Por que Litvinenko passeava com polônio-210 em Londres?
O extenso rastro radioativo
de polônio-210 deixado pelo desertor do Serviço Secreto de Segurança Federal
da Rússia, Alexander Litvinenko, em Londres, torna pouco verossímil a versão
de que ele foi vítima de um envenenamento premeditado e criminoso. Tal versão
fazia algum sentido no caso do tálio, inicialmente considerado como causa, e
que é muito letal. Mas o polônio-210 não é assim, mal ultrapassando a barreira
epitelial, isto é, a pele.
Assim, o único jeito de
achar-se radioatividade nos locais em que o desertor esteve é se ele estivesse
portando uma carga de material radioativo. E não necessariamente polônio.
Poderia ser outro material radioativo fabricado em laboratório, mas que
contivesse traços de polônio. A síntese desses materiais nos laboratórios
nunca é tão pura quanto nos livros escolares.
Normalmente, o polônio-210 é
transportado em uma ampola de vidro ou em cápsulas. De acordo com o
especialista em isótopos radioativos do Instituto de Investigações Nucleares
RAN, Boris Zhuikov, o material é produzido em quantidades muito pequenas. Como
ele explicou, a emissão radiativa de uma pequena quantidade do elemento é
mínima, e, o exterior, não representa danos sérios para o organismo. É
possível que, ao transportar o polônio-210, de alguma forma o desertor tenha
se contaminado, o que explicaria ter-se encontrado o isótopo na urina.
RASTRO RADIOATIVO
Aliás, além do rastro
radioativo propriamente dito, há outro. Litvinenko se encontrou, no mesmo dia,
com o chefe da máfia privatista russa, Boris Berezovski, foragido de Moscou, a
quem prestava serviços. Com um “professor” italiano, Mario Scaramella,
assessor de uma comissão de provocação criada por Berlusconi para “investigar”
a ação da KGB na Itália durante a guerra fria, e que é tido ainda como agente
da CIA. E com um dos chefes da “segurança” de Berezovski, Andrei Lugovoi.
Mesmo entre os jornais
ingleses já há quem encontre uma explicação muito mais simples do que o
“envenenamento”, como o “The Observer”, que considerou que o desertor
possivelmente tenha roubado ou conseguido de algum lugar o material radiativo.
Por exemplo, de uma base russa.
A dispersão de vestígios
leva a outra questão: por que ele estaria andando por Londres com a ampola? A
quem tentava vender? Lugovoi, com quem o desertor se encontrou no bar do Hotel
Millenium, relatou que no ano passado fora procurado por Litvinenko, com a
proposta de um “bom negócio”. Seria esse o “bom negócio” – o mercado negro de
materiais nucleares?
CONTRABANDO NUCLEAR
O já citado Scaramella
revelou à polícia britânica que o russo lhe contou que liderou uma ação de
contrabando de material nuclear da Rússia para Zurique, na Suíça, em 2000. Foi
nessa época que ele desertou, após ser investigado por roubo e corrupção. O
desertor costumava contar a história de que havia saído da Rússia por ter se
negado a cumprir a ordem de assassinar Berezovski. Aliás, não só não cumpriu,
como ficou íntimo dele. No escritório do mafioso, no endereço 7 Down Street,
Mayfair, foi detectada uma maior quantidade de radioatividade e o local foi
lacrado pela Scotland Yard por motivos de segurança.
Quanto à carta em que
Litivinenko culpa o presidente russo Putin, pode tratar-se apenas de uma
manobra para desviar as atenções do que ele estava fazendo. Afinal, ele não
tinha a certeza de que ia morrer e provavelmente, como é da natureza, em
geral, dos psicopatas, tal possibilidade não lhe parecia real. E se achasse
que ia morrer, tal possibilidade não seria um estímulo para redimir-se. Pelo
contrário, seria um estímulo para vingar-se do próprio fracasso, atirando-o
sobre os outros.
A.P.