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Augusto Monterroso: Humor e sarcasmo contra a visão colonizada de mundo

Mestre do conto breve e um dos grandes nomes da literatura latino-americana, Monterroso usou a narrativa satírica e bem humorada para criticar o comodismo e a subserviência aos poderosos do mundo  

SIDNEI SCHNEIDER

O escritor Augusto Monterroso, ainda pouco traduzido entre nós, é um dos mais importantes da literatura latino-americana, e o mestre maior do conto breve no panorama mundial. Amante da narrativa irônica e bem-humorada, quase sempre curta, revelou-se um crítico eficaz do comodismo e da subserviência daquele tipo de espírito que entregaria de bom grado a sua cabeça a Mister Taylor, o personagem norte-americano de um de seus melhores contos: traficante de crânios humanos reduzidos, oriundos de um país da América Latina, que viram uma espécie de pingüim de geladeira nos EUA, todo mundo quer ter um, expandindo o seu negócio e acabando com a população. Embora esse conto seja de tamanho convencional, ‘Fecundidade’, por sua vez, é possível transcrever inteiro: “Hoje me sinto bem, um Balzac; estou terminando essa linha.” Até o seu conceito de humor é bem-humorado, quem não adoraria um escritor assim: “O humor é o realismo levado às últimas conseqüências. Com a exceção da literatura quase humorística, tudo o que o homem faz é risível e jocoso”.

Como todo satírico, Monterroso revolve os aspectos mais absconsos da prática social, mas revela-se maduro e preparado para aplacar o rebote, como se pode ler em ‘O fabulista e seus críticos’: “Na Selva vivia há muito tempo um Fabulista cujos criticados se reuniram um dia e o visitaram para queixar-se dele (fingindo alegremente que não falavam por eles mas pelos outros), na base de que suas críticas não nasciam da boa intenção mas do ódio. Como ele estava de acordo, eles se retiraram envergonhados, como na vez em que a Cigarra se decidiu e disse tudo o que tinha de dizer”. Citado repetidamente como o autor do menor conto do mundo, ‘O dinossauro’ (“Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”), espécie de folclore do qual poucos têm saído para de fato ler a sua obra, Monterroso merece uma investigação mais ampla e dedicada.

Nascido em Tegucigalpa, Honduras, no dia 21 de dezembro de 1921, de família guatemalteca, cedo se mudou para a Guatemala, onde viveu até 1944, quando foi obrigado a exilar-se na embaixada mexicana para não ser preso em função de suas atividades clandestinas contra o ditador Jorge Ubico, títere da norte-americana United Fruit. Residiu na Bolívia e no Chile durante a década de 50, familiarizando-se com a realidade desses povos, e fixou-se no México a partir de 1956. Da Guatemala, contudo, nunca abriu mão: “Está metida em mim”. Recebeu o Prêmio Juan Rulfo em 1996 e o Miguel Angel Asturias em 1997, dois dos mais conceituados no cenário da língua espanhola, e a condecoração mexicana da Águia Asteca. Nem por isso deixou de perceber o lugar que lhe era reservado pela estupidogentzia dominante, a ele e aos escritores da Nossa América, conforme se vê em ‘Como deixar de ser macaco’: “O espírito da pesquisa não conhece limites. Nos Estados Unidos e na Europa, foi, recentemente, descoberta uma espécie de macaco latino-americano, capaz de se expressar por escrito, idêntico, talvez, ao diligente macaco que, batendo nas teclas de uma máquina de escrever, ao acaso, eventualmente reproduz os sonetos de Shakespeare. Uma coisa assim, naturalmente, maravilha essa boa gente e não faltam dispostos tradutores de nossos livros ou senhoras e cavalheiros ociosos para comprá-los, como outrora compraram as cabeças encolhidas dos índios Jivaro. Há mais de quatro séculos o frei Bartolomeu de Las Casas por fim teve sucesso em convencer os europeus de que nós éramos humanos dotados de alma porque ríamos; agora eles querem convencer a si mesmos da mesma coisa porque escrevemos”. Certa vez disse a jornalistas algo sobre o ato de escrever que bem pode ser utilizado para qualquer outro momento da vida: “A única maneira de vencer o medo de fazer algo é fazendo. Na realidade sempre venci o medo de escrever pensando que logo viria o medo de publicar”.

Tito Monterroso, como carinhosamente era chamado, integra a literatura guatemalteca com livros de nomes por vezes cômicos, como o inaugural Obras completas (e outros contos) (1959), onde se encontram os contos ‘Mister Taylor’ e ‘O eclipse’, este último por mim traduzido especialmente para esta edição; A ovelha negra e outras fábulas (1969), único livro transposto para o português, através de Millôr Fernandes, e publicado aqui pela Record em 1983, no qual se encontram ‘O fabulista e os críticos’, ‘O macaco que quis ser escritor satírico’ e ‘A rã que queria ser uma rã autêntica’; Movimento Perpétuo (1972), onde está ‘Como deixar de ser macaco’, aqui na tradução de Custódio e Regina Werneck.; e Sinfonia concluída e outros contos (1994). Publicou ainda a novela O mais é silêncio (1978); os ensaios A palavra mágica (1983), A letra e (1987), Viagem ao centro da fábula (1989) e A vaca (1998); um primeiro volume de memórias, Os buscadores de ouro (1993); e uma Antologia do conto triste (1992), em colaboração com a escritora mexicana Bárbara Jacobs, sua esposa. Os principais contos da sua obra foram gravados em CD pela Fondo de Cultura Económica, conhecida editora mexicana, em 1997, com deliciosa narração do próprio escritor. Augusto Monterroso faleceu na Cidade do México no dia 8 de fevereiro de 2003, e tem sido celebrado como um dos maiores do século XX.

Para Gabriel García Márquez, um livro de Monterroso “tem que ser lido de mãos ao alto. Sua periculosidade se funda na sabedoria dissimulada e na beleza mortífera da falta de seriedade”. Isaac Asimov, um dos pais da ficção-científica, registrou que seus pequenos textos “aparentemente inofensivos, mordem os que deles se aproximam sem a devida cautela e deixam cicatrizes. Não por outro motivo são eficazes. Depois de ler ‘O macaco que quis ser escritor satírico’, jamais voltarei a ser o mesmo”. E Carlos Fuentes, o mexicano autor de Terra Nuestra, sentenciou: “Imagine o fantástico bestiário de Borges tomando chá com Alice. Imagine Jonathan Swift e James Thurber trocando notas. Imagine uma rã do condado de Calaveras que houvesse realmente lido Mark Twain. Conheça Monterroso”. A Fuentes faltou recordar apenas as Histórias do Senhor Keuner, tiradas curtas e bem-humoradas do dramaturgo Bertolt Brecht, num estilo muito semelhante (às quais, diga-se de raspão, também acorre o excelente angolano Gonçalo Tavares). Agora, à sobremesa, os textos que deixamos para depois da apresentação. 

O ECLIPSE 

Quando Frei Bartolomé Arrazola se sentiu perdido, aceitou que nada poderia salvá-lo. A selva poderosa da Guatemala o havia sufocado, implacável e definitiva. Diante de sua ignorância topográfica, sentou-se com tranqüilidade a esperar a morte. Quis morrer ali, sem nenhuma esperança, isolado com o pensamento fixo na Espanha distante, particularmente no convento de Los Abrojos, onde Carlos V condescendera uma vez a descer de sua eminência para lhe dizer que confiava no zelo religioso de seu trabalho redentor.

Ao despertar viu-se rodeado por um grupo de indígenas de rosto impassível que se dispunham a sacrificá-lo ante um altar, um altar que a Bartolomé pareceu como o leito em que descansaria, por fim, de seus temores, de seu destino, de si mesmo.

Três anos no país lhe haviam conferido um domínio razoável das línguas nativas. Tentou algo. Disse algumas palavras que foram compreendidas.

Então floresceu nele uma idéia que teve por digna de seu talento, de sua cultura universal e de seu árduo conhecimento de Aristóteles. Recordou que para esse dia se esperava um eclipse total do sol. E dispôs-se, no mais íntimo, a valer-se desse conhecimento para enganar a seus opressores e salvar a vida.

- Se me matais – lhes disse – posso fazer com que o sol escureça na sua altura.

Os indígenas o miraram fixamente, e Bartolomé surpreendeu a incredulidade nos seus olhos. Viu que se produziu um pequeno conselho, e esperou confiante, não sem um certo desdém.

Duas horas depois o coração de Frei Bartolomé Arrazola jorrava seu sangue veemente sobre a pedra dos sacrifícios (brilhante sob a opaca luz de um sol eclipsado), enquanto um dos indígenas recitava sem nenhuma inflexão de voz, sem pressa, uma a uma, as infinitas datas em que se produziriam eclipses solares e lunares, que os astrônomos da comunidade maya haviam previsto e anotado em seus códices sem a valiosa ajuda de Aristóteles. 

O MACACO QUE QUIS SER ESCRITOR SATÍRICO 

Na Selva vivia uma vez um Macaco que quis ser escritor satírico.

Estudou muito, mas logo se deu conta de que para ser escritor satírico lhe faltava conhecer as pessoas e se aplicou em visitar todo mundo e ir a todos os coquetéis e observá-las com o rabo do olho enquanto estavam distraídas com o copo na mão.

Como era verdadeiramente muito gracioso e as suas piruetas ágeis divertiam os outros animais, era bem recebido em toda parte e aperfeiçoou a arte de ser ainda mais bem recebido.

Não havia quem não se encantasse com sua conversa, e quando chegava era recebido com alegria tanto pelas Macacas como pelos esposos das Macacas e pelos outros habitantes da Selva, diante dos quais, por mais contrários que fossem a ele em política internacional, nacional ou municipal, se mostrava invariavelmente compreensivo; sempre, claro, com o intuito de investigar a fundo a natureza humana e poder retratá-la em suas sátiras.

E assim chegou o momento em que entre os animais ele era o mais profundo conhecedor da natureza humana, da qual não lhe escapava nada.

Então, um dia disse vou escrever contra os ladrões, e se fixou na Gralha, e começou a escrever com entusiasmo e gozava e ria e se encarapitava de prazer nas árvores pelas coisas que lhe ocorriam a respeito da Gralha; porém de repente refletiu que entre os animais de sociedade que o recebiam havia muitas Gralhas e especialmente uma, e que iam se ver retratadas na sua sátira, por mais delicada que a escrevesse, e desistiu de fazê-lo.

Depois quis escrever sobre os oportunistas, e pôs o olho na Serpente, a qual por diferentes meios – auxiliares na verdade de sua arte adulatória – conseguia sempre conservar, ou substituir, por melhores, os cargos que ocupava; mas várias Serpentes amigas suas, e especialmente uma, se sentiriam aludidas, e desistiu de fazê-lo.

Depois resolveu satirizar os que no trabalho eram compulsivos e se deteve na Abelha, que trabalhava estupidamente sem saber para que nem para quem; porém com medo de que suas amigas dessa espécie, e especialmente uma, se ofendessem, terminou comparando-a favoravelmente com a Cigarra, que egoísta não fazia mais do que cantar bancando a poeta, e desistiu de fazê-lo.

Depois lhe ocorreu escrever contra a promiscuidade sexual e desenvolveu sua sátira contra as Galinhas adúlteras que andavam o dia inteiro inquietas procurando Frangotes; porém tantas dessas o tinham recebido que teve medo de ofendê-las, e desistiu de fazê-lo.

Finalmente elaborou uma lista completa das debilidades e defeitos humanos e não encontrou contra quem dirigir suas baterias, pois tudo estava nos amigos que sentavam à sua mesa e nele próprio.

Nesse momento renunciou a ser escritor satírico e começou a se inclinar pela Mística e pelo Amor e coisas assim; porém a partir daí, e já se sabe como são as pessoas, todos disseram que ele tinha ficado maluco e já não o recebiam tão bem nem com tanto prazer. 

A RÃ QUE QUERIA SER UMA RÃ AUTÊNTICA 

Havia uma vez uma Rã que queria ser uma Rã autêntica, e todos os dias se esforçava para isso.

No princípio comprou um espelho no qual se olhava o tempo todo procurando sua ansiada autenticidade.

Tinha vezes em que parecia encontrá-la e outras não, segundo o humor desse dia ou da hora, até que se cansou disso e guardou o espelho no baú.

Por fim pensou que a única maneira de conhecer seu próprio valor estava na opinião das pessoas, e começou a se pentear, a se vestir e a se despir (quando não lhe restava outro recurso) para saber se os outros aprovavam e reconheciam que ela era uma Rã autêntica.

Um dia observou que o que mais admiravam nela era seu corpo, especialmente suas coxas, de maneira que se dedicou a corridas e saltos para ficar com os quadris cada vez melhores, e sentia que todos a aplaudiam.

E assim continuava a fazer esforços até que, disposta a qualquer coisa para conseguir que a considerassem uma Rã autêntica, deixava que lhe arrancassem as coxas, e os outros as comiam, e ela ainda conseguia ouvir amargurada quando diziam que bela Rã, parecia Galinha.   

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