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Não Tropece na Língua
Sobre o verbo haver
Maria Tereza de
Queiroz Piacentini*
Como fica o verbo haver quando tem o sentido de
“conseguir”, “obter”, “alcançar”, “adquirir”? Estão corretas
as frases: “Hei de comprar aquele carro. Hei de fazer a prova amanhã. E
Soares houve-se como pôde na singular situação em que se achava. Eu hei-me
bem diante dos convidados.”? (No sentido de comportar-me). P. K. Rio de
Janeiro/RJ
Para melhor responder à questão, vejamos toda a sintaxe
do verbo haver, tanto no seu uso pessoal quanto impessoal.
I - Como verbo PESSOAL, pode empregar-se em todas as
pessoas, fazendo a devida concordância com seu sujeito. Ocorre nos seguintes
casos:
1. como auxiliar de outro verbo, o qual vai dar o sentido
à frase, sendo por isso chamado de ‘principal’: Vamos nos mudar deste
bairro caso ele haja encontrado casa em outro. O convite havia sido feito para
que se discutisse a ética nas relações profissionais. Falou como se eu não
houvesse admitido que não conseguimos deixar de ser seres morais!
O verbo haver neste caso comuta com o auxiliar ‘ter’,
que é mais popular:
Vamos nos mudar caso ele tenha encontrado casa em outro
bairro. O convite tinha sido feito... Falou como se eu não tivesse admitido...
2. na forma pronominal – HAVER-SE – como o sentido de
portar-se, conduzir-se, proceder, acompanhado obrigatoriamente de um sintagma
adverbial de modo:
O jogador se houve dignamente quando foi eliminado da Seleção.
Houveram-se com acerto ao expulsar os invasores, uma vez que as terras eram
produtivas. Eu me haverei bem diante dos convidados.
Aqui, não cai bem o tempo presente (“eu hei-me bem”)
que o consulente apresenta.
3. na forma pronominal, com o significado de ajustar
contas:
Ela vai se haver comigo quando chegar em casa. Obrigou-o a
aderir à greve. Depois, ele que se houvesse com o patrão.
4. Num uso mais raro e incomum atualmente, quando significa
a) ter, possuir: Pediam que o inimigo houvesse piedade
deles. Haveis consciência do que estais a fazer?
b) obter, conseguir ou herdar: Queriam saber onde ele
houvera o dinheiro. Houvemos as terras de nossos pais.
c) considerar, julgar, pensar, achar: Se houveres que é
tempo perdido, desiste da empreitada. Os generais houveram todos os soldados por
competentes.
5. Semelhante a esta última é a expressão HAVER POR BEM
( = julgar por bem), que tem o sentido de dignar-se a ou decidir-se a (alguma
coisa) por achar melhor, por entender mais conveniente:
Houve por bem libertar seus escravos antes que fosse
obrigado por lei a fazê-lo. Tenham paciência que ele haverá por bem
conceder-lhes o abono.
Reportando-me ainda a duas frases mencionadas pelo
consulente, lembro que os auxiliares TER e HAVER quando seguidos da preposição
DE formam locuções verbais com sentidos diferentes entre si:
A) HAVER DE expressa intenção, promessa: Hei de comprar
um carro 0 km. Hei de fazer a prova amanhã. Por que haveríamos de nos
preocupar em agir bem se não tivéssemos algum apoio para dizer que amanhã será
melhor do que hoje? O direito à diversidade haverá de tirar nossa
possibilidade de exigir do outro que é diverso o mesmo que exigimos de nós próprios.
B) TER DE (ou QUE, modernamente) dá idéia de
obrigatoriedade, necessidade: Lamentavelmente tenho de lhes dizer que seu crédito
foi cortado. Temos que assumir o peso de decidir o que vai valer e o que não
vai valer em nossa inevitável convivência humana.
II - O verbo haver também pode ser usado como IMPESSOAL,
sem flexão de número-pessoa, isto é, ele permanece na 3ª pessoa do singular
seja qual for o tempo e modo verbal. Neste caso, tem as significações de:
1. existir: A ética é o reconhecimento de que somos indivíduos
porque há outros indivíduos. O pior, talvez, seja não o fato de haver
concentração de renda, mas o fato de que se considere isso normal, banal,
inevitável.
2. acontecer, realizar-se: Houve mais dois simpósios para
discutir o tema.
3. decorrer, ter passado (tempo): No campo filosófico o
debate está aceso há vários anos. Faz tempo que não a vejo, pois há dias não
vem trabalhar.
Vale observar que neste caso 3 haver comuta com fazer,
sendo opcional o uso da partícula QUE quando a expressão de tempo vem no início
da oração:
No campo filosófico o debate está aceso faz vários anos.
Há tempos [que] não a vejo, pois faz dias [que] não vem trabalhar.
Ainda com relação aos itens 1 e 2, vale comentar a vacilação
que ocorre, principalmente na oralidade, no uso das formas impessoais (sem
concordância) nos tempos pretéritos e futuros. Há uma tendência dos falantes
a pessoalizar o verbo haver como se faz com seus sinônimos. Assim, por exemplo,
é possível ouvir mesmo de pessoas cultas “haviam gigantes, haverão dois
simpósios”, dada a analogia com “existiam gigantes, acontecerão dois simpósios”.
Todavia, a norma-padrão exige a não-flexão: “havia gigantes, haverá dois
simpósios”. Escrever do outro modo é incorrer em críticas, certamente.
Em termos de análise sintática, o que se dá com existir
e acontecer é que a coisa existente ou acontecida é o sujeito da oração
[gigantes existiam, simpósios acontecerão], ao passo que com haver a coisa
existente é o objeto direto. Sendo o verbo haver impessoal neste caso, não
existe sujeito, e não havendo sujeito não há por que flexionar o verbo.
*Diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos
livros “Só Vírgula”, “Só Palavras Compostas” e “Língua Brasil:
Crase, pronomes & curiosidades” - www.linguabrasil.com.br
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