|
1
2 3
4 5
6 7 8|Índice|
Biblioteca|Assinatura|Expediente|Cartas|Não tropece na Língua |
|
Desponta segundo turno em SP com a falência do engodo Desempenho de Orestes Quércia e Mercadante desfaz propaganda enganosa e cortina de fumaça das forças retrógradas do Estado A 15 dias das eleições, a candidatura do presidente Lula continua crescendo na preferência dos eleitores. Há até mesmo um fenômeno novo: o eleitorado mais bem aquinhoado, com renda mais alta, parece estar optando, em boa parte, por Lula. É evidente o que isso significa: era entre esse eleitorado que estava a principal resistência ao operário nordestino, e migrante, que ora ocupa a chefia do governo. Em suma, era nessa faixa de eleitores que Fernando Henrique, Serra, Alckmin, e outros pregadores de um modelo elitista e determinado por diretrizes externas, ainda encontravam algum eco. O que significa que estas eleições presidenciais apontam para um salto de qualidade na democracia e na participação popular. O termômetro disso é, exatamente, a preferência incontível por Lula. REACIONÁRIOS Mesmo o Estado que as forças políticas reacionárias consideravam o seu reduto, São Paulo, mostra, à medida que a eleição se aproxima, que tal consideração por parte delas era injustificada ou tende a se tornar coisa do passado. A esse respeito, além do crescimento de Lula, são indicadores candentes o desempenho do ex-governador Orestes Quércia e do senador Aloizio Mercadante. No momento, o esforço dessas forças recalcitrantes tem como objetivo passar para o eleitorado que não vai haver segundo turno, que Serra já ganhou as eleições, que sua distância em relação aos outros candidatos é definitiva e impossível de ser anulada, etc. Naturalmente, à medida em que Lula, Quércia e Mercadante crescem, esses esforços adquirem, mais e mais, a inconfundível cor do desespero. Como sempre aconteceu desde o fim da ditadura, o principal instrumento nessa tentativa de dar por encerrado o que ainda está por vir, são as pesquisas enganosas de supostas preferências eleitorais, com suas perguntas que condicionam as respostas, fatores de correção que dão peso excessivo a certos setores do eleitorado e suas amostragens deformadas em relação à real composição desse eleitorado. Como observamos há alguns anos aqui no HP, do jeito que a mídia que apóia os candidatos reacionários se comporta, a eleição seria completamente dispensável. Bastariam as pesquisas, que, supõe-se, devem ser muito mais democráticas e verdadeiras do que as eleições, uma vez que escolhem os candidatos que eles querem... No entanto, a realidade é a realidade; a ilusão é a ilusão; e a falsificação é a falsificação. A campanha de Lula simplesmente reduziu a pó essas tentativas no plano nacional, colocando no centro da democracia quem deve estar – o povo, e não as “pesquisas” ou autoproclamados formadores de opinião. Porém, impossibilitados de tirar coelhos da cartola com essas pesquisas na eleição presidencial, tal como fizeram desde a eleição de Collor, esses prestidigitadores e ilusionistas concentraram-se em São Paulo. LULA Mas, nesse Estado, o crescimento vertiginoso de Lula tem impulsionado as campanhas de Quércia e Mercadante. Portanto, aí também o conclave de mágicos das pesquisas está sendo colocado em xeque. Há, além disso, a consciência cada vez maior do eleitorado de que não apenas as pesquisas são enganosas, mas a própria propaganda de Serra é, em seu conjunto, enganosa. Serra anunciou, por exemplo, que “equipou, reformou ou construiu” 300 hospitais, sendo 100 deles em São Paulo. A fórmula “equipou, reformou ou construiu”, não há dúvida, passa a idéia de que ele realmente construiu esses hospitais, pois é evidente que ninguém na posse de suas faculdades mentais pode imaginar que ele esteja colocando no mesmo pé a construção de um hospital e uma reforma que muitas vezes é simples conserto de algum pequeno dano, ou a compra de um equipamento que pode ser qualquer coisa, até gaze ou mercúrio-cromo. A respeito disso, Quércia denunciou o engodo. Até mesmo ofereceu um prêmio – uma caixa de excelente vinho italiano – a quem aparecesse com um hospital construído por Serra. Candidatos a beber o vinho de Quércia não faltaram, mas até agora, três semanas depois, nenhum deles foi capaz de apontar um hospital que Serra tenha construído. Aliás, nem o próprio Serra, que silenciou completamente diante da denúncia de Quércia, apesar de se tratar de denúncia gravíssima. Da mesma forma o sensacional programa de entrega de remédios pelo correio. A própria Secretaria Municipal de Saúde desmente, através de seu site (como mostramos há duas edições) que este programa esteja funcionando. O máximo que faz é prometê-lo para as calendas gregas, ou seja, sem data prevista. O que não impediu que até agora Serra não tenha tirado tais afirmações enganosas de seu site – ou a Prefeitura de São Paulo de, após a denúncia de Quércia, iniciar uma campanha publicitária sobre o inexistente programa – uma das razões que motivaram o pedido de investigação e punição que o TRE acolheu (ver página 2 desta edição), promovido pelo PMDB. Quanto ao fim das “escolas de lata”, foi o próprio vice-prefeito de Serra quem o desmentiu. Como disse o senador Mercadante, há 14 mil alunos em São Paulo que ainda estão nessas escolas. E os que foram transferidos, referiu o senador, foram de escolas de lata para “escolas de vento”, ou seja, prédios em construção, alguns sem tetos, sem janelas, em que os alunos sentam no chão e compartem os rigores do inverno paulistano. PIRATARIA Certamente que há mais. Na última eleição, Serra declarou ter sido “o melhor ministro da Saúde do mundo”. Agora, mais modesto, diz ter sido “o melhor ministro da Saúde da História do Brasil”. Donde se conclui que ele foi melhor do que o grande Oswaldo Cruz, cujo cargo era o equivalente na época ao Ministério da Saúde. No entanto, Oswaldo Cruz extinguiu a febre amarela dos grandes centros urbanos, com o combate ao seu vetor, o mosquito Aedes Aegypti. Por coincidência, o mesmo mosquito que na gestão do ministro José Serra espalhou a dengue por todo o país, com milhares de casos, sem que se conseguisse controlá-lo. O ex-governador Quércia apontou que Serra, em seu programa na TV, atribui a si as obras de outros. “Até”, disse Quércia, “as estradas vicinais do governador Montoro”. Realmente, parece tratar-se de um estilo todo próprio: os medicamentos genéricos foram criados na época do presidente Itamar Franco, pelo seu ministro da Saúde, Jamil Hadad. No entanto, segundo a propaganda de Serra, foi ele quem os criou. Naturalmente, o fato de que sua ação foi no sentido de enquadrar os genéricos sob o tacão dos laboratórios multinacionais – ou seja, de submetê-los ao monopólio do cartel internacional de fármacos – ninguém esperaria que ele dissesse. No entanto, mesmo assim, não é pouca a diferença entre omitir esse fato e atribuir-se a obra de outros. São esses elementos, o crescimento de Lula e as denúncias sobre a propaganda enganosa, que tornam cada vez mais seguro que as eleições em São Paulo irão para o segundo turno. CARLOS LOPES |
|
|