A Radiobrás no
governo Lula
Bernardo Kucinski
Reproduzimos abaixo
artigo do jornalista e professor Bernardo Kucinski, publicado originalmente
pela Agência Carta Maior, tendo em vista sua importância para a política de
democratização da mídia e liberdade de imprensa apontada pelo governo Lula
para o próximo mandato.
A grande imprensa
insinua em editoriais que no segundo mandato o governo Lula quer “aparelhar” a
Radiobrás (nota 1). “Transparece agora o propósito de transformar a Radiobrás
em um dócil instrumento a serviço dos interesses políticos do atual governo
federal”, diz o editorial do Estadão.
Mas será isso mesmo?
A discussão parece ter nascido de alguma disputa por espaço no segundo
mandato, que a grande imprensa aproveita para reforçar mais uma vez no
imaginário social a idéia de um PT “stalinista e aparelhista”. A cobertura
desse caso é feita com pouca informação e muita cascata ideológica (2).
Seja qual for o
motivo, a discussão é bem-vinda e oportuna porque a política editorial da
Radiobrás nunca foi discutida publicamente no primeiro mandato (3). O que a
nova direção fez foi um daqueles exercícios internos de “planejamento
estratégico” definindo “valores” e “missão”, igualzinho ao que fazem grandes
empresas privadas (4). Dessa abordagem anódina, e num quadro de ambigüidades
generalizadas que caracterizou o primeiro mandato, surgiu o conceito ambíguo
de “jornalismo público”, base da política editorial da Radiobrás no governo
Lula. É esse conceito que tem que ser discutido, e não o falso dilema
“aparelhar ou não aparelhar”.
Mas, antes: por que
a política editorial do mais importante sistema de comunicação do governo
nunca foi discutida mais profundamente pelo governo?
Primeiro, porque o
governo Lula, no seu primeiro mandato, não colocou a comunicação no plano
estratégico em que deve estar hoje em qualquer organização importante, pública
ou privada. Mais ainda no caso de um governo hostilizado pelas elites e que
representava uma mudança transcendental no panorama político do Brasil e da
América Latina.
Segundo, porque
desde o início faltou unidade no comando da comunicação, com duas chefias
estanques: a Secretaria de Imprensa da Presidência, que cuida essencialmente
das relações entre o presidente e os jornalistas, e a Secretaria de
Comunicação de Governo e Gestão Estratégica (Secom), que cuida essencialmente
das verbas e estratégia de publicidade do governo. A Secom concentrou-se em
comunicação paga (propaganda) e algumas ações de apoio a ministérios, deixando
à nova equipe da Radiobrás ampla autonomia. Isso levou essa nova equipe a
definir endogenamente sua linha editorial, sem debatê-la com o governo como um
todo. Assim nasceu, paradoxalmente e sem um debate público, a proposta da
autodenominada “comunicação pública” e/ou “jornalismo público”.
Mas o que é
“jornalismo público”?
A explicação está no
artigo “O jornalismo público não pode ser chapa branca” (5). O título já diz
muito. Foi um conceito definido principalmente pelo que ele não é, pela
preocupação em não fazer comunicação de governo. A intenção parece boa. Tanto
assim que os autores falam na necessidade de objetividade no jornalismo e
argumentam que não há contradição entre esse tipo de comunicação e um governo
democrático. Descrevem o âmbito desse jornalismo como um triângulo formado
pelo Cidadão, o Estado e o Governo.
Mas na definição de
“comunicação pública” da Agência Brasil, principal veículo jornalístico da
Radiobrás, o que menos entra é o Estado e menos ainda o governo. A definição é
um pequeno rol de princípios (6) que não menciona as ações e decisões de
governo como seu objeto e específico de interesse.
Essa definição por
negação acabou sendo a mãe de problemas e equívocos da cobertura da Radiobrás
no primeiro mandato. Em primeiro lugar, porque sendo a única grande agência de
notícias sediada na capital da República, atos e ações de governo deveriam ser
seu foco principal, mesmo que a Agência Brasil não fosse estatal (7). Por sua
inserção estratégica, e não por ser estatal, a Agência Brasil era fonte
primária de informação correta sobre atos e decisões do governo para todas as
redações e correspondentes estrangeiros.
A nova equipe acabou
criando uma falsa discussão - essa que tanto agrada a grande imprensa - entre
caráter público da informação e o noticiário dos atos e decisões de governo,
como se o governo não fosse parte da esfera pública - quando na verdade um
governo democraticamente eleito e um Estado democraticamente construído são o
que há de mais público na sociedade.
E mais, governos
democráticos têm obrigação de informar. A informação com foco no governo não é
autoritarismo. É transparência. A maioria dos Estados democráticos valoriza
essa obrigação e possui sistemas estatais de comunicação para disponibilizar
um rol de informações relevantes, independente de a imprensa privada dar ou
não dar a informação.
Com medo de ser
chamada “chapa-branca” e apesar de conseguir um grande aumento no seu
orçamento, a Radiobrás não conseguiu criar uma narrativa própria do governo
Lula. Por exemplo, relatar a epopéia que foi a intervenção das forças armadas
brasileiras no Haiti, a maior mobilização militar brasileira desde a Segunda
Guerra Mundial. Enquanto isso, a política externa brasileira era narrada pela
grande imprensa como uma sucessão de fiascos. Quem sabe o nome do comandante
brasileiro no Haiti? Quem conhece os lances da presença brasileira? Nada disso
é conhecido (8).
Com a crise do
mensalão, o “jornalismo público” também perdeu a objetividade a que se havia
proposto. Incapaz de conduzir uma investigação própria, independente e
objetiva dos fatos, seja por decisão operacional ou por falta de repórteres
experientes, a Radiobrás reproduziu em alguns momentos delicados o discurso da
grande imprensa, gestado nos gabinetes da oposição, que pautava diretamente os
jornais. Deveria, isso sim, ter aproveitado a credibilidade obtida pelo
“jornalismo público” para iluminar a natureza dos conflitos no momento
histórico concreto, contextualizar e hierarquizar melhor os fatos, o que a
grande imprensa não fez.
Creio que o equívoco
dessa linha editorial nasceu da falta de um diagnóstico específico datado e
político. Tanto do estado de decadência do jornalismo brasileiro, quanto do
domínio de classe da indústria da comunicação no Brasil e na América Latina,
nesta quadra da nossa história em que são eleitos governantes oriundos do povo
como Lula e Evo Morales, nacionalistas como Chávez e desafiadores do capital
financeiro como Kirchner (9). A Radiobrás foi se inspirar num modelo da BBC,
de uma outra realidade e nascido num outro tempo. Deslocado do seu tempo
político, esse modelo adquire caráter metafísico (10). E mais: A BBC é um
sistema público porque é financiada pelo público (11). E não porque pratique
um certo “jornalismo público” (na verdade o que a BBC faz é bom jornalismo, e
ponto final).
Existem sistemas
públicos, ou redes públicas de jornalismo. A Radiobrás, apesar da insistência
de sua direção em se chamar de empresa pública, é uma empresa estatal,
subordinada diretamente à presidência da República e concebida como agência
estatal de informação - sua função principal, ainda que não única.
A Constituição
brasileira determina que o país deve ter um sistema de comunicação formado por
três componentes: o público, o privado e o estatal. Hoje, temos uma
comunicação dominante de caráter privado de má qualidade, uma comunicação
pública débil e fragmentada, e uma comunicação estatal que ficou com vergonha
de ser estatal.
O que fazer num
segundo mandato?
Obedecer a
Constituição. Um dos caminhos consiste em transformar parte do sistema
Radiobrás no embrião de uma rede pública nacional de jornalismo, associando-se
a outros sistemas educacionais e públicos. A outra parte permaneceria como um
sistema estatal. Isso acabaria com as ambigüidades.
Havia a idéia
inicial de fazer da TVE, vinculada à Radiobrás, esse embrião de um sistema
público nacional de informação. Essa seria a grande contribuição da Radiobrás
à democratização da comunicação no Brasil. Mas aquela idéia não prosperou. Ao
contrário, a nova equipe relegou a segundo plano uma aproximação que já
existia entre a TVE e a TV Nacional, também do seu sistema.
Notas
(1) O editorial do
o Globo saiu, curiosamente, no mesmo dia em que o blog do Paulo Henrique
Amorim entrevistou o presidente da Radiobrás sobre o assunto (17/11/06). O do
Estadão saiu dois dias depois, em 19/11/06.
(2) O jargão
jornalístico brasileiro chama de “cascata” a notícia inventada, chutada.
(3) Nem mesmo no
Conselho Editorial da empresa, do qual eu fazia parte. Por esse motivo, após
várias tentativas infrutíferas de abrir uma discussão sobre a política
editorial, demiti-me do Conselho.
(4) Ver essas
definições na página de rosto da página na internet www.radiobras.gov.br
(5) Eugênio Bucci
e Carlos Knapp. Comunicação e Educação, ano X, Número 2, maio- agosto de 2005.
A expressão “jornalismo público” é infeliz, um pleonasmo, porque o jornalismo
por definição é público. A comunicação pode ser pública ou privada, ou
inter-pessoal ou seja lá o que for, o jornalismo é sempre público.
(6) Basicamente: a
comunicação pública é laica, é pluralista, é apartidária, não tem finalidades
comerciais e promove direitos humanos.
(7) A Radiobrás
delegou essa função à NBR, um canal de TV a cabo sem visibilidade.
(8) Se alguma
lógica une as grandes reportagens da Agência Brasil é a de uma imprensa
alternativa, com ênfase em movimentos populares, como se a Agência Brasil
fosse de uma ONG, financiada com recursos do Estado, mas voltada aos temas do
meio ambiente, demandas populares, minorias. Uma agenda que tenta se contrapor
ao Estado.
(9) Tanto assim
que Eugênio Bucci engajou-se na campanha pela “flexibilização da Hora do
Brasil”, principal bandeira dos barões da rádio comercial. Ver “A Voz do
Brasil sem ditadura”, Eugênio Bucci, Folha de S. Paulo, 06/03/06.
(10) Paulo
Henrique Amorim questionou Eugênio Bucci sobre essa questão e ele respondeu
que “um dos equívocos é alguém imaginar que os órgãos públicos devam atuar
como uma espécie de contrapeso em relação a um equilíbrio virtual que se
estabeleça na sociedade...”
(11) Através de
uma taxa anual paga por todos os lares que possuem rádio e TV.