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O banco que não era de Bornhausen (VII) Além do Opportunity, Araucária lavava dinheiro via Marka
e FonteCindam
No último capítulo da série “Araucária: o banco que não era da família Bornhausen” tratamos do fato do banco estar envolvido ou ligado a uma grande parte dos esquemas de corrupção montados no país. Além de ter operado com o banco Opportunity, de longe um dos maiores centros de corrupção já montados no Brasil, o Araucária operava com os bancos Marka e FonteCindan, outras instituições que tomaram conta dos noticiários policiais em virtude do rombo promovido contra os cofres públicos. A Justiça Federal do Rio de Janeiro condenou à prisão oito envolvidos no escândalo do socorro aos bancos Marka e FonteCindam, ocorrido logo após a desvalorização do real ante o dólar em janeiro de 1999. Tudo indica, segundo uma série de denúncias, que o rombo no BC que causou a condenação de Chico Lopes, Demosthenes Madureira de Pinho, Cláudio Mauch e Tereza Grossi, teve a participação ativa de Fernando Henrique Cardoso e Pedro Malan. De acordo com a documentação analisada pelo HP, o banco Araucária também utilizava os bancos Marka e FonteCindam para lavar dinheiro através de operações fraudulentas na bolsa de valores. Pelo menos em uma oportunidade, como demonstra as gravações telefônicas realizadas na casa de câmbio do Araucária, o FonteCindam foi utilizado para realizar operações irregulares no exterior. Em março de 1998, um dos operadores de câmbio do Araucária entrou em contato com a funcionária Denise, do FonteCindam, para consultar sobre a abertura de uma conta na instituição para trazer dinheiro sujo depositado no exterior. Após discutir as taxas, Denise sugere que a operação, que totalizava US$ 100 mil, deveria ser feita em três parcelas para não chamar a atenção das autoridades. Tal operação foi efetivada posteriormente. Em outra oportunidade, em maio de 1998, o mesmo Marcelo realiza uma operação semelhante para trazer dinheiro depositado no exterior. O caminho é o mesmo do banco FonteCindam, isto é, entra no país como se fosse “investimento” estrangeiro na bolsa de valores. O diálogo entre Marcelo e Georgiana, do banco Marka, nos esclarece como a operação era feita. Marcelo: “eu estava querendo fazer um resgate. Acho que estou de aniversário hoje”; Georgiana: “tem (US$) 86 mil 599”; Marcelo: “deixa eu te fazer uma pergunta. Bem, eu queria sacar esse valor integral pelo seguinte: com a nova tributação dos fundos, quero arranjar um produto que não fique identificado que está no meu nome. Eu não sei se você tem alguma coisa do gênero ou um produto parecido, ou sai e depois entra com...”; Georgiana: “é, a gente tem produtos lá fora, produtos que você pode...não sei se você tem conta lá fora. Você faz uma ordem de pagamento na conta que a gente tem no Swiss Bank...”; Marcelo: “é, seria um fundo offshore”; Georgiana: “exatamente”; Marcelo: “e você tem algum tipo de operação que no caso que saio e depois ingresso como investidor estrangeiro num fundo local, uma coisa do gênero...”; Georgiana: “tenho. Mas aí você não foge da tributação”; Marcelo: “não, o problema para mim não é tributação. O meu problema é origem”; Após esta conversa esclarecedora, Marcelo realiza a operação, sacando o dinheiro das contas do Araucária na Finambrás e remetendo para o Brasil como se fosse um “investidor” estrangeiro atuando na bolsa de valores. Esse esquema revela outro ponto importante a ser combatido no país, ou seja, que a bolsa de valores é usada, além de especulação financeira, para lavar dinheiro sujo da corrupção. As operações do Marka e FonteCindam revelam também que os lavadores de dinheiro, principalmente do Araucária, tinham dezenas de esquemas e caminhos para operar bilhões de dólares, dificultando, assim, o rastreamento do dinheiro obtido através da corrupção implementada na máquina pública. Durante décadas, o dinheiro foi sugado do Estado para alimentar as contas particulares de quem realmente roubou o país. Após as privatizações, maior fonte de roubalheira já implementada no Brasil, alguns chegaram a fundar bancos especializados para lavar o seu dinheiro e dos “amigos”. ALESSANDRO RODRIGUES |