Libaneses exigem ‘saída de Siniora e governo soberano’
Os mais diferentes setores da população libanesa tomaram
as ruas exigindo a constituição de um governo de unidade nacional que expresse
a situação política criada com a vitória sobre o invasor israelense
Empunhando bandeiras libanesas, uma multidão exige desde a última sexta-feira, dia 1º de dezembro, nas ruas e praças de
Beirute, diante do palácio do primeiro-ministro Fuad Siniora, sua renúncia e a
constituição de um governo de unidade nacional, que expresse a nova situação
política no país criada a partir da heróica resistência e derrota da agressão
israelense em julho e agosto.
Bem que a mídia imperial e a subalterna têm tentado
caracterizar a gigantesca mobilização como “coisa do Hezbolah”, supostamente
por “encomenda da Síria” e teleguiado “do Irã”. Mas os mais diferentes setores
da população libanesa tomaram as ruas, não apenas os “militantes do Hezbolah”.
Também o Movimento Patriótico Livre, do general cristão maronita Michel Aon,
conhecido por se opor durante anos à presença das forças sírias; o Partido
Marada, encabeçado pelo ex-presidente, e cristão maronita, Sulei-man Franjieh;
o Amal – partido cujo líder, o xiita Najib Berri, em consonância com a
constituição, preside o parlamento; e mais drusos e outros grupos do país.
CRISTÃOS E MUÇULMANOS
Assim, cristãos e muçulmanos marcharam lado a lado –
muitos jovens; mães com as crianças pelo braço; os bravos da resistência do
sul; intelectuais; trabalhadores. Escondido em seu palácio, protegido por
cordões de arame farpado, blindados e tropas especiais, Siniora ouviu seu
governo ser repudiado por mais de um milhão de pessoas. “Fora Siniora, nós
queremos um governo soberano!”, cantava a multidão, agitando as bandeiras
libanesas. “Abaixo o governo dos EUA no Líbano!”, clamaram, ainda. A acintosa
ingerência do embaixador americano no Líbano, era satirizada por uma faixa:
“abaixo o governo Felt-man”. Em desdobramento à manifestação de sexta-feira, a
multidão ergueu tendas brancas em duas praças centrais de Beirute, prometendo
só se retirar até a mudança de governo. Os dois enormes acampamentos vêm sendo
mantidos, dia e noite.
A mobilização não é um relâmpago em céu azul. As forças
progressistas – aquilo que a mídia geralmente chama de “Hezbollah” para
insinuar que é iraniano e não libanês – haviam convocado o governo Siniora, a
partir da unidade contra o agressor sionista, descaradamente apoiado por
Washington, a que largasse mão da anuência aos EUA e se reintegrasse à nação.
O gigantesco crescimento de consciência entre o povo libanês, ao fazer frente
à mais recente agressão israelense, era o veio que permitia superar as
divisões geradas a partir do atentado que matou o primeiro-ministro Hafik Al
Hariri. Era possível um efetivo governo de união nacional, o que exigia a
ampliação dentro do governo do espaço das forças progressistas – melhor
dizendo, a recuperação desse espaço - mas não foi essa a opção de Siniora e
seus aliados da “Aliança do 14 de Março”.
FORÇAS DO PROGRESSO
As forças progressistas anunciaram que iniciariam uma
campanha de massas pela renúncia do atual governo, que já não representava a
atual correlação de forças no Líbano. A campanha só teve seu início adiado por
mais um atentado suspeito, em que foi assassinado o aliado de Siniora, o
ministro Pierre Gemayel, das Falanges, o herdeiro político dos fascistas
libaneses – aliás, o partido que cometeu os massacres de palestinos de Chabra
e Chatila, sob escolta dos invasores israelenses na década de oitenta. Com a
saída de seis ministros, a substituição do atual governo tornou-se inadiável.
O governo Bush vinha pressionando há meses para que
Siniora desse seu aval a mais um tribunal-farsa ianque, o sobre o assassinato
de Hariri, em que os dois principais beneficiários com o crime, Israel e EUA,
e suas notórias agências de atentados, Mossad e CIA, são preliminarmente
excluídos de qualquer investigação séria e todas as ilações, futricas e
invenções são dirigidas contra a Síria. Não havia como o governo Siniora se
pronunciasse sobre a questão, já que com a saída de todos os ministros xiitas
qualquer “decisão” seria abertamente inconstitucional. Como se sabe, o acordo
entre as etnias e cultos no Líbano, estabelece um equilíbrio entre cristãos,
sunitas e xiitas, cabendo a presidência aos primeiros, o cargo de
primeiro-ministro aos segundos e a chefia do parlamento aos últimos. Então,
não houve uma “decisão” do Líbano, do seu governo, mas tão-somente de uma
facção libanesa. Uma facção submissa.
EMILE LAHOUD
A questão foi muito claramente posta pelo presidente
Emile Lahoud, um cristão. “Qualquer reunião deste governo será absolutamente
ilegal e inconstitucional porque está baseada em terreno ilegal e será
considerada nula e inóqua”. Além da maior parte dos cristãos se opor, a
totalidade dos xiitas está ausente. Diante da gigantesca manifestação do povo
libanês contra seu governo, Siniora saiu-se com essa pérola - “estamos
dispostos a manter o curso” – que deve ter aprendido nos dez minutos de prosa
com Bush em abril. Naturalmente, a mídia dos EUA, que achou as manifestações
que derrubaram o governo libanês em 2005 uma “revolução dos cedros”, está
considerando que o povo agora ir às ruas, contra os amigos dos americanos, é “golpismo”.
ANTONIO PIMENTA