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“Este tribunal é instrumento de guerra e não de justiça”

Afirma o presidente Slobodan Milosevic durante a apresentação do libelo em que demoliu o tribunal-farsa e denunciou os crimes de guerra da Otan/EUA na Iugoslávia, o qual iniciamos hoje a publicação 

“Este tribunal foi criado com o objetivo único de esconder os erros acumulados de uma política e justificar seus crimes, a destruição de um Estado e do barbarismo de alta tecnologia cometido pela Otan no bombardeio de três meses consecutivos da Iugoslávia, crimes em massa cometidos contra sua população, seus cidadãos”, afirmou o líder iugoslavo Slobodan Milosevic em contundente discurso em que desmascara o tribunal-farsa e denuncia os crimes de guerra da Otan e EUA contra o povo iugoslavo, que publicamos a seguir.

PARTE I

“Por muito tempo, diante da opinião pública internacional, com claras intenções políticas, um retrato não verdadeiro e distorcido foi criado acerca do que aconteceu no território da antiga Iugoslávia. Acusações levantadas contra mim são uma mentira inescrupulosa e também uma vergonhosa distorção da história. Tudo foi apresentado ao avesso de forma a proteger da responsabilidade daqueles que são verdadeiramente responsáveis e para tirar as conclusões erradas sobre o que aconteceu inclusive em termos do que estava na raiz da guerra contra a Iugoslávia.

Existe um fato histórico fundamental que levou a tudo o que aconteceu no território da Iugoslávia desde 1991 até o dia de hoje, que é a violenta destruição de um Estado europeu, Iugoslávia. Um Estado multiétnico, multicultural e multiconfessional foi destruído. Um Estado que tinha sua legitimidade internacional legal e histórica. O Estado que foi destruído era membro de todas as organizações internacionais, e em especial da ONU.

De acordo com os princípios de Nuremberg, isso se constitui no mais grave crime internacional, um crime contra a paz.

A Iugoslávia tinha como primeiro-ministro do país o croata Ante Markovic. O ministro do exterior também era da Croácia, Budimir Loncar. Entre os dezesseis principais generais, apenas dois eram sérvios. A maioria era croatas, eslovenos e pessoas de outras etnias.

E vimos a formação de contingentes paramilitares, contrabandistas de armas se desenvolverem inclusive em conexão com a narco-máfia, como aconteceu em Kosovo.

Ainda em junho de 1991 a comunidade européia pediu que o exército legítimo permanecesse em seus acampamentos e desta forma tentaram tornar um exército, de forma voluntária, em prisioneiros dentro de seu próprio país. É lógico que atitudes como essa levaram ao surgimento de formações paramilitares. Em junho de 1991, essas formações sem nenhum motivo mataram a sangue-frio soldados do Exército Popular da Iugoslávia (EPI). 

CRIMES DE GUERRA 

Pela carta de princípios da ONU trata-se de um exemplo clássico de uma rebelião armada contra um Estado constituído e, portanto, com a obrigação de tomar as medidas necessárias para restaurar a lei e a ordem.

Graves crimes de guerra foram cometidos. Há uma longa lista de crimes e material fílmico documentando os crimes das forças paramilitares eslovenas.

No dia 10 de junho de 1991, o parlamento europeu passou uma resolução condenando não os rebeldes, os separatistas, mas as forças legais, o EPI. O que houve foi uma inversão entre a vítima e o que a executa, desta forma a comunidade européia e os Estados Unidos jogaram combustível na guerra.

As forças paramilitares denominadas Zebra, Lobos Negros, Lobos de Vukovar  já estavam atuando antes de 1991. Grupos de paramilitares foram transferidos da Croácia para a Bósnia. Em julho de 1991 foi lançada uma guerra frontal contra o Exército Popular. Do dia 20 de julho até 4 de agosto, foram 75 ataques contra o exército.

Casas sérvias foram queimadas e crimes contra os sérvios se transformaram em assassinatos em massa. Nas plantações de milho perto de Svinjarevo 25 sérvios foram mortos. Aldeias inteiras na região de Papuk e Slunj foram destruídas em razias.  Forças da Bósnia lutaram ao lado das forças nazistas. Na época a bem conhecida Divisão Handzar da Bósnia foi à França e lá cometeram crimes sem precedentes.

Desta vez, quando fatos similares começaram a acontecer, os sérvios resistiram. Quando símbolos da Utasha[organização fascista croata que atuou servindo à ocupação nazista na região] foram de novo trazidos à tona, leis foram passadas a toque de caixa e os sérvios perderam direitos consagrados em Constituição. Numa conexão entre os acontecimentos de 1941 e de 1991, a expulsão massiva de sérvios começou.

Para criar um clima de psicose vários métodos foram usados: crianças sérvias humilhadas nas escolas, pessoas do povo levadas a estações de polícia, sérvios eram demitidos  em larga escala, suas casas eram bombardeadas. Em Pozega (na Eslovênia) um “Comitê de Crise” emitiu, em 28 de outubro de 91, ordens de expulsão de sérvios de 24 aldeias: Oblovac, Orijaca, Slatina e por aí vai. Essas ordens foram divulgadas pelo rádio e publicadas na imprensa. Os que se recusavam iam para os campos de concentração.

De julho de 1991 ao ano de 1992, muitas aldeias sérvias sofreram limpeza étnica . Documentos sobre tudo isso foram submetidos à União Européia.

Seguindo as tradições da II Guerra Mundial Tudjman e Izetbegovic, os líderes dos rebeldes, assinaram um acordo em que as forças armadas do Conselho de Defesa da Croácia fariam parte das “forças unificadas” da Bósnia.

Isto foi seguido da expulsão dos sérvios das áreas sob o controle destas forças. Dezenas de milhares foram expulsos de Mostar, 2.000 de Gorazde.

Operações de combate se moveram do norte em direção ao Sul e foram finalmente transferidas para o território da Sérvia especificamente no Kosovo.

A trajetória da planejada destruição da Iugoslávia se apoiava  em forças paramilitares rebeldes, forças terroristas, criminosos e, no Kosovo, na narco-máfia.

A destruição da Iugoslávia foi perpetrada através de mentiras institucionalizadas. No documento de Helsinki, os EUA e outros países prometeram respeitar a integridade de todos os Estados  da área, e de que se retrairiam de quaisquer atividades contra a sua integridade territorial, unidade e independência. Isto foi ratificado em 1990. Apenas um ano depois, vários países passaram a agir abertamente como força principal de destruição da Iugoslávia.

A Alemanha pressionou pelo reconhecimento das ‘repúblicas’ separatistas, contra os princípios da lei internacional.

Em julho de 1991, antes do início da guerra, o ministro do Exterior da Alemanha, Genscher, advogou que a Croácia e a Eslovênia deveriam ser reconhecidas imediatamente. Quando Kinkel se tornou ministro da Defesa germânico, começou a trabalhar pela destruição da Iugoslávia com emigrados Utasha, com forças que pretendiam quebrar a Iugoslávia. Os emigrados eram Josip Blovic, Bolkova, Franco Tudjamn e Stjepan Mesic, atual presidente da Croácia.

Quando se reconheceram estas unidades como Estados houve uma ampla condenação no mundo inteiro. O jornal francês Figaro chamou isto de “hipocrisia legalizada” e o enviado especial da ONU, Cyrus Vance, declarou que “o reconhecimento da Eslovênia, Croácia e Bósnia Herzegovínia levaram à guerra no território da Iugoslávia”. Disse isso em setembro de 1992.

Sob uma campanha de mentiras da mídia internacional esses Estados foram reconhecidos como membros da ONU enquanto que a Iugoslávia sofria imposição de sanções, em maio de 1992.

E em julho fomos excluídos  da ONU só porque não aceitamos que  nosso Estado fosse deletado. 

TRIBUNAL FARSA 

Este tribunal ad hoc foi formado com o objetivo único de esconder os erros acumulados de uma política e justificar seus crimes, a destruição de um Estado e do barbarismo de alta tecnologia cometido pela OTAN no bombardeio de três meses consecutivos da Iugoslávia. Crimes em massa cometidos contra sua população.

A instrumentalização de eventos complexos  e a colocação da responsabilidade na Iugoslávia e em mim como agressores, uma tática muito óbvia, buscando  impedir o pensamento lógico. Teorias sem sentido, vulgares, sobre homens maus e um Estado pária não podem servir para explicar fatos históricos.

Havia uma intenção criminosa conjunta. Mas ela não existia nem procedia de Belgrado. Ela passava pelas forças separatistas, Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos.

A idéia deste tribunal veio de Klaus Kinkel – um dos principais responsáveis pelo crime de destruição da Iugoslávia. Idéia esposada por Madeleine Albright e os custos de suas atividades foram financiados pela Fundação Soros.

Albright engajou diferentes mídias para fabricar uma definida imagem que influenciasse o público. 

DOCUMENTOS FALSOS 

Lembremos o escândalo dos documentos falsos apresentados por representantes desta organização com base nos quais fui acusado por crimes em Kosovo. Um jornalista do New York Times que escreveu um artigo baseado nestas falsas informações foi demitido.

O escritor do rascunho de estatuto deste tribunal, Michael Scharf, deu uma declaração precisa a seu respeito em entrevista ao Washington Post em 3 de outubro de 1993: “O tribunal é um canal político útil que serve para isolar diplomaticamente líderes patifes e para fortalecer a vontade política no mundo, para aplicar sanções e fortalecer poder”.

Em outras palavras o tribunal é um instrumento de guerra e não de justiça. Como afirma o editorial do jornal canadense Globe and Mail, escrito por Marcus McGee: “o tribunal é parte da estratégia de guerra da OTAN”.

A Presidência da Iugoslávia e os líderes das repúblicas iugoslavas se reuniram em Belgrado nos dias 20 e 21 de agosto de 1991 e adotaram diversas decisões com o propósito de estabilização da situação.

No dia 20 de agosto houve uma sessão ministerial extraordinária na qual os ministros do Exterior da Comunidade Européia deram as boas vindas pela disposição de todas as partes no estabelecimento de negociações.

No mesmo dia o ministro alemão Genscher teve um encontro com representantes da Eslovênia e da Croácia onde atuou em sentido contrário. Depois desse encontro chamou Boris Filic, embaixador da Iugoslávia em Bonn e lhe disse que ‘se o derramamento de sangue continuar e se a política violenta do Exército da Iugoslávia prosseguir seremos obrigados a reconhecer as repúblicas da Croácia e da Eslovênia’.

Que maior ímpeto os separatistas que haviam recorrido às armas, precisavam?!

O primeiro-ministro holandês Ruud Lubbers, disse em 1997 que o chanceler alemão Helmut Kohl exerceu pressão sobre a comunidade européia para que ela mudasse sua posição que antes afirmava que não deveria ser reconhecida a independência da Croácia para não estimular a guerra civil: ‘os alemães fizeram o que fizeram e foi uma catástrofe’.

O alerta vermelho através de toda a retórica do bloco germânico que inclui a Áustria, no que concerne aos Bálcãs é a criação de algum tipo de ‘Grande Sérvia’, este perigo foi a tese central das falsas acusações contra mim.

Esta tese, na verdade este mito, foi criado pela propaganda do Iimpério Austro-Húngaro desde a segunda metade do século 19. É parte integral dos esforços feitos por um império em putrefação para manter a ocupação dos territórios eslavos do sul, cujos povos viviam um amplo desejo de se integrarem em único Estado livre. De acordo com a propaganda Austro-Húngara, a libertação destes povos de seu jugo e a sua unificação era chamada de expansão dos sérvios ou de Grande Sérvia e isso não tem nada a ver com a Iugoslávia.

Portanto tanto naquela época como hoje a tendência de dominação dos territórios populados pelos eslavos do sul e de mantê-los escravizados teve que ser mantida sob o disfarce da propaganda e da cortina de fumaça de que seriam os sérvios os que queriam subjugar e se espalhar pelos territórios que pertenciam aos demais. E isso é uma absoluta mentira.

Vejamos o conhecido pretexto do  assassinato em Saraievo quando Gavralo Princip, membro da organização Jovem Bósnia, assassinou Franz Ferdinand, o arquiduque austro-húngaro e, ainda que nunca tenha sido comprovada a participação do povo sérvio, do governo sérvio, ele foi acusado e isso serviu para o começo da I Guerra Mundial.

O significado desta colocação de Grande Sérvia é algo que ninguém aqui quer considerar e tem sido usado de uma maneira fácil e muito arrogante. Ninguém investigou as origens e se isso tivesse sido feito explodiria como bolha de sabão.

No dia 23 de julho de 1914 o governo sérvio recebeu um ultimato da Austro-Hungria, sob falsas acusações do governo sérvio no envolvimento naquele assassinato, com exigências que nenhuma nação soberana aceitaria, o ministro do Exterior inglês,  Edward Grey, o descreveu como “o mais surpreendente documento jamais engendrado pela diplomacia”. Grey nunca sonharia que no mesmo século o povo sérvio seria colocado diante de similares e ainda mais arrogantes ultimatos por países como a Áustria, Alemanha e aliados anteriores como os Estados Unidos  e a Inglaterra.

A ironia é que, dentre os povos dos Bálcãs, o que teve ampla oportunidade de criar seu próprio Estado estendido foi a Sérvia, porque é sabido que o Tratado de Londres ofereceu à Sérvia, depois da vitória na Guerra, partes da Bósnia-Herzegovina, da Dalmácia, da Eslovênia e assim por diante. Mas a Sérvia preferiu abraçar e esposar por igual sérvios, croatas e eslovenos no que depois foi chamado de Iugoslávia. E este Estado ofereceu proteção aos nossos irmãos eslovenos e croatas. Proteção contra a fragmentação e a dominação. 

NAZISTAS  

Em 1915 o teórico alemão Friederich Nauman em seu livro Europa Central explanou sobre a ‘Grande Alemanha’ circundada por países satélites e afirmou que ‘a Sérvia é uma fortaleza que precisa ser varrida’.

Friederich Nauman é considerado o ideólogo do Partido Liberal alemão que dominou sua política externa no período do ataque à Iugoslávia e isso fica comprovado pelo fato de que a fundação do Partido Liberal se chama Fundação Friederich Nauman.

Seus seguidores especialmente Kinkel e Genscher com seus esforços tresloucados de destruição da Iugoslávia e, não só, mas buscando a fragmentação da Europa Oriental e da Europa Central, isso foi visto na Checoslováquia, para não mencionar a União Soviética uma das potências que lideraram a vitória na II Guerra Mundial.

É sabido dos protestos na Sérvia contra as decisões de forja de alianças com Hitler e a respeito disso Churchill afirmou que “a Iugoslávia encontrou novamente sua alma”.

Do outro lado Hitler no dia em que a Iugoslávia foi atacada pelos nazistas, declarou que “este golpe militar foi desferido contra a mesma camarilha que através do assassinato em Saraievo empurrou o mundo para uma desdita sem precedentes”.

Clinton, então presidente dos EUA, na noite de 24 de março, ao explicar ao público norte-americano pela televisão o início da campanha aérea – como ele denominou a agressão contra a Iugoslávia – afirmou: ‘os sérvios não apenas causaram a I Guerra Mundial. Sem eles não teria havido o Holocausto’”.   

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