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Cargill compra Seara e a transforma numa ‘fábrica de mutilados’ Comissão Nacional dos Trabalhadores da Cargill, formada no último fim de semana em Sidrolândia-MS, denuncia a multinacional norte-americana pela aceleração brutal e desumana do ritmo de trabalho nos frigoríficos de frango “O ritmo desumano de trabalho e as longas jornadas estão multiplicando o número de lesionados por esforço repetitivo nas indústrias avícolas, e a multinacional norte-americana Cargill é a maior expoente dessa barbárie, seja pelos constantes e reiterados abusos contra os direitos sociais ou pela violência e truculência que vem utilizando contra a organização sindical”, denunciou Siderlei de Oliveira, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Alimentação (Contac). Siderlei coordenou no último final de semana, em Sidrolândia-MS, uma reunião de sindicatos de todo o Brasil que têm a Cargill em sua base, onde foi definido um calendário de mobilizações para pressionar a empresa a mudar de rumo e negociar. Ao mesmo tempo, os sindicalistas vão acionar os Ministérios Público, do Trabalho e da Previdência para que ampliem a fiscalização sobre os desmandos da múlti e reduzam o ritmo de trabalho determinado pela aceleração desumana das nóreas - as correias transportadoras do frango. Atraída pelo vertiginoso crescimento do setor avícola - cujas exportações aumentaram de US$ 879 milhões em 2000 para US$ 2,594 bilhões em 2004 e mais de US$ 3,5 bilhões em 2005 (aumento de 35%) - a Cargill investe na desnacionalização da galinha dos ovos de ouro, tendo comprado recentemente a Seara, e saltado da 14ª para a 11ª colocação entre as maiores empresas no país. Infelizmente, para os trabalhadores e para o Brasil, fatias cada vez mais gordas deste importante segmento vem sendo amealhadas pela multinacional. “A Cargill se transformou numa fábrica de lesionados, com problemas gravíssimos em todas as unidades. Temos muitas companheiras incapacitadas, que não podem mais segurar seus filhos ou varrer a casa. E o pior é que depois de lesionar trabalhadores e trabalhadoras, a empresa simplesmente demite, como se não tivesse responsabilidade nenhuma pelo que vem ocorrendo. Nós, aqui em Sidrolândia, levamos de 8 a 10 companheiros da fábrica toda semana para a capital, Campo Grande, para fazer exames de saúde mais complexos. Agora, responderemos com unidade e organização em nível nacional, pois o problema chegou a um ponto insuportável”, declarou a secretária-geral do Sindicato dos Trabalhadores da Alimentação de Sidrolândia (Sindaves), Luciene Leni Ferreira, sintetizando o espírito da reunião. O encontro definiu ações comuns contra os crescentes abusos da Cargill, principalmente a aceleração descomunal do ritmo intenso de trabalho nos frigoríficos avícolas, o excesso de jornada, o descaso com a saúde dos funcionários e as recorrentes práticas anti-sindicais, na tentativa de impedir a fiscalização e as denúncias sobre o que vem acontecendo nos locais de trabalho. Vídeos, fotografias e farta documentação dos abusos da multinacional continuam sendo reunidos para agilizar o processo. Trabalhador da Seara Cargill, onde é desossador de frango, o vice-presidente do Sindaves, Claudinei Reginaldo dos Santos, relatou o drama que sente na pele com o aumento do ritmo de trabalho. “Tomo injeção constantemente, pelo menos de quatro em quatro dias, para suportar a dor. Dói tudo: braço, ombro, pescoço, coluna. Fiz uma ressonância magnética que apontou tendinite crônica. Infelizmente, não sou o único, há muita gente dentro da fábrica nas mesmas condições. Pior, há outros tantos que foram demitidos e ficaram à mercê da sorte”, ressaltou. De acordo com Claudinei, o Sindicato entrou com diversas ações no Ministério Público Estadual e Federal para pôr um fim às péssimas condições de trabalho. “A maioria das pessoas afastada é por problemas de LER e de coluna, mas há também muitos aposentados por problemas psicológicos. Há casos, inclusive, de companheiras que tentaram o suicídio por conta da depressão profunda causada pela pressão das chefias. A empresa não acompanha essas pessoas nem de longe, é o fim da picada”, acrescentou. LEONARDO SEVERO |