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Juro do BC derruba expectativa de crescimento em 2006 para 2,8%

Em conclave com banqueiros na Espanha, Meirelles defendeu que em 2007 continue a drenagem para os bancos através dos juros

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, disse em Madri, na segunda-feira, que o pensamento vigente na instituição é a de manutenção da atual política monetária para manter a inflação dentro do regime de metas - que tem resultado em um baixo índice de crescimento - e que “a América Latina tem condições básicas para continuar crescendo. O risco é de voltar atrás e permitir o retorno da inflação ou de outras políticas que possam gerar a volta da instabilidade”.

Evidentemente que esse pensamento é diametralmente oposto ao da maioria da população, que rejeita a política estúpida do Banco Central de impedir um crescimento superior a 3,5%. Política essa expressa no resultado do PIB no terceiro trimestre, que registrou um crescimento de apenas 0,5% em relação ao segundo trimestre deste ano e de 3,2% ante o mesmo período do ano passado, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Aliás, Meirelles se esquivou em comentar o resultado da pesquisa feita pelo próprio BC no chamado mercado – bancos, consultorias e demais instituições ligadas ao sistema financeiro – que aponta uma expansão do PIB de meros 2,86% para 2006.

E a causa principal disso todo mundo sabe, principalmente Meirelles: os juros reais mais altos do mundo – 9,5% ao ano, em média, a partir de 2003 - estabelecidos pela diretoria do Banco Central.

O presidente do BC esteve na Espanha para participar de uma reunião de presidentes de bancos centrais da Europa e da América Latina, mas, evidentemente, que estava se referindo ao Brasil ao falar de “retorno da inflação” e “outras políticas” na área econômica. Porque ou se mantém a atual política monetária, que se traduz em um crescimento muito aquém das nossas possibilidades e necessidades, ou se adota outra, voltada a um crescimento expressivo e acelerado, que é exatamente o que o presidente Lula tem destacado ultimamente, insistindo, inclusive, na necessidade de se “destravar a economia”, para que possamos ter já a partir de 2007 uma expansão inicial de 5%.

Mas, para o presidente do BC, falar de juros altos é um verdadeiro tabu. Disse ele recentemente em seminário sobre gestão pública que há um enorme “falatório sobre o juro, que não sobra tempo para falar de inflação”. Como se fosse a inflação e não o juro alto a principal causa pelo “travamento” da economia.

“Queremos um juro mais baixo? Evidentemente que sim. A sociedade, o meio empresarial, inclusive os bancos gostariam de taxas menores”, frisou Meirelles. Se é assim, por que foram mantidos os juros escorchantes? Para aprisionar o Brasil na camisa-de-força de crescimento máximo de 3,5%?

Registre-se, de passagem, que a política de desenvolvimento – que tem no presidente da República o principal defensor – não tem contradição com o controle da inflação. Até porque não há risco inflacionário algum pairando no ar. A própria pesquisa do BC projeta que o IPCA deve fechar este ano em 3,15% e no próximo em 4,1%, abaixo, portanto, do centro da meta de inflação de 4,5% para o período. Para este ano, o IGP-DI deve ficar em 3,95% e o IPC em 2,09%.

Se não há risco inflacionário, não há outro motivo para se manter a taxa de juros reais básica no patamar em que se encontra a não ser o de continuar a drenagem de imensos recursos para o sistema financeiro, este sim que deve ser objeto de profunda reforma, para que se transforme de agente da especulação em financiador da produção. Não tem sido outra a política do BC a não ser isso: juros altos que inibem os investimentos e, portanto o crescimento, e abarrotamento dos cofres dos bancos, notadamente os estrangeiros. Os juros altos não só frearam os investimentos como provocaram um câmbio adverso, afundando a agricultura e prejudicando setores fundamentais como a indústria de máquinas e equipamentos. Nada mais antagônico, portanto, com uma política de crescimento do que a continuidade de Meirelles à frente do Banco Central. Tal qual foi feito no Ministério da Fazenda, a limpeza no BC tornou-se um imperativo para o Brasil crescer. Aí reside a chave da retomada do desenvolvimento. Ou seja, ajustar a política do BC à vontade do povo, expressa majoritariamente nas urnas, e que o presidente Lula tem discutido com as lideranças dos mais diversos partidos, em especial do PMDB, para conformar um governo de coalizão, baseado em um programa de desenvolvimento.

VALDO ALBUQUERQUE 

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