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Delfim: “juro real hoje é maior do que o de agosto de 2004” Antes da escalada de juros, promovida pelo BC a partir de 2004, o juro real era de 9,2%; agora, quando, devido ao anseio da sociedade e do presidente Lula pelo crescimento, eles começam a cair, ainda estão em 10,3%, demonstra o deputado, em artigo no jornal “Valor Econômico”, que, pela sua importância e lucidez, apresentamos aos nossos leitores ANTONIO DELFIM NETTO O problema da taxa de juros é enjooso para todos os brasileiros. Eles são permanentemente “bombardeados” por trabalhos de analistas cuidadosos e por manipulações mediáticas das autoridades monetárias. Todos esforçam-se para tentar “explicar” o que é inexplicável! Na última semana o Comitê de Política Monetária do Banco Central determinou mais uma redução da taxa básica Selic de 0,5%, fixando-a para as próximas seis semanas em 14,75%. Deu prosseguimento ao que chama de “processo de flexibilização monetária” iniciado em dezembro de 2005. Está se desfazendo o ciclo de alta iniciado em agosto de 2004, quando a economia brasileira estava crescendo à taxa de 5% ao ano, para controlar a “demanda global excessiva”, uma vez que os modelos psicografados nas “sessões espíritas” realizadas à margem do lago Paranoá sob o luar brasiliense, garantiam que o produto “potencial” brasileiro era de apenas 3% ao ano. A teimosia da economia em crescer 5% poderia acelerar a taxa de inflação, o que os números aparentemente antecipavam. Tudo isso é muito nebuloso. A taxa de inflação é numa larga medida um processo aleatório e saber quando sua média está crescendo e não flutuando em torno dela não é uma questão trivial. Esse é um dos motivos pelos quais existe a “margem de tolerância” no sistema de metas inflacionárias. Em agosto de 2004, a taxa Selic era de 16% (constante desde abril). E a expectativa de inflação para os próximos 12 meses era da ordem de 6,3%. A taxa de juro real “ex-ante” era, portanto, da ordem de 9,2% (1,16/1,063=1,092). A inflação efetivamente registrada nos 12 meses à frente, foi de 6,02%, o que significa que a taxa de juro real “ex-post” (aquela que o tomador do recurso efetivamente pagaria se tivesse tomado à taxa Selic) foi da ordem de 9,4%. O ciclo anterior de “flexibilização” da política monetária, iniciado em maio de 2003, terminou em agosto de 2004. Em setembro, com a primeira alta, iniciou-se a “desflexibilização”. Durou doze longos meses, elevando a taxa Selic de 16,00% para 19,75%. Os resultados foram “brilhantes”: 1) reduziu o crescimento “impossível” de 4,9% em 2004 para 2,3% em 2005; 2) reduziu a taxa de inflação acumulada de 12 meses em 7,6% em dezembro de 2004 para 5,7% em dezembro de 2005, com o uso oportunístico da volorização cambial; 3) transformou o real na “commodity” mais valiosa de quantas estão disponíveis no mercado internacional, o que gerou uma supervalorização da taxa de câmbio. O real deveria mesmo valorizar-se como aconteceu com praticamente todas as outras moedas, mas teve uma “super” valorização causada pela possibilidade de arbitragem entre a taxa de juros interna e externa, e 4) essa “supervalorização” (o real foi a moeda que mais se valorizou no mundo!), produziu um estrago no agronegócio brasileiro do qual nós (e o governo) vamos nos arrepender amargamente num futuro não muito distante. Com a redução da taxa Selic na semana passada, o trabalho mediático foi infernal! Manchetes garrafais deram a boa nova ao Brasil: “O juro voltou ao menor patamar desde 1986 quando foi criada a taxa Selic!” Mas onde estamos na verdade? A taxa Selic é de 14,75% ao ano e a “expectativa” de inflação para os próximos meses é da ordem de 4%. Logo a taxa de juro real “ex-ante” é de 10,3% (1,1475/1,04=1,103). O resultado é perturbador, como se vê na tabela abaixo. Em matéria de juro real, quanto mais muda, mais fica a mesma coisa... (V. tabela 1) O pior é que quanto mais mu-da, mais fica na mesma coisa, como comprovam as taxas de juros dos tomadores de empréstimos. O gráfico abaixo mostra uma estimativa da taxa de juro real (sujeita a pequenas chuvas e leves trovoadas) nos últimos 120 meses. (V. tabela 2) Vê-se claramente que desde a flutuação cambial o nível médio de juro real (em torno de 20%) e a sua volatilidade diminuíram. A partir de 2000 ela manteve, praticamente, o mesmo nível (em torno de 10%) e tem sido relativamente bem comportada. É isso que explica parte da surpreendente conclusão “científica” que a taxa de juro real “natural” do Brasil é da ordem de 10%! O que esquecemos, com alguma freqüência, é que mesmo o modelo mais sofisticado só pode “pôr fora o que o pesquisador já pôs lá dentro”... O que nenhum modelo “explica” é porque o Brasil é hoje no mundo o campeão olímpico em juro real e o “lanterninha” em crescimento do PIB...
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