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Visão crítica da obra de Ricardo Reis a partir de Horácio

Fora da luta e do amor não existe boa têmpera

Quem busca equilíbrio fora do atrito do mundo, desprezando a pátria, o amor e a luta da humanidade por melhores dias, ao invés do equilíbrio encontrará o pior dos destinos, similar  à morte em vida. É o que se depreende da obra de Ricardo Reis, o poeta indiferente inventado por Fernando Pessoa a partir da obra de Horácio. A comparação entre as odes de Ricardo Reis e as do poeta latino ressalta a evasão do primeiro, levada a sério e abraçada apenas pelos incautos

SIDNEI SCHNEIDER

A obra de Ricardo Reis, o poeta neoclássico criado por Fernando Pessoa, inventor de mais de 75 autores fictícios, inegavelmente estabelece diálogo com Horácio, o poeta latino da época do imperador Otávio Augusto, auge do Império Romano. Não é preciso muito esforço para comprovar essa relação, no entanto estabelecer em que medida um poeta dialoga com outro, nos aspectos formais, temáticos e conteudísticos, merece exame e reflexão, e pode esclarecer os que lhe absorvem a obra às cegas. 

CONFLITO 

Se Quinto Horácio Flaco, filho de um escravo liberto e mãe desconhecida, nascido em 65 a.C. e morto oito anos antes do nascimento de Cristo, viveu num período de paz e prosperidade após a solução dos conflitos sucessórios gerados pelo assassinato de César, Ricardo Reis teve sua fictícia existência, iniciada em 1887 e paralela a de Fernando Pessoa (1888-1935), num Portugal em luta para consolidar a República, numa Europa conturbada pela Primeira Guerra Mundial e pela eclosão da Revolução Soviética, e onde se gestava um conflito mundial de proporções ainda maiores. Enquanto Horácio, poeta por profissão, estava em consonância com aquela prosperidade e apoiava, resguardando sua independência, o governo de Augusto, Ricardo Reis, médico educado num colégio de jesuítas, era politicamente conservador e defendia a volta à Monarquia, tendo por isso se auto-exilado no Brasil em 1919. Por viver em conflito com o mundo moderno, refugia-se na antigüidade clássica, sendo “um latinista por educação alheia e um semi-helenista por educação própria” conforme seu criador. Evidentemente, as determinações históricas e pessoais se refletem na obra do poeta romano, mas por incrível que pareça, também na do poeta inventado, criando uma impressionante relação entre obra e vida, já que a poesia do heterônimo pessoano almeja que nada mude e teme quaisquer alterações a sua volta. 

FORMA 

Quanto à forma, Ricardo Reis busca uma identidade com Horácio, isso no que se refere às odes, já que apenas com elas dialoga, rejeitando as sátiras e epístolas, ainda que adapte as odes horacianas, baseadas na sílaba longa e breve, aos parâmetros métricos e rítmicos da língua portuguesa, bastante diferenciados do latim clássico. A forma estrófica, nas suas diferentes modalidades, no essencial mantém-se.

Uma característica da poética horaciana aponta que os poemas não devem apenas ser belos, mas doces, suaves, tranqüilos, agradando pelos sentimentos brandos que despertam, proposição esta em parte absorvida pelas Odes de Ricardo Reis: “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira rio./ Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos/ Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas./ (Enlacemos as mãos.)” (80*). Se Horácio, que nunca renegou sua origem escrava e se orgulhava dela, tinha na escrava liberta, chamada de libertina, a mulher ideal, atribuindo às suas amantes nomes fictícios como Lídia, Cloe, Neera, a obra de Ricardo Reis vai se utilizar dos mesmos nomes, sombra da sombra, para expor a sua peculiar visão de mundo. 

NEM A VIDA NEM A MORTE 

Para Horácio a morte é a grande mestra da vida, sendo ela certa, importa é gozar o dia, colher o dia que passa, carpe diem, como se fosse o último, “Enquanto conversamos,/ foge o tempo invejoso./ Desfruta o dia de hoje, pensando/ o mínimo possível no amanhã” (Ode à Leucónoe). Uma filosofia, como se pode sentir, não lá muito combativa no sentido de prover o ser humano de elementos para, com o próprio esforço, construir o seu futuro. Contudo, já que a felicidade não é absoluta mas relativa, para colher da vida os dias felizes antes da velhice e da morte, o poeta latino propõe celebrar o festim regado a vinho com os amigos e a amada, o máximo a que se poderia chegar em termos de felicidade. Tudo isso sem excessos, já que o meio-termo é a suprema ventura, sendo esse um festim anterior às orgias praticadas no período da Decadência, condenadas na época de Horácio. Não se bebe para esquecer a morte, mas para a partir dela enaltecer a vida. Ricardo Reis não tira partido da morte, em relação à vida propõe apenas que “saibamos/ Sábios incautos,/ Não a viver,// Mas decorrê-la” e tendo “Nem o remorso/ De ter vivido” (73). Pergunta e responde: “Que é qualquer vida? Breves sóis e sono” (145). Para ele nada tem sentido, nem a vida nem a morte: “Não vale a pena/ Fazer um gesto./ Não se resiste/ Ao deus atroz/ Que os próprios filhos/ Devora sempre” (74).

Finge seguir Horácio, “Mas tal como é, gozemos o momento,/ Solenes na alegria levemente,/ E aguardando a morte/ Como quem a conhece” (82), entretanto nem o gozo tem razão de ser quando se dirige à Lídia, “Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos./ Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio” (80). E quando propõe o gozo com mais convicção, “Cada dia sem gozo não foi teu/ Foi só durares nele”, ele se resume a um “reflexo do sol ido na água/ De um charco” (147).

Em relação ao gozo proporcionado pelo vinho, Horácio ensina que se bebe coroado de flores, a coroa ensina a viver, já que as folhas e flores ao murcharem estimulam a gozar o dia que foge. Ricardo Reis pede, “Coroai-me de rosas” (77) mas rejeita “idéias que trazem rosas” (139). Diz à amada que de nada adianta beber o vinho, porque entre uma taça e outra pode ocorrer a morte, “E brindemos uníssonos à sorte/ Que houver, até que chegue/ A hora do barqueiro” (123). Bebe não para glorificar a vida, nem mesmo para esquecer a morte, “Sábio” é o que “sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,/ Que o seu sabor orgíaco/ Apague as horas” (86). Horácio bebe nos festins que ocorrem nas datas festivas, no calendário de Ricardo Reis não existem dias de trabalho e dias de festa, ele vive num eterno lazer, sem trabalho obrigatório, “me entrego, filho/ Ignorado do Caos e da Noite/ Às férias em que existo”. Não distingue “lazer com dignidade” e “lazer sem dignidade” como fazia Horácio.

O poeta latino glorifica a juventude como o período ideal para participar do sagrado festim, para Ricardo Reis “Melhor vida é a vida/ Que dura sem medir-se” (117), e sempre auto-referente sofre “Já o frio da sombra/ Em que não terei olhos./ A caveira ante-sinto” (124). O festim baseia-se na solidariedade humana e supõe uma reunião de amigos, e para Horácio o amigo é “a metade da alma”. Já Ricardo Reis é sem amigos, completamente sozinho, e sozinho por opção, apenas algumas mulheres se apresentam como fantasias saídas das páginas de Horácio, “Suave é viver só./ Grande e nobre é sempre/ Viver simplesmente” (109), “E nada tem sentido – nem a alma/ Com que penso sozinho” (131).

Defensor das posses médias, do meio-termo entre a riqueza e a pobreza, Horácio acredita que “quem quer pouco tem tudo”, Ricardo Reis repete a assertiva, mas a modifica para negar a relação amorosa, “Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada/ É livre: quem não tem, e não deseja,/ Homem, é igual aos deuses” (137). Ambos os poetas preferem o campo à cidade, Horácio elogia a harmonia social que possibilita a pequena propriedade romana, antes de Otavio Augusto arruinada, e sente-se realizado na sua modesta Vila da Sabina. Ricardo Reis retruca, “usemos a existência/ Como a vila que os deuses nos concedem”, entretanto o faz com um objetivo banal, “Para esquecer o estio”, repelindo qualquer “outra forma mais apoquentada” de viver (92).

Horácio crê na Providência Divina e tenta alcançar favores das deidades através de preces e sacrifícios. Ricardo Reis descarta o cristianismo como única religião, “Vós que, crentes em Cristos e Marias,/ Turvais da minha fronte as claras águas” (96), e apesar de se referir aos deuses, pagão que finge ser, desconfia deles e a rigor é materialista, “Mesmo para com esses/ Que cremos serem deuses, não sejamos/ Inteiros numa fé talvez sem causa” (159), ainda assim propõe que se imite uma muitíssimo duvidosa qualidade divina, “Os deuses são deuses/ Porque não se pensam” (109). 

INDIFERENÇA 

A proposição moral de Horácio de praticar o bem evitando o mal, perde a razão de ser em Ricardo Reis, que pratica somente a indiferença. Para Horácio, o fruto é mais importante que a flor, para Ricardo Reis, frutos e flores, colhidos ou não, pouca diferença têm: “Colhido, o fruto deperece; e cai/ Nunca sendo colhido” (118), “Flores que colho, ou deixo,/ Vosso destino é o mesmo” (118). Horácio sente responsabilidades diante do mundo e lembra-se de “conservar um ânimo igual/ na adversidade como na prosperidade,/ comedido da excessiva alegria” (Livro II, Ode 3). Ricardo Reis abdica delas, para ele a moral, a vida, tudo é inútil: “Ah, não consegues contra o adverso muito/ Criar mais que propósitos frustrados!/ Abdica e sê/ Rei de ti mesmo” (126), quer “a visão clara/ E inútil do Universo” (101).

Apesar de não ter predileção pela poesia épica, Horácio põe sua lira a serviço do saneamento e da recuperação do Império, exerce um patriotismo crítico, procura agradar e instruir. Horácio detesta a guerra, ama a paz que propicia a realização da prosperidade e do festim, mas crê que se deve lutar quando se trata de uma guerra justa, o que inscreve num de seus mais famosos versos, “É doce e belo morrer pela Pátria” (Livro III, Ode 2). Ricardo Reis, por sua vez, só se inquieta se o rei de marfim do jogo de xadrez corre perigo, mesmo que “caiam cidades, sofram povos”, e a ele “Pouco pesa na alma que lá longe/ Estejam morrendo filhos” (104). Quando escreve “Prefiro rosas, meu amor, à pátria” (107), pergunta “Que importa àquele a quem já nada importa”, e responde “Nada, salvo o desejo de indiferença/ E a confiança mole/ Na hora fugitiva” (107). No fundo, Horácio aconselha que se faça amor, não a guerra, enquanto Ricardo Reis não aconselha nem uma coisa nem outra, “Vê de longe a vida. Nunca a interrogues” (109), pois nada vale a pena. 

AMOR 

Horácio ama sem culpas a libertina, seja Lídia, Cloe ou outra, Ricardo Reis não quer ser amado, pois isso demandaria um amor a ser retribuído que ele não tem, “Não quero, Cloe, teu amor, que oprime/ Porque me exige amor. Quero ser livre.” (137). Quer que os deuses lhe concedam que “despido/ De afetos, tenha a fria liberdade/ Dos píncaros sem nada” (137). Horácio escreve “enquanto dura a vida, amemos”, Ricardo Reis inverte o raciocínio e diz que enquanto não “se engelha conosco/ O mesmo amor, duremos” (89). Simulando Horácio, Ricardo Reis bebe, coroa-se de rosas, senta-se à mesa ou em frente à lareira com a mulher horaciana, mas conclui que nada disso adianta, pois “quem nos ama/ Não menos nos limita” (137) e “Ninguém a outro ama, senão que ama/ O que de si há nele” (145). Em Horácio ocorrem todas as manifestações do amor: beijos, carícias, enlaces. Ricardo Reis reconhece que também poderiam haver tais coisas entre ele e Lídia, “podíamos,/ Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias”, mas conclui que “não vale a pena cansarmo-nos” (80). O único beijo possível é o de despedida, à hora da morte, quando “já nos toque/ No ombro a mão, que chama/ À barca que não vem senão vazia” (123).

Quando escreve “Para ser grande, sê inteiro: nada/ Teu exagera ou exclui./ Sê todo em cada coisa. Põe quanto és/ No mínimo que fazes./ Assim em cada lago a lua toda/ Brilha, porque alta vive” (146), um poema louvado com justiça quando lido fora da “profunda neurose” (Leyla Perrone-Moisés) da mensagem da obra e que não parece ser de quem é, Ricardo Reis em verdade está apenas dialogando com Horácio, combate a filosofia do meio-termo dourado, a busca do equilíbrio que apara e exclui os excessos. Em Ricardo Reis, o almejado equilíbrio é frágil, tenta se sustentar numa atitude de não interferência na vida, para não sofrer finge um equilíbrio que é falso, desesperado na verdade. Não sabe que “O que vive fere”, como anotou João Cabral de Melo Neto no poema O Cão Sem Plumas, “O que vive/ incomoda de vida/ o silêncio, o sono, o corpo/ que sonhou cortar-se/ roupas de nuvens”.

Com Ricardo Reis, anti-heraclitiano por excelência, cessa o movimento do mundo, “Tudo quanto me ameace de mudar-me/ Para melhor que seja, odeio e fujo./ Deixem-me os deuses minha vida sempre/ Sem renovar” (114). “Nada fica de nada. Nada somos”, a não ser “Cadáveres adiados que procriam”. Curiosamente, o mesmo verso que, no singular e com sentido oposto, aparece num poema de Fernando Pessoa “ele mesmo”, Dom Sebastião, de Mensagem, sobre o audacioso rei que encarna o desejo de prosperidade de Portugal: “Sem loucura que é o homem/ Mais que a besta sadia,/ Cadáver adiado que procria?”.  

PARA BEM OU PARA O MAL 

O exame das Odes de Ricardo Reis revela o poder de persuasão da poesia, para o bem ou para o mal. Poder que se reflete nas outras artes e, por extensão e múltiplos mecanismos, na maneira como cada um de nós vê e sente o mundo mesmo sem nunca ter lido um poema, afetando a sensibilidade de toda nação, como uma vez anotou o poeta T.S.Eliot, e da qual dependem, e muito, as ações humanas. Na obra em negativo de Ricardo Reis há coisas horríveis admiravelmente bem escritas, num tom tranqüilo, suave e aliciador, que não foram produzidas pelo poeta que as assinou, mas por outro, que lhe inventou uma biografia, uma obra e um estilo, como o fez com Alberto Caeiro e Álvaro de Campos. Em síntese, para Horácio tudo vale a pena se a alma se mantém na virtude do meio-termo dourado, para Ricardo Reis “Não vale a pena/ Fazer um gesto” (74), “Nada que haja/ Vale que lhe concedamos/ Uma atenção que doa” (140), enquanto Fernando Pessoa “ele mesmo” responde à questão no poema Mar Português, também de Mensagem: “Valeu a pena? Tudo vale a pena/ Se a alma não é pequena./ Quem quer passar além do Bojador/ Tem que passar além da dor./ Deus ao mar o perigo e o abismo deu,/ Mas nele é que espelhou o céu.” 

* Os números entre parêntesis após os versos de Ricardo Reis indicam as respectivas páginas do volume Ficções do Interlúdio/ 2-3, Odes de Ricardo Reis e Para além do outro Oceano de C(oelho) Pacheco. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

- Bojador é o cabo da África até onde o mar era conhecido no século XV, antes dos descobrimentos.

- Esse trabalho originalmente é de maior extensão e dividido em duas partes, sendo a parte sobre a aproximação formal entre a obra de Reis e Horácio, indicada para especialistas e aqui não apresentada, de responsabilidade do pesquisador Daniel Costa da Silva.

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