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Uma palavrinha sobre Getúlio e Graciliano

A partir de dados do livro “Os Saltimbancos de Porciúncula”, de Antonio Carlos Villaça, sobre a prisão do escritor Graciliano Ramos e a intervenção de Getúlio Vargas para a sua soltura, Sidnei Schneider lança luz sobre o relacionamento entre o governo e os mais importantes intelectuais da época  

No livro Os Saltimbancos da Porciúncula, anotações do jornalista e escritor Antonio Carlos Villaça (1928-2005) sobre personalidades do mundo literário, surge alguma luz sobre fatos que envolvem o escritor Graciliano Ramos e o presidente Getúlio Vargas. Inicialmente, examinemos o texto:

“Graciliano estava preso, sem processo. Aquilo era um absurdo. Pois, certa manhã, José Lins do Rego, seu grande amigo, foi ao Palácio da Guanabara para conversar com Herman Lima, oficial-de-gabinete de Getúlio, que só lhe chamava Tigipió, por causa do seu livro de contos. Getúlio adorava dar apelidos.

“José Lins ia pedir a Herman Lima que pedisse a Getúlio a libertação de Graciliano. O cearense prometeu que sim, que ia pedir a Getúlio. Assim fez. Quando sentiu que o presidente estava de bom humor, fez o pedido.

“Getúlio respondeu (e Herman Lima contou-me a cena) – não mandei prender Graciliano, não mando soltar Graciliano. Mas telefone em seu nome ao general Pinto (Francisco José Pinto, chefe da Casa Militar, ele usava pincenê) e lhe peça para telefonar ao Filinto, perguntando por que o Graciliano está preso. Veja-se a psicologia getuliana, em todo o seu esplendor.

“Assim fez Herman Lima, com solicitude. Foi tiro e queda. Filinto mandou soltar Graciliano. Este saiu da cadeia e foi hospedar-se em casa do seu amigo Lins do Rego, na rua Alfredo Chaves, em Botafogo. José Lins estava feliz”.

Diga-se que Villaça não é exatamente alguém disposto a defender posição em relação a Vargas, está mais interessado no pitoresco e na anedota que reconta literariamente, como se pode ver em outro trecho do livro, no qual fala de dois acidentes automobilísticos envolvendo o automóvel oficial da presidência. Todavia acrescenta dados, cita a fonte e ficamos sabendo como Graciliano foi posto em liberdade pela intervenção do Presidente. No final do relato, porém, sem citar fonte alguma, Villaça narra que logo após, em encontro casual numa rua perto do Catete, o escritor teria se recusado a responder o cumprimento de Getúlio. Ainda que aparentemente factível, é preciso por em dúvida o relato: primeiro, porque anedotas do tipo são comuns no meio literário e nem todas são verídicas; segundo, e de acordo com Villaça, porque andariam sós os dois, sem testemunhas; terceiro, porque Getúlio Vargas, o Presidente da República, estaria dando a sua volta no quarteirão após o jantar, às dez da noite e sozinho, o que é pouco crível.

Graciliano Ramos, diretor de Instrução Pública de Alagoas, tendo já publicado Caetés (1933) e São Bernardo (1934), de fato é preso como subversivo, sem provas de acusação, na cidade de Maceió em março de 1936, num clima pós-levante da Aliança Nacional Libertadora de novembro de 1935. Demitido do cargo, é enviado para o Recife e de navio para o Rio de Janeiro, onde permanece detido até janeiro de 1937.  Na prisão, escreve o romance Angústia, publicado ainda em 1936; as famosas Memórias do Cárcere, ele começaria a redigir dez anos depois, sendo editadas apenas em 1954, um ano após sua morte. Nelas, chama a atenção que comunistas e fascistas estejam juntos na prisão, sugerindo que algo devia estar errado na política de oposição do incipiente PCB ao governo Vargas. Isso num momento em que a política independente e desenvolvimentista do governo manda às favas as pressões do imperialismo inglês e os seus barões do café, fortalece a indústria nacional proibindo a importação de artigos de luxo e de produtos já fabricados aqui, taxa em 8% as remessas de lucro das empresas estrangeiras, nacionaliza as minas, inventa a legislação trabalhista e atende reivindicações dos trabalhadores consideradas até então mero “caso de polícia”. 

JORGE AMADO 

Jorge Amado, num livro de entrevistas a sua tradutora francesa Alice Raillard, conselheira da editora Gallimard, dá mais informações: “Getúlio tinha boas relações com os escritores, ele lia muito. (...) Com alguns, José Lins do Rego, por exemplo, Getúlio até mantinha um relacionamento bastante freqüente. E quando Graciliano Ramos saiu da prisão, obteve um emprego no Ministério da Educação. Ele e muitos outros, não é?”. Mário de Andrade, diz a entrevistadora. “Mário também, mas Mário nunca esteve preso. Era o ministério do Capanema (...) cujo chefe de gabinete foi Carlos Drummond de Andrade”. Sobre o ministro, ele acrescenta que “Capanema teve um papel importante na modernização da cultura brasileira – também na área da arquitetura, a primeira realização de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, em colaboração com Le Corbusier: o Ministério da Educação e Cultura no Rio” (Conversando com Jorge Amado). O historiador Nelson Werneck Sodré informa que o trabalho foi articulado por amigos e, embora modesto, permitia-lhe sobreviver.

Em 1937, o ano mesmo da sua libertação, Graciliano Ramos recebe do governo o Prêmio do Ministério da Educação pelo livro infanto-juvenil, ainda hoje de todo recomendável, A Terra dos Meninos Pelados. O fundamental Vidas Secas, um dos livros mais bonitos da nossa literatura, é publicado em 1938. No mesmo ano, ao cair da noite de 10 de maio, hordas integralistas assaltam o Palácio Guanabara na tentativa de eliminar Getúlio, mas são surpreendidas pela resistência da família Vargas de armas na mão, até às cinco horas da manhã, quando o levante fascista é enfim sufocado.  Em 1939 ocorre a aludida nomeação de Graciliano para Inspetor Federal no Ensino Secundário. Em 1941 o governo cria a Companhia Siderúrgica Nacional e dois anos depois a Vale do Rio Doce, empresas essenciais para alavancar o desenvolvimento do país. No ano de 1945 (1946 diz Werneck Sodré), Graciliano filia-se ao PCB. Como se sabe, é um momento em que o partido já mudou a sua política. Após dar apoio a Vargas contra o nazi-fascismo durante a Segunda Guerra, avança e passa a compreender melhor o que está em causa no Brasil, equacionando na prática a sua estratégia: as forças nacionais, democráticas e populares de um lado e o imperialismo com seus lacaios de outro. O PCB participa então da campanha “Constituinte com Getúlio” em 1945, com Prestes e Vargas no mesmo palanque – a foto é famosa – e apóia o Presidente contra os golpistas e pseudoliberais até o fim do seu governo, em outubro do mesmo ano. Aliás, essa política e estratégia recebem grande apoio popular, como mostram a Constituinte de 1946 - Prestes eleito senador com número recorde de votos e uma boa bancada na Câmara dos Deputados - e o extraordinário crescimento do número de militantes, que atinge cem mil.

Temos, então, Graciliano e Getúlio lado a lado. Depois disso, vem a eleição de Getúlio à Presidência (1950), criação da Petrobrás (1951-53), nacionalização das reservas minerais e energéticas (1953), nova lei da remessa de lucros, os alicerces da Eletrobrás, o aumento de 100% no salário mínimo (1954) e o que mais se sabe.

Quem ainda hoje pretende cobrar coerência de Graciliano por essa trajetória, ou anda muito desavisado quanto à história do país, sendo esta a melhor das hipóteses, ou bandeou-se com suas idéias, inconsciente disso ou não, para o lacerdismo-entreguista que naufragou com FHC e teima em boiar por aí nauseando o ar. 

CONTRADIÇÕES DO PCB 

Mas, falando de escritores, talvez seja importante dar a palavra a Jorge Amado, que viveu na pele todas as contradições da política do PCB diante de Getúlio, ainda visíveis no aludido livro de entrevistas, mas também seu melhor momento, como deputado constituinte em 1946:

“(Getúlio) deixou um saldo positivo em seu governo. Em primeiro lugar a legislação do trabalho, que em seu tempo foi uma das mais adiantadas do mundo. Não havia nada no Brasil, os trabalhadores não tinham direito algum, e alguma coisa eles conseguiram com Getúlio. O Ministério do Trabalho foi criado em seu governo; a legislação trabalhista, as pensões, a aposentadoria, os direitos trabalhistas... Em segundo lugar, o problema da indústria pesada: Volta Redonda é uma vitória que ele conseguiu de Roosevelt graças à guerra: a construção da primeira indústria siderúrgica nacional do Brasil. Depois o petróleo (...) foi o homem que mais tarde criou a Petrobrás, o homem do “o petróleo é nosso”. E, quando morreu, Getúlio tinha uma posição nacionalista, lutava contra as forças reacionárias. Esta é que é a verdade”. 

RACHEL DE QUEIROZ 

Quanto à literatura do período, o escritor baiano cita um depoimento de Rachel de Queiroz: “Ela dizia que o que foi decisivo para nós (os escritores) foi a Revolução de 30, que representava um interesse pela realidade brasileira que o modernismo não tinha, e um conhecimento do povo que nós tínhamos, e que os escritores do modernismo absolutamente não tinham”.

Graciliano Ramos, um dos escritores que mais se identificou com o povo brasileiro, soube criar uma arte compatível com essa identificação – enxuta, precisa, rigorosa – o que não se alcança apenas com boa intenção, mas muito trabalho e perseverança. Quando terminou uma das versões de Vidas Secas, por exemplo, escreveu numa carta, “agora falta traduzir para o brasileiro”, ou seja, trabalhar tudo novamente na língua cotidiana usada no Brasil, transpor do português castiço para o português-brasileiro. Editado em muitos países – Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Romênia, Bulgária, Hungria, República Tcheca, países da antiga URSS, Polônia, Holanda, Bélgica, Espanha, Finlândia, Argentina, Uruguai, Cuba, China, Ucrânia, etc – em Portugal e na África de língua portuguesa sua obra se incorporou ao desenvolvimento dessas literaturas. Para ficar em dois livros, Vidas Secas e São Bernardo são uma contribuição nossa para o mundo, assim como Machado de Assis, cada vez mais reconhecido, pois não há idioma, muito menos o nosso, que nos impeça de ser o que somos e de falar à humanidade.

SIDNEI SCHNEIDER   

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