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Copom reduz juros básicos em apenas 0,75%. Juro real é 12,1%

Meirelles sabota crescimento e mantém juro real nas alturas

Se depender da vontade deles, nunca os juros chegarão onde quer a Nação para que a economia possa crescer

O Copom – ou seja, a diretoria do Banco Central – reduziu os juros básicos nominais em meros, para não dizer, ridículos, 0,75%. Como o mesmo BC mudou a periodicidade das reuniões do Copom (em vez de 30 em 30 dias, agora elas são de 45 em 45 dias), isso é equivalente à redução nominal de 0,5% ao mês, tal como na vez passada. Além disso, o Copom anunciou que a taxa de juros de 17,25% é “sem viés”, o que quer dizer que não poderá haver qualquer modificação nela até março, na próxima reunião.

Essa taxa de juros nominal significa a manutenção dos mais altos juros reais do mundo, tenebrosos 12,1%. Para que o leitor tenha uma idéia, depois do Brasil os juros reais mais altos do mundo são os de Cingapura – 6,4%, quase a metade. Depois, sucessivamente, vêm a Turquia (5,7%), o México (4,8%), a Coréia do Sul (4,2%), a China (4,1%), a Polônia (4%), a Índia (3,4%), a Inglaterra (3,2%) e a África do Sul (3%).

ABERRAÇÃO

Estes, leitor, são os 10 países com juros reais mais altos do mundo. É evidente que, mesmo considerando somente esses países, os juros que o BC mantém no Brasil são uma aberração. Tanto no que se refere aos que têm crescido significativamente nos últimos anos (China e Índia), como até mesmo em relação a países dominados há tempos pela praga neoliberal (Turquia, México e Polônia).

O décimo lugar do mundo em juros reais, a África do Sul, tem uma taxa de 3%. Todo o resto do mundo, todos os demais países, têm taxas reais menores do que isso. Por que só o Brasil tem sobre si uma maldição que coloca os nossos juros reais básicos em números de dois dígitos, sem que haja qualquer outro exemplo na face da Terra?

O Brasil não vai crescer de acordo com suas potencialidades e necessidades, se os juros não caírem. No entanto, o BC projeta que até o final de dezembro de 2006 eles estarão em 15%, o que significa, na melhor das hipóteses, juros reais básicos de 11%. Antes que o notório Meirelles apareça para dizer que isso não é verdade, citamos a fonte: “Relatório de Mercado”, Banco Central do Brasil, 13 de janeiro de 2006. É o último de uma série de relatórios, quase idênticos, em que o crescimento não passa de 3,5% e os juros caem, quando muito, para 15% nominais (11% reais) até o final do ano. Naturalmente, essas “expectativas” são sempre atribuídas a um suposto “mercado”.

É evidente que os monopólios financeiros, os especuladores, querem sempre ganhar mais. Porém, por que sua “expectativa”, por exemplo, em Cingapura, uma ilha onde a especulação é franca e risonha, não está em 15%? Porque lá as autoridades financeiras, apesar de estarem longe de possuírem algum caráter popular, achariam que é um absurdo uma “expectativa” dessas. Assim, os especuladores não têm essa “expectativa”.

Mas, no Brasil, têm. E têm porque o Banco Central se dedica a satisfazer qualquer expectativa deles, aliás, se dedica a cevar as expectativas mais absurdas deles. Para Meirelles & cia., o papel do BC é cevar os especuladores, ao invés de limitá-los e subordiná-los aos propósitos do governo, em especial, ao crescimento da economia - coisa que até os seus correspondentes de Cingapura conseguem, em alguma medida, fazer, para não falar daqueles da Turquia ou daqueles do sofrido e mal governado México.

Vejamos o problema crucial, isto é, o crescimento: o presidente Lula falou recentemente em um crescimento de 5% em 2006. Vários economistas apontaram que o BC considera que o crescimento “potencial” do Brasil é de, no máximo, 3,5%. Numa de suas entrevistas, que abordamos em matéria recente (HP, 11/01), Meirelles disse que isso não era verdade, e que, para 2006, o BC “previa” 4%.

Trata-se de uma mentira absolutamente descarada: está no mesmo “Relatório de Mercado” do BC, citado acima, a “expectativa” de 3,5%.

Meirelles, aliás, não parece ter o menor escrúpulo em mentir, enganar, cometer falsidades, em suma, parece ser um consumado escroque. Ele sabe perfeitamente que se o ritmo de queda dos juros for o atual, ou seja, se os juros descerem, no máximo, a 15% (11% reais) até o final do ano, o crescimento de 5% de que falou o presidente Lula será impossível. Não é à toa que o relatório do BC fala de apenas 3,5%. No entanto, Meirelles aparece para mentir, como se dizia antigamente, sem qualquer pejo - ou seja, sem qualquer vergonha.

O deputado Delfim Netto calculou que, para se chegar aos 5% de crescimento em 2006, os juros reais teriam que descer a 7%. Ainda é uma taxa muito alta – tanto assim que nem o segundo maior juro real do mundo, os da citada Cingapura, chegam a isso. Mas o cálculo do deputado, que entende um pouco dessas coisas, demonstra o quanto o Brasil pode crescer se os juros forem racionais. Por exemplo, se fossem iguais aos da China (4,1%), que acabou de anunciar um crescimento de 9,8% durante o ano passado. Não obstante, os juros na China não são, atualmente, baixos – estão em sexto lugar entre os mais altos. Somente, não são desvairados.

O que Meirelles está fazendo é manter os juros reais, até o final do ano, no caso mais otimista, em 11%. Com isso, não existe perspectiva de 5% de crescimento.

No momento atual não há nenhuma pressão nem mesmo dos especuladores para manter juros tão elevados. Mais parece haver uma pressão do BC para que os especuladores aceitem receber juros tão pantagruélicos... Alguns deles – aliás, não poucos - fizeram previsões de queda maior dos juros do que àquela que o BC efetivamente realizou.

MANIPULAÇÃO

Não há, também, nenhuma ameaça inflacionária, que geralmente é o pretexto para manter os juros nos píncaros. O BC sabe que, em relação a isso, o que existe é mera manipulação, geralmente sempre nos dias que antecedem a reunião do Copom. Tanto o BC sabe disso que não aumentou os juros, apesar de, como de costume, os índices de inflação divulgados na segunda-feira, exatamente a véspera do início da reunião do Copom, terem sido acometidos por uma súbita vontade de voar... Porém, algum juízo a diretoria do BC tem. Afinal, a tolerância do país não é infinita. Por isso preferiram uma queda ridícula, em vez de aumentar os juros, apesar dos índices de inflação da segunda-feira. É assim que são tomadas as decisões “técnicas” desse pessoal.

Evidentemente, não seria de esperar que eles fossem facilitar a vida do presidente Lula. Principalmente num ano de eleições presidenciais. Por que eles colaborariam para que o país chegasse a 5% de crescimento em 2006? Todos eles acham que o país estaria melhor nas mãos do PSDB, ou seja, nas garras dos americanos. Meirelles, além de presidente do BankBoston, do qual recebe até hoje um estipêndio de mais de meio bilhão de dólares, era um deputado tucano antes de ser nomeado para o Banco Central. Então, é óbvio que, pela vontade deles, não vão baixar os juros, nem permitir crescimento algum que esteja perto do que Lula mencionou, e vão fazer o que puderem para impedir que Lula ganhe as eleições.

Certamente, a vontade deles não é a única coisa que conta. Aliás, bem identificado o problema, e tomada a decisão de resolvê-lo, o que eles podem fazer é o que menos conta. Afinal, não é difícil livrar-se de uma quinta-coluna composta por meia-dúzia de escroques.

CARLOS LOPES

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