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Fracasso no Iraque faz generais exigirem a cabeça de Rumsfeld

Declarações de oito generais pela defenestração do chefe do Pentágono durante a semana passada aprofundam o isolamento da máfia aboletada na Casa Branca e expõe ainda mais seu atoleiro no Iraque 

Oito generais americanos da reserva pediram, ao longo da semana passada, a renúncia do chefe do Pentágono, Donald Rumsfeld, responsabilizando-o pelo fracasso na guerra contra o Iraque. São eles o general de quatro estrelas dos marines, e ex-chefe do Comando Central, Anthony Zinni; o general Wesley Clark, ex-comandante-geral da Otan; o general de três estrelas Gregory Newbold, ex-membro do Estado-Maior; o general de duas estrelas John Batiste, que comandou a 1ª Divisão de Infantaria no Iraque em 2004; o general de duas estrelas Paul Eaton, responsável em 2003-2004 pelo treinamento das tropas fantoche; o general de duas estrelas Charles Swannack, que chefiou a 82ª Divisão de Pára-quedistas em 2003; o general de duas estrelas John Riggs; e o general de três estrelas (marines), Paul Van Riper.

Embora sem atingir a contundência da denúncia do general William Odom, ex-chefe da Agência nacional de Segurança, de que a “invasão do Iraque se mostrará o maior desastre estratégico da história dos EUA”, as declarações, feitas individualmente pelos oito generais, aprofundam o isolamento de Rumsfeld, provocado pelo atoleiro no Iraque e pela surra que a Resistência vem dando nos agressores estrangeiros. Mas não apenas de Rumsfeld, mas da máfia da Casa Branca, que nos últimos tempos já teve de abrir mão de preciosos auxiliares, como os chefes de gabinete de Cheney e Bush e líderes republicanos no congresso. 

EXAGERO  

As declarações pelo imediato afastamento de Rumsfeld foram estampadas nos principais veículos da mídia dos EUA, como as redes de TV CBS, NBC e a CNN; jornais como o “The New York Times” e o “Washington Post”; a revista “Time” e a Rádio Pública dos EUA, obrigando a Casa Branca a asseverar que ele está prestigiado. Outro que se apressou a socorrer Rumsfeld foram os Rockefellers, através do seu funcionário, Henry Kissinger, ex-secretário de Estado de Nixon: “tem feito um trabalho excepcional”.

Kissinger tem seus motivos para se manifestar. Outro general, Jay Garner, relatou ao jornalista Greg Palast, como foi demitido por telefone por Rumsfeld, logo após chegar a Bagdá como primeiro vice-rei de Bush no Iraque, em 2003. Ele disse que acreditou que Bush queria implantar a democracia no Iraque e sua primeira medida foi convocar eleições em 90 dias, prometer rapidamente afastar as tropas dos EUA das cidades para o deserto e organizar uma reunião com líderes tribais para assegurar que “o petróleo é dos iraquianos”. Palast mostrou a Garner o plano de privatização do petróleo iraquiano, de 101 páginas, secretamente feito pelo governo de Bush. No lugar de Garner foi posto o diretor da Kissinger Associates, Paul Bremer, que cancelou as eleições e emitiu cem decretos, para vender a economia iraquiana – e o petróleo – às corporações e lobistas ianques.

O mote para a enxurrada de pedidos da renúncia de Rumsfeld foi a debochada declaração de Condolência Rice de que a “estratégia” de invadir o Iraque estava “certa”, e o problema era com os “milhares de erros táticos” – ou seja, os militares é que não dão conta no terreno. A cobrança da renúncia foi feita tanto por um general que se opôs, antes da guerra, à invasão, como por aqueles que concluíram haver graves erros, após operações posteriores na nação árabe.

Vários generais consideram que se trata de uma “guerra equivocada”; outros, mais superficialmente, só percebem “os erros” de planejamento e execução, a quantidade insuficiente de tropas ou a “arrogância de Rumsfeld”. Mas, como registrou Palast, não adiantava ter mais tropas invasoras: só ia ter mais alvos para a guerrilha.

Assim, o ex-chefe da Otan, general Wesley Clark, pediu a renúncia, afirmando que Rumsfeld, junto com Cheney, o vice de Bush, envolveram “com sua invasão do Iraque os EUA em uma guerra supérflua”, que nada tem a ver com a luta contra o terrorismo e que é “um fracasso estratégico”. Já para o general Gregory Newbold, que foi para a reserva quatro meses antes da invasão, essa é “uma guerra desnecessária” e que, como chefe de Operações do Estado-Maior Conjunto, “não fez segredo de que a racionalização dos zelotes pela guerra não fazia sentido”. Lamentou-se, porém, de não ter “desafiado mais abertamente aqueles que estavam decididos a invadir um país cujas ações eram periféricas à ameaça real – a Al Qaeda”.

Newbold também assinalou a “negligência e bazófia que são a especial alçada daqueles que nunca tiveram de executar essas missões” – numa referência às afirmações de Cheney, apoiadas por Rumsfeld, de que os invasores “iam ser recebidos com flores”. O general acrescentou que “o custo da liderança falha continua a ser pago em sangue”, sobre as pesadas baixas causadas pela guerrilha iraquiana, e questionando, entre outras questões, a dissolução do exército iraquiano, a quantidade insuficiente de tropas e a negação inicial “de que a insurgência estava no coração da oposição à ocupação”.

“O plano falho” de Rumsfeld para a invasão também foi condenado pelo general John Batiste, que considerou que este “que não dava conta para construir a paz depois de derrubar o regime”. “Não dava conta” porque o povo iraquiano não deixou e porque a revolução tinha raízes muito mais profundas do que as Sete Irmãs e o Pentágono podiam perceber. Também o plano não era para “construir a paz”, mas para assaltar o petróleo.

Como esse era o verdadeiro problema de Bush, Cheney e Rumsfeld – e da Exxon, Chevron e etc -, não interessava muito o que os generais queriam ou não. O negócio era invadir e, como disse Rumsfeld “com o exército que tem” – até porque não havia, nem há, condição política, nem com a chantagem do 11 de Setembro, de restaurar o serviço militar obrigatório. O que é expresso, na percepção do general Riggs, de que “eles somente precisam de conselho militar quando satisfaz a agenda deles. É por isso que ele [Rumsfeld] deve renunciar”.

Também o general Zinni repeliu o “pobre juízo militar usado nessa missão”. Ele afirmou que Rumsfeld deveria ser responsabilizado por uma série de erros estúpidos, começando com “jogar fora dez anos de planejamento, planos que levavam em conta o que enfrentaríamos em uma ocupação do Iraque. Esses não são erros táticos. São erros estratégicos, erros de uma política feita pelas nossas costas. Não culpem as tropas”. 

INCOMPETÊNCIA  

Já o general Eaton reiterou que Rumsfeld “tem se mostrado tática, operacional e estrategicamente incompetente e é de longe mais que qualquer outro responsável pelo que aconteceu” no Iraque. “Eu realmente acredito que precisamos de um novo secretário de Defesa”, apontou o general Swannack. O general Van Riper, um republicano de longa data, uniu-se à convocação pela renúncia. “Eu admiro aqueles que se apresentaram, e concordo com a argumentação deles. Estou no mesmo campo”.

No que era para ajudar Rumsfeld, o ex-chefe do Estado Maior, general Richard Myers, acabou expondo Bush: “quando alguém julga o secretário Rumsfeld, está também julgando o comandante-em-chefe, porque é uma cadeia de comando”.  

ANTONIO PIMENTA   

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