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Guantánamo: antro de tortura e escola de torturadores ianques

A ex-comandante de Abu Graib, Janis Karpinski, revelou que, junto com a relação de “novas técnicas” de interrogatório levadas de Guantánamo pelo general Geoffrey Miller, havia anotação na margem, do próprio punho de Rumsfeld: “garantir que sejam aplicadas!!”

Oprofessor Alfred McCoy, da Universidade de Wiscosin, afirmou que o general Geoffrey Miller, sob ordens de W. Bush e do secretário do Pentágono Donald Rumsfeld, transformou Guantánamo – até então uma base ianque ilegalmente encra-vada em território cubano – “de fato em uma espécie de laboratório experimental da tortura”. Autor do livro “Tortura: interrogatórios da CIA da Guerra Fria à Guerra Contra o Terror”, ele acrescentou que a CIA “aperfeiçoou ali seu paradigma de tortura” – extensa e criminosamente desenvolvido nos manuais de 1963 e de 1983 -, que depois foi levado para Abu Graib (Iraque), Bagram (Afeganistão) e as dezenas de prisões secretas no mundo todo. “Eles acrescentaram duas ‘técnicas’ chaves – o ataque à sensibilidade cultural, particularmente a sensibilidade masculina árabe às questões de gênero e identidade sexual”, registrou.

McCoy – que já havia escrito no tempo da Guerra do Vietnã um livro sobre o tráfico de heroína cometido pela CIA na época – afirmou, ainda, que “sob o general Miller, foram criadas essas coisas chamadas “equipes Biscuits”, equipes de consultores científicos behavioristas, e eles realmente treinaram psicólogos militares para participarem nos interrogatórios em curso, de modo que esses ‘psicólogos’ pudessem identificar fobias individuais, e por volta de 2003, sob o general Miller, Guantánamo tinha aperfeiçoado o paradigma da CIA, para cometer um assalto total à psique humana: receptores sensoriais, dor auto-infligida, sensibilidade cultural, e medos individuais e fobias”. Em suma, aquelas depravações vistas abundantemente em Abu Graib, depois de devidamente, como disse o general Miller, “gitmo-izada” (da sigla da prisão Gitmo), não eram o fruto de alguns maus soldados e de uma comandante inepta, mas a aplicação sistemática de uma política de tortura pesquisada e planejada, visando ser uma ferramenta essencial do assalto ao petróleo do Oriente Médio e Ásia Central, tendo como alvo os muçulmanos em cujo solo o óleo jorra. Aliás, diante da tristemente famosa foto do preso iraquiano encapuzado, forçado em posição dolorosa sobre um caixote e com fios elétricos presos ao corpo, McCoy disse que “praticamente pode se ver ali a história inteira de 50 anos de tortura da CIA”. Além dos “psicólogos consultores”, transcrições da tortura que um juiz dos EUA forçou o Pentágono a liberar revelam a presença de médicos torturadores também, como no caso do preso Mohamad Al Qatani, em que um médico seguidamente verifica seus “sinais vitais” e dá luz verde para a continuação das atrocidades. 

PESQUISAS: HARVARD E YALE  

McCoy afirmou que “a CIA realizou, de 1950 a 1962, um projeto de pesquisa gigantesco, um verdadeiro Projeto Manha-ttan da mente, gastando mais de US$ 1 bilhão de dólares por ano para quebrar o código da consciência humana, tanto da persuasão de massa ao uso da coerção no interrogatório individual”. Testou todo tipo de droga, inclusive o LSD, soro da verdade, mas o que funcionou foram as “descobertas compor-tamentais”. No projeto, tomaram parte “nossas universidades líderes, como Harvard, Princeton, Yale e McGill”. O psicólogo Donald Hebb, da Universidade McGill, descobriu que podia “induzir um estado de psicose em um indivíduo dentro de 48 horas”. Estudantes voluntários foram colocados em cubículos com óculos vedados, luvas, tampões de orelha, de forma a ter todos os seus sentidos cortados, e dentro de 48 horas negada a estimulação sensorial, eles sofriam, primeiro alucinações e, depois o colapso. Mais tarde, “dois eminentes neurologistas” da Universidade Cornell descobriram a ‘técnica da dor auto-infligida’ – obrigar alguém a ficar horas a fio em uma posição que causa dor. E em 1963, a CIA codificou todos esses resultados no assim chamado Manual de Inteligência Kubark. O que, para McCoy, “produziu uma forma de tortura distintivamente americana, a primeira ‘revolução’ de verdade na ciência cruel da dor em séculos”. A bem da verdade, antes dessa ‘pesquisa’ – embora McCoy não registre – a CIA já havia dado, logo após o final da II Guerra, um aporte decisivo para criar seu “paradigma”, agregando a ‘técnica’ da Gestapo (que já havia incorporado a larga experiência da Okrana czarista) e a dos fascistas japoneses.

Naturalmente, tanto a privação (ou assalto) sensorial quanto a dor auto-infligida visam, antes de tudo, minar a resistência do prisioneiro, desorienta-lo, faze-lo perder a identidade e auto-estima, ou, como diziam os guardas flagrados em Abu Graib, “amacia-lo”. Os estripadores da CIA nunca abriram mão do choque elétrico, de esfolar, queimar, estrangular, afogar, espancar, arrancar unha, quebrar braços e pernas, empalar, ou, como diz o famoso memorando da tortura do agora procurador-geral de Bush, Alberto Gonzales, gerar uma dor que equivale a “falência de um órgão, à morte”. O manual de 1983 serviu para torturar a rodo na América Central e em outras áreas do mundo, mas já estava tudo, no essencial, no de 1963, que a CIA usou para treinar os esbirros de Pinochet e outras ditaduras. A urgência no assalto ao petróleo levou-os a acelerar essas deformações, como pode ser apreendido nos relatos advindos de Guantánamo, Abu Graib e Bagram. As cenas dantescas – como descreveu McCoy – dos presos de Abu Graib sofrendo abusos sexuais, da premeditada violação da identidade sexual dos presos em uma escala massiva, jamais vista, nem mesmo sob os nazistas, são, provavelmente, a marca registrada do novo precipício a que desceram os torturadores ianques e seus mandantes.  

AFEGANISTÃO E IRAQUE

A partir do memorando da tortura, em meses os invasores ianques estavam torturando “centenas no Afeganistão” e logo depois “milhares no Iraque”, apontou McCoy. Ele assinalou a participação pessoal de Rumsfeld na implementação da tortura, como no caso das “posições dolorosas”. “Eu fico na minha escrivaninha oito horas por dia. Porque estamos limitando a quatro horas?”, anotou o criminoso. Também a ex-comandante de Abu Graib, Janis Karpinski, em depoimento ao Tribunal sobre Crimes de Guerra de Bush em Nova York, revelou que, junto com a relação de “novas técnicas” de interrogatório levadas por Miller para o Iraque, havia a anotação na margem, do próprio punho de Rumsfeld: “garantir que sejam aplicadas”. “Com dois pontos de exclamação”, notou. McCoy, por sua vez, lembrou que Bush, após tentar arrancar do senador John McCain uma isenção para a CIA quanto à proibição de tortura, afirmou que não está obrigado a respeita-la: “eu me reservo o direito, como comandante-em-chefe e como chefe do Executivo, de fazer o que eu precisar para defender a América”. Ou seja, identificou-se como o chefe da tortura, e disposto a continuar torturando.

Mas a apologia da tortura, feita por Bush e demais ladrões de petróleo, só tem feito isolar seu governo perante o mundo inteiro e, quanto ao pretendido efeito nas invasões do Iraque e do Afeganistão, tem sido um enorme fracasso. A tortura e os esquadrões da morte de Bush não conseguiram impedir a Resistência iraquiana de seguir avançando e encurralando os invasores. E o assalto ao petróleo não está conseguindo bancar as despesas da invasão, enquanto os ianques continuam queimando dentro dos seus tanques e os “governantes colaboracionistas” não podem arriscar por o pé fora da Zona Verde. O último que se arriscou, o general comandante da tropa fantoche em Bagdá, foi emboscado e morto na segunda-feira. No Afeganistão, a guerrilha não cessa de ampliar seu espaço e seus golpes nos ianques e demais mercenários. Como expressou o relatório dos inspetores de Direitos Humanos da ONU – e que recebeu apoio no mundo inteiro -, o campo de tortura de Guantánamo tem de ser fechado. E vai ser. 

ANTONIO PIMENTA 

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