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Professor Márcio Pochmann, do Instituto de Economia da Unicamp: “Fazenda transformou-se no ministério dos juros” ‘O
atual ciclo econômico da financeirização’, afirma o professor, ‘termina
por obstaculizar as possibilidades de implantação de um novo projeto nacional
de desenvolvimento econômico e social’
Não sem
motivo, o Ministério da Fazenda transformou-se no ministério dos juros”. A assertiva é do economista Márcio
Pochmann, no artigo “Ajuste Fiscal, Desajuste Social”, no boletim do Centro
de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho, da Unicamp. Isso
porque, encerrado o chamado ciclo da industrialização – que teve início com
a Revolução 30 e se estendeu até 1980 – o que passou a prevalecer na
economia brasileira é o que o professor da Unicamp denomina de “financeirização”.
Anteriormente a ação do Estado era direcionada para garantir e sustentar a
atividade produtiva. Daí a criação da CSN, Vale do Rio Doce, Petrobrás etc.,
que levou ao crescimento de 7% ao ano, em média, no período. A orientação da
economia direcionada para a produção proporcionou a manutenção do
crescimento, de certa maneira, mesmo que deformada após a morte do presidente
Getúlio Vargas. “O
atual ciclo econômico da financeirização”, diz Pochmann, “termina por
obstaculizar as possibilidades de implantação de um novo projeto nacional de
desenvolvimento econômico e social”. O que
sucedeu o fim do ciclo da industrialização não foi só a “década
perdida”, a de 80, mas pior. Foi a transformação do Estado em sustentáculo
do setor financeiro, em detrimento do setor produtivo. Daí a explosão da dívida
pública – e do desemprego – no governo FH, uma vez que “a sustentação
desse ciclo de acumulação financeira tem sido de responsabilidade do Estado
que, por meio do endividamento público, mantém ativas as oportunidades de
ganhos improdutivos”. Assim,
segundo Pochmann, “o crescimento econômico permanece asfixiado, tornando cada
vez maior a pressão pelo ajuste fiscal proporcionado tanto pelo aumento da
carga tributária como pelo contingenciamento do gasto público”. As ações
do Ministério da Fazenda têm tido tão somente a finalidade de canalizar os
recursos para o setor financeiro ao longo dos últimos dez anos. Centralização
de receita – “o orçamento da seguridade social, definido pela Constituição
de 1988, segue sem setor adotado” -, corte de investimentos - “uma das
principais contenções orçamentárias diz respeito à diminuição nos
investimentos públicos, que se tornou residual na administração pública”
-, contingenciamento, seqüestro de recursos de estados e municípios, privatização
no governo tucano, descentralização de encargos da União para estados e municípios
sem a devida descentralização da receita pública, elevação da carga tributária
- “o principal movimento em termos de elevação da carga tributária em relação
ao PIB deveu-se, na maioria das vezes, ao atendimento dos compromissos do Estado
para com os detentores dos direitos sobre a riqueza financeirizada” – e
desvinculação das receitas - Fundo Social de Emergência, em 1994; Fundo de
Estabilização Fiscal, em 1996; e Desvinculação de Receita da União, em
1999. A elevação
desta última de 20% para 40%, aliás, foi proposta pelo ministro da Fazenda,
Antonio Palocci, junto com o aumento crescente do superávit primário, com a
finalidade óbvia de canalizar os recursos para o pagamento de juros, o que é,
ao fim e ao cabo, a razão de existir da atual política econômica, ou seja, a
“financeirização” da economia. Mesmo com o desempenho pífio da economia
no período, com todo o desvio para pagamento de juros, com o nível de
desemprego altíssimo, o endividamento do setor público tem permanecido
superior a 50% do Produto Interno Bruto (PIB). Em seu
estudo, o professor Márcio Pochmann constatou “a existência de um elemento
de ordem estrutural na dinâmica capitalista atual que transforma o setor público
no comandante da produção de uma nova riqueza financeirizada, apropriada
privadamente na forma de direitos de propriedade dos títulos que carregam o
endividamento público”. |