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Perícia da PF desmonta  versão de Azeredo sobre seu tesoureiro de campanha

Documento de Mourão sobre caixa 2 de Azeredo é verdadeiro

“Foram arrecadados mais de R$ 100 milhões no decorrer da gestão final do governo Eduardo Brandão Azeredo... Destes recursos, só as empresas DNA e SMP&B movimentaram R$ 53 milhões”

Olaudo do Instituto Nacional de Criminalística (INC), finalizado na última semana de 2005, concluiu que é verdadeiro o documento escrito por Cláudio Mourão, ex-tesoureiro de campanha do ex-presidente do PSDB, senador Eduardo Azeredo, relatando que a campanha tucana em Minas, no ano de 1998, arrecadou “mais de R$ 100 milhões (valores não atualizados), sendo que destes recursos, R$ 53.879.396,86 foram movimentados via as empresas DNA e SMP&B de Marcos Valério”. A perícia do INC desmonta a versão apresentada por Azeredo de que o documento era uma montagem feita pelo lobista Nilton Monteiro para incriminá-lo e torna mais difícil a sua tentativa de salvar o seu cambaleante mandato. 

DINHEIRO PÚBLICO 

A perícia no documento, numerado em três páginas, rubricadas e assinadas por Cláudio Mourão, foi feita a pedido da Polícia Federal, que recebeu o relatório extra-oficial da campanha tucana em 1998 das mãos do lobista Nilton Monteiro, no dia 24 de novembro. Segundo o INC, a assinatura de Cláudio Mourão é autêntica e não houve nenhuma espécie de montagem. Este documento já havia sido publicado pelo HP no dia 9 de dezembro e faz parte de um conjunto de provas que mostram que o caixa 2 de Azeredo em 1998 foi financiado com dinheiro público, além de ter sido operado pelo ex-publicitário Marcos Valério.

Em seu depoimento à CPMI dos Correios, o tesoureiro de campanha de Azeredo e seu ex-secretário de Administração, Cláudio Mourão, assumiu toda a responsabilidade pela prática de caixa 2, contrariando, inclusive, declaração dada anteriormente à Justiça. Porém, em 7 de julho de 2005, esse mesmo Mourão produziu este relato e registrou em cartório juntamente com uma procuração para Nilton Monteiro lhe representar diante de Azeredo. Mourão anexou ainda a esse resumo uma série de provas, como uma cópia da contabilidade de Marcos Valério, assinado por seu contador, onde está registrada uma receita de R$ 53 milhões que seriam destinados ao caixa 2 da campanha, o processo que Mourão moveu contra Azeredo no STF, afirmando que este desviou dinheiro do Enduro da Independência para a campanha eleitoral, uma série de anotações do caixa 2, recibos bancários com a distribuição de recursos para parlamentares, entre outras tantas.

Com essa munição, Nilton procurou Azeredo. “O Azeredo falou que não devia nada ao Cláudio Mourão. Foi onde eu descobri que tinha uma ação que o Cláudio Mourão entrou cobrando cerca de R$ 1,5 milhão do Azeredo. Aí eles chegaram num acordo e o Azeredo pagou R$ 700 mil para o Mourão com o cheque do Valério. O Azeredo falou: ‘Nilton, ele fez um recibo para mim, que ele não pode me cobrar. Eu não devo mais nada para esse cidadão’”, relatou Nilton ao HP.

Em julho de 2005, o tesoureiro teria recebido mais R$ 300 mil em cheques da SMP&B. Para Nilton, que estava ao lado no dia do pagamento, esse dinheiro era um adiantamento para o ex-tesoureiro se calar e assumir a culpa. O restante teria vindo mais tarde, pouco antes do depoimento na CPMI. 

“AVAL DO GOVERNO” 

Em seu relato, Mourão afirma categoricamente que “parte do recurso [que financiou o caixa 2 de Azeredo] foi de empréstimos com o aval do governo, vindo das privatizações, de empreiteiras, Queiroz Galvão, Erkal, CBN, Engesa, ARG, Tercam, entre outras, de fornecedores do Estado, de prestadores de serviços diversos, construtoras, indústrias, bancos, corretoras de valores, da Cemig, da Prodemg, da Telemig, Secretarias de Governo, inclusive da Fazenda, Banco BDMG, de doleiros e de outros colaboradores individuais, no valor superior a cifra de R$ 80 milhões. Mesmo assim, ficou pendente uma dívida superior a R$ 20 milhões”.

O documento de Mourão cita ainda que, do total arrecadado, foram destinados “recursos ao ex-governador e hoje senador da República, sr. Eduardo Brandão de Azeredo, no valor de R$ 4,5 milhões para pagamentos de despesas diversas. OBS: repassado por mim com autorização das agências SMP&B e DNA Propaganda, conforme recibo anexo”.

Azeredo declarou ao Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE) que sua campanha havia arrecadado R$ 8,5 milhões. Posteriormente, admitiu que o valor seria de R$ 20 milhões, mas negou que tinha conhecimento do fato.

Ao depor na Polícia Federal, Mourão tentou esquivar-se, como de costume, da autoria do relato. Disse que a assinatura era verdadeira, porém o seu conjunto era uma montagem. Diante do laudo oficial da PF, que desmonta mais uma mentira do ex-tesoureiro de Azeredo, ele deve ser convocado nos próximos dias para um novo depoimento.

O relatório de Mourão aponta também que “a SMP&B transferiu como doação do Sr. Clésio Andrade, o valor de R$ 8.250,000,00 para vários políticos, através de doc’s bancários. ‘Relação anexa de alguns doc’s e de todos os beneficiários com os respectivos valores”. Mourão relata que além desses repasses acima, houve mais outros R$ 10,8 milhões, distribuídos a candidatos a deputados de diversos partidos que formavam a coligação de Azeredo.

Esta lista de deputados e partidos que receberam dinheiro do caixa 2 de Azeredo era a mesma apresentada pelo deputado Paulo Pimenta na extinta CPI da Compra de Votos. Por revelar os políticos que se beneficiaram do tucanoduto, o parlamentar petista chegou a ser ameaçado de perder o seu mandato, sob a alegação de que tal listagem era falsa.

Afastado da presidência do PSDB por seus pares tucanos, Azeredo tentou sair de cena. No entanto, a cada dia a sua situação fica cada vez pior. Além de inúmeras provas indicarem que o seu milionário caixa 2 foi financiado com dinheiro público e possuir um relato detalhado de tais transações, Azeredo também carrega a pecha de pai de Marcos Valério, de quem chegou a receber um cheque de R$ 700 mil para quitar uma de suas dívidas com Mourão.

A. RODRIGUES   

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