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Sadam convoca o povo a ‘dar caça ao invasor’ “Eu rejeito estar perante esta corte; que ela decida o que quiser. Nós não reconhecemos um governo apontado pela ocupação, nem sua corte”, afirmou o presidente iraquiano ao voltar à corte-farsa após 20 dias de greve de fome por proteção aos advogados Enquanto se podia ouvir dentro do tribunal-farsa de Bush o som dos tiros da Resistência no lombo dos invasores e seus lacaios ecoando em Bagdá, conforme registrou a mídia imperial, o presidente Sadam Hussein afirmou ao “juiz”-chefe, “se você fosse iraquiano de verdade, saberia que nós não apenas resistimos à ocupação. Nós também sabemos todas as decisões que esta tomou, inclusive nomear o assim chamado “governo” e a corte que você representa”. Antes, ele havia entoado versos do Alcorão, o livro santo muçulmano. “Eu rejeito estar perante esta corte; que ela decida o que quiser. Nós não reconhecemos um governo apontado pela ocupação, nem esta corte”, afirmou Sadam. Ele acrescentou que “convocava o povo a dar caça aos invasores”, aconselhando, ainda, “entendimento e tolerância entre os iraquianos”. A presença de Sadam, após três semanas de greve de fome, causou forte impressão aos jornais e agências de notícias dos EUA: “não menos combativo”, “impertinente”, “desafiador”, apesar de um tanto “mais magro”. A equipe de defesa de Sadam, conforme acertado com o presidente em reunião na semana passada, manteve o boicote, para exigir a segurança para os advogados, respeito mínimo às normas internacionais de julgamento, direito de defesa sem coerção ou interrupção, e tempo devido para preparação da argumentação final de defesa. JUIZ-LACAIO A Abdel Rahman, o lacaio escolhido pela CIA para substituir outro “juiz”-chefe demolido anteriormente por Sadam, o presidente disse: “metade dos meus advogados está morta. Era demais para você protegê-los?”. Desde outubro, três advogados de defesa foram assassinados, e apenas o advogado-chefe, Khalil Al Dulaimi, sofreu mais de dez tentativas de assassinato. Quando Rahman tentou jogar sobre as Resistências os civis mortos pelos ianques e seus esquadrões da morte, Sadam não se impressionou. “Mil pessoas como você não assustam nem o meu dedo mindinho”. Nas vésperas do seqüestro e assassinato do advogado Khamis Al Ubaidi, a pouco mais de um mês, o comando dos EUA anunciou que não iria mais garantir a segurança da defesa. Na corte de Bush, as testemunhas de defesa são presas e torturadas, há juizes encapuzados como os de Fujimori e a defesa não tem acesso às supostas evidências – nem mesmo às atas do processo da corte revolucionária de 1982 condenando os 148 membros da quinta-coluna que tentaram assassinar a tiros Sadam. Naturalmente, um tribunal montado pelo invasor, contrário às Convenções de Genebra, em que sistematicamente os advogados de defesa são assassinados, é repugnante sob qualquer sistema jurídico minimamente digno desse nome. Em que o “Juiz”-chefe é trocado, no meio do processo, por outro, porque não deu conta do recado. Tão imparcial que o novo “juiz”-chefe foi condenado duas vezes a prisão perpétua por traição na década de 70, e o “promotor”-chefe, além de ser do partido que cometeu o atentado em 1982, o Dawa, foi filmado em 2004 em Dujail comemorando o atentado. Onde os “depoimentos” ficam secretos e até defunto depõe. E onde, todos sabem, a sentença já vem pronta de Washington. Para tentar manter a farsa e diante do boicote dos advogados ameaçados de morte, o “juiz”-chefe, ou melhor, o norte-americano, Willliam Wiley, da CIA; nomeou dois “advogados” para a “argumentação final” de Sadam. Na segunda-feira, essa mesma fraude já havia sido cometida contra seu irmão, Barzan Al Tikrit. Quando o impostor apareceu, Sadam fulminou-o: “você é meu inimigo. Por que você impôs a você mesmo ser inimigo do povo iraquiano?” Quanto ao outro, o presidente simplesmente mandou-o “se danar”. Quando o farsante se preparava para ler sua “argumentação”, Sadam o interrompeu. “Você nem mesmo escreveu isso”, acrescentando que tinha sido “escrita por um agente americano, um espião”. O pateta continuou lendo, de uma peroração fornecida pelos próprios invasores, de 75 páginas, com a voz alterada eletronicamente e escondido. “Eu não quero que minha história seja apresentada desta forma”, interrompeu Sadam. “Você não escreve a história”, assanhou-se Rahman, “o povo a escreve”. “Sim”, disse Sadam, “o povo e os heróis do povo”. ENERGIA O presidente também denunciou que foi levado contra a vontade, da prisão para um hospital ianque, para ser alimentado a contragosto, “através de um tubo que ia do meu nariz ao meu estômago” e por via intravenosa. Sadam ironizou os que acharam que a greve de fome de ia derrubá-lo. “Mesmo se ficar sem comer por dez meses, ainda terei toda minha energia e saúde”, garantiu. “Você pensou que Sadam Hussein não seria capaz de falar após 20 dias?”. Ele também protestou que havia sido arrastado até a corte. “Eu escrevi uma petição esclarecendo que eu não queria vir. Eu tenho estado em greve de fome desde o dia 8”. Em outro momento, quando Sadam convocou a Resistência a avançar, Rahman quis mostrar serviço aos amos, atribuindo ao presidente a vontade que “carros-bomba explodissem”, matando civis. “Só estou preocupado em livrar o Iraque dos invasores agressivos”, retrucou o presidente. “Eu convoco os iraquianos a se levantarem juntos e a se perdoarem mutuamente, mas quanto ao inimigo, eu os chamo a lutar, a matar americanos”. Ele também levantou sua mão direita e dirigiu-se ao juiz: “eu não estou defendendo a mim mesmo, eu estou defendendo o Iraque, eu estou protegendo o povo iraquiano”. VIOLAÇÃO DE DIREITOS Na segunda-feira, o comitê de Defesa de Sadam e seus companheiros havia emitido uma declaração em Amã, denunciado que a corte “havia ido longe demais na violação dos direitos básicos de defesa”, e que era imprescindível manter o boicote iniciado após o assassinato de Khamis Al Ubaidi. Primeiro, ao forçar Barzan, que estava em greve de fome, a comparecer. Depois, impondo um “advogado”, em substituição ao mártir Khamis, nomeado pelo norte-americano William Wiley, que leu uma “argumentação” previamente preparada por este para prejudicar Barzan, e que foi traduzido do inglês para o árabe. A corte decidiu, ainda, processar Barzan, por este ter convocado a resistir ao invasor ianque. A corte, acrescentou o comitê, “expressou uma clara posição contra o presidente Sadam Hussein e seus camaradas, atacou-os, deu crédito à derrubada do seu regime e mesmo insultou-os. Esses atos privam a corte da imparcialidade que é um requerimento essencial para a continuação dos procedimentos do caso Dujail”. Além de Sadam e Barzan, também participaram da greve de fome o vice Taha Ramadan e o presidente da corte revolucionária do Iraque, Awad Al Bandar. ANTONIO PIMENTA |