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Não Tropece na Língua

Os recursos especial e extraordinário

MARIA TEREZA DE QUEIROZ PIACENTINI*

“Está certa a concordância do substantivo com os adjetivos na frase:...âmbito de competência DOS RECURSOS especial e extraordinário...? Desde já agradeço.” N.R. Brasília/DF

Trata-se de mais um caso, bastante especial, de concordância nominal: temos aqui um substantivo [recurso] e dois adjetivos [especial, extraordinário]. Isso em si não é nada excepcional, pois a toda hora falamos, por exemplo: 

. jantar fino e gostoso

. pessoa amável e correta

. pessoas amáveis e corretas

. resultados negativos e positivos. 

A diferença, no caso da consulta, é que o substantivo está no plural e os dois adjetivos no singular. Por que é que não se diz “recursos especiais e extraordinários?” Porque desse modo se passaria a idéia de que todos os recursos (em discussão naquele momento) seriam especiais e extraordinários, quando o que se quer transmitir é que há dois tipos de recurso: um especial e um extraordinário.

Pelas regras de concordância nominal, quando se tem um substantivo com mais de um adjetivo, tanto é possível deixar os adjetivos no singular quanto levá-los para o plural. Não é uma questão de certo ou errado dizer “os setores direitos e esquerdos” ou “os setores direito e esquerdo”, por exemplo. Ambas as formas são gramaticalmente válidas. Mas quando se quer deixar claro, sem sombra de dúvida, que se está falando de duas coisas distintas (ou seja, a soma de um singular mais um singular) usa-se a fórmula SUBSTANTIVO NO PLURAL e ADJETIVOS NO SINGULAR, ou até mesmo um adjetivo no singular e um no plural, como abaixo se exemplifica: 

- O convênio será firmado com os governos federal e estaduais.

- Dê os valores absoluto e relativo dos algarismos.

- A decisão que puniu o servidor deverá ser mantida graças à autonomia das instâncias penal e administrativa.

- Encontram-se fissuras nos lados direito e esquerdo do edifício.

- As cláusulas resolutivas expressa e tácita operam de pleno direito.

- Os filhos da embaixatriz estudaram as línguas francesa, inglesa e alemã. 

OUTRAS POSSIBILIDADES 

Na ocorrência de um substantivo e mais de um adjetivo, também se pode fazer a concordância de duas outras maneiras: 

I - Substantivo no singular e repetição do artigo: 

- Os falsos piratas derrotaram a esquadra brasileira e a argentina.

- Dê o valor absoluto e o relativo dos algarismos.

- Eles estudaram a língua francesa, a inglesa e a lemã. 

II - Substantivo e adjetivos no singular: 

- Todos os conflitos devem ser resolvidos na esfera municipal e estadual.

- O cunho religioso e político dado ao seu pronunciamento desagradou a muitos.

-  Assuntos envolvendo corrupção seriam tratados no âmbito federal e estadual, assegurou o senador. 

Não há necessidade de dizer “os cunhos religioso e político” ou “nos âmbitos federal e estadual”. O substantivo no singular neste caso soa melhor. Contudo, deve-se utilizar o plural sempre que possa haver ambigüidade ou margem a dúvidas, equívocos. Se se dissesse, por exemplo, “derrotaram a esquadra brasileira e argentina” certamente se poderia pensar que se falava de uma só esquadra, formada tanto por brasileiros como por argentinos. Não se tratando de futebol, é até possível... 

* Diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros “Só Vírgula”, “Só Palavras Compostas” e “Língua Brasil – Crase, pronomes & curiosidades” - www.linguabrasil.com.br

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