Mídia independente vs. mídia dos monopólios
A mídia dos monopólios
financeiros, derrotada – para usar uma palavra caridosa – nas urnas, recorreu
nos últimos dias ao seu alentado acervo de cretinices, chicanas e rasteira
estupidez para tentar a continuidade do que sempre fizeram: monopolizar a
publicidade, em especial, a publicidade governamental. Evidentemente, não é
uma surpresa. A mídia dos monopólios é, ela própria, um monopólio, e
monopólios existem para monopolizar, isto é, para arrancar o couro dos
cidadãos e devorar o dinheiro do Estado. Ao lado de velhos e notórios
proxenetas, apareceram também, nessa mídia, alguns moçoilos, candidatos a
neo-proxenetas, mas que, apesar de seus fumos (não pense o leitor que os
estamos acusando de fazer uso de alguma erva ilegal – trata-se apenas da
fumaça da pretensão), são vocacionados apenas para os níveis mais inferiores
do meretrício.
Assim é que o nosso
estimadíssimo amigo Otavinho colocou um deles na “Folha de S. Paulo” para,
entre outras coisas, tecer uma elegia ao presidente da Radiobrás, Eugenio
Bucci, por sinal um ex-funcionário da “Folha”. Sobre Bucci e sua gestão,
recomendamos ao leitor o artigo de Bernardo Kucinski que reproduzimos na
página 2.
DEPENDÊNCIA
Bucci defende uma estranha
“independência” da Radiobrás: que ela seja dependente dos monopólios de mídia,
e não do governo. Kucinski lembra em seu artigo o caso da ficção conhecida
como “mensalão”. O que a Radiobrás fez nessa época foi, simplesmente,
reproduzir o que todos os antros de forjicação golpista propalavam aos quatro
ventos com o objetivo evidente de derrubar o governo legalmente eleito - o
mesmo governo ao qual a Radiobrás é subordinada, e o mesmo governo que paga o
salário de Bucci.
É essa, basicamente, a
independência que Bucci defende para a Radiobrás. Ou seja, que o governo não
possa dirigir um órgão governamental, para que ele seja reduzido à função de
papagaio do golpismo contra o próprio governo. Resta dizer que tal não
aconteceu somente em relação a essa ficção, mas em relação a tudo que é
esgoelado pelo que há de mais reacionário, mais mentiroso, mais antinacional e
mais antidemocrático no país. Esse servilismo em relação aos inimigos do povo
e do governo é a linha de conduta que Bucci estabeleceu na Radiobrás, como o
leitor poderá verificar nos documentos que ele colocou no site da agência de
notícias, sem discuti-los, como observa Kucinski, nem mesmo no conselho do
órgão, quanto mais no governo.
Por tudo isso não é de
estranhar que o moçoilo da “Folha” ache que Bucci é um exemplo de “espírito
público e compromisso democrático”. Na verdade, ele não acha nada, pois
ignora o significado tanto de uma quanto de outra expressão. Mas encontrou no
ex-colega um amparo para a sua crassa solidão: segundo ele, Bucci teria
demonstrado que “a noção de ‘imprensa independente’ é um disparate” -
naturalmente, criado por quem apóia o atual governo.
Pensar-se-ia que o sujeito
está advogando a noção de que não existe imprensa independente. Mas,
exatamente aí, ele percebeu que estava escrevendo na “Folha”, e que o Otavinho
até poderia gostar de tal tese, mas certamente ela não passaria pelo velho
Frias, que, prudentemente, não gosta de quem fica falando de corda em casa de
enforcado. Assim, ele corrigiu rápido: “Um jornal independente, diz Bucci,
‘não depende nem de verbas públicas nem da participação privilegiada de um
anunciante em particular’”.
Não se sabe se nesse
momento, além do medo de ir para a rua, um rasgo de lucidez atacou o estouvado
rapaz, pois a definição de Bucci, cretina na intenção consciente de passar que
a mídia dos monopólios é a única que não é assim, se fosse séria, deixaria
muito mal a imprensa que ele julga defender – afinal, em termos de imprensa,
não há nada mais dependente do dinheiro do Estado e de meia dúzia de
anunciantes, ligados entre si por mil laços financeiros, políticos e às vezes
até familiares, do que a imprensa dos monopólios. Não é por outra razão que a
“Folha”, durante a ditadura, era o órgão oficial da Oban e do DOI-CODI. Não é
por outra razão que a “Folha” defende qualquer porcaria que a casta dominante
nos EUA faça no mundo, até o assassinato em massa no Iraque. Da mesma forma,
não é por outra razão que a “Folha” ataca o governo Lula: não por suas
possíveis deficiências, mas porque esse é o interesse dos monopólios externos.
A “Folha”, certamente, não é única no gênero. Também existem a “Veja” e outras
mal-afamadas academias de servilismo.
Talvez percebendo que
havia um flanco aberto na definição de Bucci, o rapaz da “Folha” resolveu
enriquecer a tese do confrade, ou seja, torná-la à prova de mal-entendidos.
Por isso, atribuindo ao PT a sua contribuição, disse que o partido de Lula
chama “de ‘imprensa independente’ aquela que depende de verbas públicas e
apóia o governo que lhe sustenta”.
Como somos muito
otimistas, vamos ser didáticos para ver se o muar entende. Imprensa
independente é aquela que é independente dos monopólios financeiros, que são
sobretudo estrangeiros. Ou seja, ela é independente do que há de mais
antinacional e antipopular, portanto, de mais antidemocrático. Em outras
palavras: a imprensa independente representa aqueles que têm interesse na
independência nacional. Por isso ela é independente. Porque representa os
setores aos quais interessa a independência econômica, cultural e, inclusive,
política, do país - dos trabalhadores até os empresários brasileiros.
MONOPÓLIOS
Já a imprensa dos
monopólios representa os interesses dos monopólios, ou seja, o interesse de se
apropriar do dinheiro público, de privatizar o Estado, de quebrar o esforço
coletivo pelo progresso do país, de travar o nosso crescimento, de manter o
Brasil como gigantesca colônia econômica do capital financeiro externo. Por
isso é que ela não é independente, e os exemplos que citamos acima, do
DOI-CODI até o Iraque, são suficientes.
A imprensa independente,
representante dos interesses populares e nacionais, não “depende de verbas
públicas”. Durante a ditadura, e durante todos os anos de Fernando Henrique,
ela existiu sem publicidade governamental alguma. E, hoje, ela não apóia o
governo porque “lhe sustenta”, até porque não sustenta. O que a imprensa
independente não aceita é ser discriminada, ou seja, que toda a publicidade do
governo seja abocanhada – é o termo adequado – apenas e tão somente pela mídia
dos monopólios, e por mais ninguém. Principalmente quando temos um governo
eleito contra os monopólios, contra Wall Street, contra sua mídia golpista,
contra os interesses antinacionais e antipopulares.
No momento, apesar da
democratização da mídia ser um objetivo já apontado pelo governo, a
publicidade governamental sustenta não a imprensa independente, mas a “Folha”,
a “Veja”, a “Globo” e outros da mesma cepa. A imprensa independente apóia o
governo em função de seu compromisso com os interesses nacionais e populares.
Já as heranças do passado maldito, os Meirelles da vida, não é a imprensa
independente que os apóia, mas a imprensa dos monopólios, isto é, os lupanares
do pensamento, como dizia Balzac, que são esses boletins do capital financeiro
externo.
CARLOS LOPES