.

HP - E a tecnologia? 

Estrella - O grande salto tecnológico da Petrobras foi quando o setor exploratório, a área de exploração, conseguiu vislumbrar possibilidades de ocorrência de grandes campos petrolíferos em águas profundas, com lâminas acima de 300 metros. Até 300 metros o mergulhador consegue descer e consegue manipular instrumentos, equipamentos no fundo do mar. É difícil, mas ainda se consegue operar com mergulhadores.

Mas, acima de 300 metros, se é obrigado a trabalhar com equipamentos automatizados, equipamentos e sistemas muito mais sofisticados, adaptados aos veículos de controle remoto, que são os robôs submarinos. Uma tecnologia que é acoplada ao desenvolvimento dos robôs submarinos. É preciso fazer equipamentos manipuláveis, inspecionáveis, e até corrigíveis, reparáveis por robôs submarinos. 

CONFIABILIDADE 

A partir do momento em que o setor exploratório vislumbrou essas bacias, gerou um desafio para o setor de produção. O problema das águas profundas não está na exploração. Nós perfuramos com tranqüilidade e descobrimos grandes reservas. A área de produção é que foi colocada diante de um grande desafio: construir sistemas de produção em águas profundas. A Petrobras foi pioneira nesse serviço à frente de todas as grandes empresas da época. Há 25, 30 anos, estavam ainda produzindo em águas rasas, e não havia tecnologia disponível no mundo.

Houve o estabelecimento de um programa chamado “Programa de Capacitação de Produção em Águas Profundas”, que tinha como objetivo produzir petróleo em campos com até mil metros de lâmina d’água. Nós colocamos recursos nisso, e a gente viu aflorar a criatividade do brasileiro, do engenheiro brasileiro, do projetista brasileiro, do físico, do químico. E foi em torno de nós, porque o programa incluiu universidades brasileiras comandadas por nós, o nosso centro de pesquisas, o Cenpes. Pudemos ver que o brasileiro é um povo muito criativo e eu diria até ousado. Ele tem autoconfiança. Inclusive, outras empresas estrangeiras comentam: “olha, vocês, além de competentes são corajosos”.

Imagine o que é colocar em produção um poço de petróleo que vai produzir 5 mil barris/dia no fundo do mar, a 1.000 metros de profundidade, sem que se possa atuar nele, operando apenas por robôs. Era preciso que se desenvolvessem equipamentos altamente confiáveis, que não dêem pane, na superfície ou dentro do poço. São operações caríssimas e arriscadas.

Nunca houve um vazamento. Nós operamos desde meados da década de 80 e ao longo da década de 90. Hoje, a partir de Campos, nós produzimos em torno de 800 mil barris/dia com poços de águas profundas, e não ocorreu nenhum vazamento. Pelo contrário, os vazamentos que ocorrem são nas velhas conexões de mangueiras, nos navios. Isso é raro, mas de vez em quando caem lá uns litros de óleo no mar, e a gente imediatamente coleta. Mas, nos sofisticadíssimos equipamentos que estão no fundo do mar, não há problema. 

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