Garrincha: a arte do
indígena que conquistou os campos do mundo
LUCIANO NASSAR*
Ponta direita encantado.
Driblador genial e ousado, Garrincha foi o Rei absoluto do drible.
Malandreava, pulava, fingia que ia para a esquerda e ia para a direita, pisava
na bola, dava um corte seco, virava estátua, freava a corrida, girava em torno
da pelota, criava adversários imagináveis.
Suas jogadas eram um bailado
à parte, um momento único no jogo, uma partida dentro da partida. Seu futebol
era um desenho animado. Era tão craque e criativo que parecia não
existir.Driblava um, dois, três, quatro, quantos marcadores viessem tentar lhe
tirar a bola. Seu eterno objeto de desejo.
Ele tinha uma natureza
alegre e descompromissada e, dentro do campo, jogava despreocupado. Brincava
com a bola. Sabia ao mesmo tempo divertir-se e ser responsável quando jogava.
Construía, com seus dribles, as sete maravilhas do mundo. Seus dribles eram
episódios de um seriado sem fim, tamanha era sua bela plasticidade,
tornando-se o homem invisível. Chamado de “Alegria do Povo” e “Gênio das
Pernas Tortas”, foi um mito em vida.
ARRANCADA
Garrincha tinha na arrancada
outra virtude fantástica, impossível pará-lo, se alguém tentasse fazê-lo, ele
parava e recomeçava outra vez. Driblando e pegando sempre o adversário virando
o corpo, colocando-se sutilmente, saindo um pouco de lado e quando o marcador
percebesse, ele já estava voando com a bola dominada, pronto para fuzilar o
goleiro ou passar para um companheiro melhor colocado. Um estilo todo próprio
de fazer, pensar e jogar futebol.
Ponta direita cheio de
truques, fazia do futebol a dança da capoeira chamada maculelê. Jogador movido
a instinto, era o atacante que fazia a diferença.
Foi um ídolo, sem a vaidade
e sem a empáfia do ídolo. Era um campeão sem pose. Fez dos seus marcadores,
apenas Joões perdidos, capengas, imberbes, tentando tomar-lhe a bola.
Garrincha sorria feliz com a
ingenuidade dos eleitos.
Campeão do Mundo, na Suécia,
em 1958, destroçando os russos e todos os adversários que cruzassem diante
dele, suas histórias ultrapassaram fronteiras e limites.
Bi campeão mundial em 1962
no Chile, considerado o melhor jogador da Copa. Nesse mundial o nosso gênio
fez de tudo: jogou nas duas pontas, de centroavante, de meia, bateu falta,
cabeceou, fez gols, foi o Deus da Copa, entortando todos os Joões do mundo.
Sua carreira começou no
Botafogo – RJ, onde atuou em 579 vezes e marcou 249 gols. Consagrando todos os
artilheiros que por lá passaram tais como, Paulo Valentim, Quarentinha.
Vinícius, Dino da Costa. etc.
Ele sabia o momento certo de
executar o cruzamento, ou rasante, ou a meia altura, ou no 1º pau, ou no 2º
pau. Em determinados momentos a cavadinha por baixo da bola, na maioria das
vezes o cruzamento tirando do goleiro. Ou então limpava toda a defesa
adversária e entregava com mel e açúcar para o atacante sozinho empurrar para
a rede vazia.
Seu futebol cresceu a níveis
exuberantes e incalculáveis, depois que o grande João Saldanha assumiu a
direção técnica do Botafogo e lhe deu plena e total liberdade para criar,
tirando-lhe qualquer obrigação de marcar.
GENIALIDADE
A situação mais difícil da
partida era resolvida com a sua genialidade e sua técnica divina. Quando a
partida ficava apertada e difícil todos recorriam a ele.
O mestre Didi recebia a bola
e imediatamente a lançava magistralmente, para que o nosso anjo pudesse
destruir a zaga adversária e definir a partida. Mané conquistou o mundo,
driblando.
Dizia-se que Mané Garrincha
era de outro planeta. E era. Um jogador que improvisava durante 90 minutos de
jogo. Era o anti-robô e a antítese da tecnologia avançada. “A multidão
aprendeu a ser feliz com Mané”.
*É colaborador do HP