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Haitianos festejam a vitória e confraternizam com brasileiros

Mobilização popular barrou fraude dos golpistas contra Préval. Ação do Brasil foi decisiva para garantir expressão das urnas e neutralizar manobra apoiada pela Casa Branca

Dezenas de milhares de haitianos comemoraram nas ruas de Porto Príncipe com música, dança e palavras de ordem, a proclamação da vitória de René Préval como presidente da República, se congraçando com os soldados brasileiros, postados nos principais pontos da capital.  

MOBILIZAÇÃO  

A mobilização da população para impedir a consumação da fraude aconteceu desde o momento em que as declarações controvertidas do Conselho Eleitoral, as urnas encontradas no lixo e as manipulações com os votos em branco – utilizados para aumentar a votação necessária para que o candidato popular, René Préval, fosse proclamado vitorioso no primeiro turno – deixavam evidentes as intenções golpistas.

Foram centenas de milhares que ocuparam o centro da capital, Porto Príncipe, cercaram o Palácio do Governo e o hotel de onde o Conselho Eleitoral dava suas declarações fajutadas.

Os golpistas comandavam não apenas o Conselho como também o governo preposto indicado pela Casa Branca logo após o golpe, com a presença de tropas americanas, que depôs o presidente eleito, Jean Bertrand Aristide, e o seqüestrou obrigando-o a se exilar na África do Sul. Foi com base nestas posições ocupadas, contra a vontade expressa da população, que tentavam manobrar para impedir a vitória de Préval, aliado de Aristide e candidato das camadas populares.

“Ganhamos, tínhamos certeza de que obtivemos mais de 50% dos votos. Tem muito para ser realizado, mas o povo haitiano expressou a sua vontade de superar o atraso e iniciar um novo momento de crescimento com um modelo diferente desse aplicado até hoje”, afirmou Préval, no sábado, dia 18.

A população reunida nas imediações da residência do líder eleito, quando se aproximava de soldados com a bandeira brasileira no uniforme aplaudia e agradecia, em claro reconhecimento do papel da força de paz e da diplomacia brasileira para garantir o pleito, impedir a fraude e reconhecer a vontade popular expressa nas urnas.

O anúncio da vitória do candidato do partido Lespwa no primeiro turno foi realizada depois de um acordo entre o Governo provisório e o Conselho Eleitoral haitiano, a partir do qual se distribuíram os votos em branco (4,7%) proporcionalmente entre todos os candidatos, fato que garantiu ao ex-primeiro ministro do governo de Jean Bertrand Aristide obtivesse 51, 5% da votação.  

BRASIL  

A solução foi proposta pelo governo brasileiro no momento em que a população ocupou as ruas e Préval denunciou as manobras golpistas. O governo norte-americano avalizava as manobras e pressionava para que houvesse um segundo turno.

Marco Aurélio Garcia, assessor para assuntos internacionais da Presidência do Brasil, o ministro do Exterior, Celso Amorim e o embaixador do Brasil no Haiti abriram intensas conversas e articulações que se encaminharam a impedir que dezenas de urnas jogadas no lixo, milhares de votos dados como inválidos, pontos de votação fechados nas regiões onde René tem mais apoio, enterrassem a eleição que teve a presença mais contundente na história do país caribenho. Cerca de 80% do padrão eleitoral, num país em que o voto não é obrigatório, compareceu às urnas.  

ATUAÇÃO EXEMPLAR  

“A proclamação de Préval é um passo fundamental no processo de normalização democrática e de reconstrução do Haiti. As tropas brasileiras permanecerão lá o tempo que o novo governo julgar necessário”, frisou o chanceler Celso Amorim.

O comando das tropas brasileiras também teve atuação exemplar, desde o início ao se recusar ao uso da força contra as manifestações da população no Haiti, e mais ainda quando rejeitou as pressões para reprimir os protestos populares contra a fraude.

A comemoração foi crescendo desde a madrugada, quando os moradores dos bairros marcharam para o centro da cidade com tambores e trompetes ao som de “Préval é nosso presidente”, “Acabou, acabou, a vitória e nossa”.  

ARISTIDE  

A multidão também pedia a volta do ex-presidente exilado na África do Sul, depois do golpe perpetrado pelos Estados Unidos em 2004.

O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, expressando o consenso da comunidade internacional conquistado com a atuação da diplomacia brasileira apontou que “a mudança do método de contagem dos votos brancos foi a via mais que razoável para superar as controvérsias” provocadas pela fraude que poderia derivar em violência e conflitos mais graves.

A Casa Branca durante a quarta-feira, dia 16, recebeu o repudio de vários parlamentares do Partido Democrata na sessão do Congresso, entre os quais se destacou a denúncia de Maxine Walters de que “o governo tentou uma vergonhosa e óbvia tentativa de roubar as eleições do ganhador haitiano”, teve que reconhecer o resultado e enviar uma mensagem aceitando “trabalhar com o novo governo”.

 “Uma vez consolidada esta etapa na vida política do país, a comunidade internacional deverá continuar prestando todo o apoio necessário para a reconstrução das instituições, a recuperação do desenvolvimento e o fortalecimento da democracia”, disse Amorim, revelando que René Préval lhe comunicou a intenção de visitar o país antes da posse, prevista para 29 de março, para agradecer o esforço brasileiro.

SUSANA SANTOS

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