|
1
2 3
4 5
6 7 8|Índice|
Biblioteca|Assinatura|Expediente|Cartas|Não tropece na Língua |
|
|
|
Valeu, Paulo Hecker Poeta
e crítico conectado ao ritmo da vida e da história
O
poeta e crítico gaúcho faleceu no último dia 12, em Porto Alegre, na sua
casa, aos 79 anos. Atento a tudo que diz respeito ao ser humano e a sua relação
com o mundo, sua obra reflete o amor incondicional à vida e à verdade
SIDNEI
SCHNEIDER O
Paulo Hecker era um cara do bem. Digo isso pensando em todos aqueles que, ao
contrário, se vendem para os outros como pessoas legais, que muitas vezes se
acham pessoas legais, mas estão contra o ritmo do mundo, da vida, do amor, da
história. Era
poeta, contista, dramaturgo, tradutor, novelista e amigo. Começou como crítico
literário, estabelecendo-se como um dos mais destacados pela independência e
seriedade, atuando continuamente em vários jornais, no Rio Grande do Sul e fora
dele, tornando-se referência nacional por sua atuação n’ O Estado de São
Paulo. Nos últimos vinte anos foi se concentrando cada vez mais na poesia, gênero
essencial, do qual historicamente derivaram todos os outros, inclusive o
discurso lógico, escancarado desvio de linguagem do que era o estabelecido. E
Hecker olhava para tudo, propiciando, nos momentos mais felizes, aquela espécie
de “dança do intelecto” de que falava Ezra Pound. Era
um crítico atento, diante de novos e consagrados. Capaz de descobrir, por
exemplo, Fernando Pessoa na década de 40, remando contra a opinião de amigos
como os poetas Mário Quintana e Paulo Corrêa Lopes, que o achavam sem ritmo.
Capaz de ver declínio na obra de José Saramago quando este acabava de ganhar o
Nobel – hoje se aprende isso na universidade, mas naquele momento não era fácil
dizê-lo. Isso para ficar em dois casos. Também era crítico de teatro, cinema,
dança, artes plásticas, televisão, e o que mais pintasse pela frente, fosse
bom ou ruim. O que degustasse não ficava sem algumas linhas. Para
o Fenestra, jornal editado por Jorge Fróes e Cézar Dias, ao qual me integrei,
Hecker deixou um poema que é uma belezura só, hoje presente no livro Nem tudo
é Poesia: OS
FILHOS CRESCEM Os
filhos crescem. Aquela
coisa mais querida do mundo de
repente tem opinião, derrama
por querer a sopa toda, não
para de chorar de pura raiva. Os
filhos crescem. Querem
entrar no grupo que os não quer, pedem
briga, dão gritos pela rua a
clamar eu sou eu por
não saberem quem são. Os
filhos crescem e
ficam diante de si como num ringue. Vão
se bater até beijar a lona? Se
duvidarem, vão. Os
filhos crescem. Desenha-se
a existência em cada um, os
pais ficam olhando, que fazer? E
mesmo quando acertam, que é que muda? Os
filhos crescem e
não adianta se querer dar tudo, nem
a alma. Desejam
outras almas, são
outros. Os
filhos crescem. Sem
ler nossos romances para eles, se
metem em capítulos inéditos. Já
não são nós, se sentem vitoriosos. E
continuamos eles... Paulo
era um ledor – o termo é dele. As dezenas de milhares de livros da sua
biblioteca que o digam: “Permanecem quietos, de pé,/ apesar da umidade,
apesar dos insetos,/ apesar das ausências do leitor/ para ir levando a vida,/
esse hiato ante os quarenta mil/ que conhecem o real e o possível,/ vivem o
tempo até a eternidade./ Quando eu morrer, não morrerão.” Mas era um ledor
no mundo. “Porque nunca botaste a literatura na frente da vida, embora tenhas
passado a vida lendo”, na feliz observação do poeta Celso Gutfreid. Não
era difícil encontrar o Paulo Hecker pela cidade. Sempre gostei de ver poetas e
escritores no mundo: nas ruas, no cinema, na vida. Não faz muito o vi num show
do projeto Unimúsica, no Salão de Atos da UFRGS: ali, aquele cidadão de quase
80 anos, curtindo a boa música instrumental brasileira no meio de uma platéia
bem mais jovem. Dava uma alegria só de percebê-lo, de saber que se podia
envelhecer sem virar careta ou ranzinza, sem perder a conexão com o
circundante. Naquele dia ele me lembrou o Barbosa Lima Sobrinho, intelectual
atuante até os 105 anos, caso comprovado de alguém sem motivo para morrer até
que o inevitável aconteça. Faz pouco, assistimos ao mesmo filme na Casa de
Cultura Mário Quintana. E no mesmo local, há menos tempo ainda, no final da
sessão eu quis ir ao pequeno banheiro da sala Norberto Lubisco mas estava
ocupado, até que dele saiu o Paulo Hecker. Lance de dados gratuito com que a
vida nos oferece a última visão de um poeta. Tive,
pessoalmente, pouco contato com ele, mais por um jeito meu de ser do que dele.
Lembro do dia em que fui lhe entregar minha tradução do José Martí, meu
primeiro livro, quando me falou da sua tradução de A rosa branca (poema sem título
originalmente, 39ª seção de Versos Sencillos do poeta cubano). A partir do
volume que lhe dei, traduziu os versos da música Guantanamera, tradução que,
por falta de espaço, acabou não entrando no meu Versos Singelos, ficando
apenas a letra original no apêndice e uma nota a indicar quais estrofes do
conjunto traduzido a compunham. As poucas linhas com que depois apresentou Martí
e as duas traduções no livro Só Poema Bom revelam sua origem, até no equívoco
de chamar o músico Pete Seeger de Peter. É pouco o contato, modestamente é
meu recuerdo, e é quase o que desejo na relação com escritores muito
conhecidos. Um
outro ponto de encontro é que ambos fizemos nossa tradução de The tyger, do
William Blake. Eu sempre pensava em mostrar para ele, mas nunca o fiz e agora é
tarde. Nesse instante, agora mesmo ao escrever o de cima, lembrei que ele
recebia regularmente o Rascunho, jornal literário do Paraná, e talvez tenha
lido nele, em julho, os poemas do Blake por mim traduzidos, entre eles o rugido
selvagem do meu Tigre. CORAGEM
INTELECTUAL Outra
faceta inseparável do todo em Hecker é sua coragem. Certa vez, para um
jornalista, explicitou de modo muito simples a sua independência e verdade no
exercício da crítica: “Eu acho o que achei”. Defendia o que pensava, via
nisso um grande bem, doesse a quem doesse, fosse amigo, cidadão famoso, dono de
jornal, ou adepto de velha opinião dominante travestida de novidade. Quanto a
isso, o que mais me impressionou nele foi sua opinião sobre José Stálin,
absolutamente contrária à corrente dominante, isso vindo de alguém que não
era nem militante político nem comunista de carteirinha: “A lição de Stálin
já mudou o mundo para melhor”, escreveu num primeiro momento. Inquirido por
Gilberto Wallace, na Folha de Letras de dezembro de 2000, sobre o que teria a
acrescentar a essa confessada admiração, respondeu: “Que é verdade. A mídia
americanizante faz dele um monstro. Esquecem que é um escritor que instruiu
para o bem gerações com seus livros e que não há modo de, escrevendo, alguém
passar pelo que não é, já que escrever revela o autor para si mesmo. Esquecem
que foi quem começou a ganhar a guerra e assim se pode dizer quem a ganhou,
tendo comandado todo o esforço nacional bélico como as operações no front.
Esquecem seu triunfo diplomático no após-guerra, nada menos que sobre
Churchill e Roosevelt. Esquecem que sem ele a Revolução não teria ido adiante
e ainda que fez, em pouco tempo, da pobre Rússia, o segundo país no mundo. Não
há que tirar o chapéu? A quem persista em dúvida, recomendo a biografia de
Isaac Deutscher, também publicada entre nós. O autor, trotskista, parte de um
ajuste de contas com Stálin e, depois de oitocentas páginas de pesquisas em
arquivos, jornais, documentos, vê-se obrigado a reconhecer tratar-se de um
grande homem.” Contestar a isso, usando, para tanto, as referências quase
monocórdicas que recebemos sobre o tema parece fácil e de bom tom. Parece. Aí
é que está a grandiosidade de Hecker. Preguiça intelectual nunca levou ninguém
ao paraíso. Nem perto. FUTEBOL
& POESIA Uma
vez ele enviou um bilhete, agora publicado na imprensa pelo destinatário, Celso
Gutfreind, onde se pode ler muita coisa para além do futebol, verdadeira aula
de filosofia “Tua carona foi razoável em termos de acolhida e velocidade,
especialmente nas curvas. Poderia ser melhor se olhasses menos para o lado
esquerdo e revisses teu conceito sobre o Marinho (zagueiro do Grêmio). Zaga é
conjunto, é grupo, e teu ponto de vista está fora do todo. Assinado PHF.” Estou
viajando demais num bilhete? Então vejamos esse texto, O que é Futebol, também
de Nem tudo é Poesia: O
QUE É FUTEBOL Brincadeira
tem hora, vinte e dois homens correndo atrás de uma bola! – zombam os leigos.
Não vejo graça, só dá homem – dizem as mulheres. Homossexualismo latente,
sentenciam os freudianos a ver sexo em tudo. E até Jorge Luis Borges, que sabia
das coisas, se indignava com a importância dada ao futebol na Argentina, achava
frivolidade demais. Não
acho, não é. Ele empolga o mundo inteiro, deve haver uma razão para isso.
Afinal, o que é o futebol? A
sério, nas competições importantes, são onze homens dando tudo para vencer
outros onze dando tudo para vencer. Nele se trata de fazer o que se pode no
mundo, que principia pelos outros, para se acabar de ser quem é. Uma tentativa
entre outras, e das mais completas, de cumprir a própria humanidade. E não só
a dos que estão em campo, também a das torcidas inumeráveis que com eles se
identificam. Na aparente simplicidade, o futebol atualiza o drama humano de
enfrentar, buscar superar o adverso até a redenção de uma vitória, ainda que
passageira como tudo na terra. NUNCA
ME SENTI O
Hecker também era capaz de escrever umas coisas simples, injustamente
desvalorizadas por alguns, que acabavam soando como uma salutar e instigante
provocação se o ambiente fosse aquele superprovinciano tentando a todo custo
se passar por cosmopolita, embora o intento dele fosse apenas singelo: expressar
um sentimento. Querem ver? SER
BRASIL Jovens,
escurinhos, vitoriosos a
tevê dá cada
jogador do pré-olímpico cantando
o hino nacional. Jovens,
escurinhos, vitoriosos cantando. Nunca
me senti tão do Brasil. Não
sei quanto a vocês, meus amigos, mas de minha parte, quero envelhecer como
Paulo Hecker Filho. |