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Chá das 5 do “Cansei” fracassa em todo país

Um desfile de pretinho básico e óculos de sol das grifes mais famosas marcou a caminhada das dondocas enfadadas, mauricinhos e pitboys que seguiram da Avenida Paulista até o obelisco do Ibirapuera, no último sábado, em São Paulo. Entre um biscoitinho e outro para os pobres poodles, Bichon Frise e Yorkshire – que se estressaram na caminhada e tiveram que passar o domingo em spas caninos -, as socialites soltavam gritos de “fora Lula” ou acenavam para as grã-finas que berravam histéricas ou pediam vaias sobre um trio-elétrico.

A ex-“grande” manifestação contra Lula foi convocada por grupos como o “Cansei” através da internet e de setores da mídia em São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Vitória e Campo Grande. Não conseguiram reunir mais de mil pessoas em todos estes lugares, apesar do jornal “Estado de S. Paulo” ter divulgado que tinham mais de 10 mil em São Paulo. Depois recuou um pouco, mas manteve um número inflado de 2 mil. Para se comunicar, o grupo tem uma comunidade no sítio de relacionamento Orkut em que prega o fora Lula e mantém ligação com outras comunidades exóticas, como “Sou de direita, e daí?”, “Revista Veja – moderada”, “Diogo Mainardi” e “Gente inteligente não vota”, e discute assuntos de auto-avaliação: “porque somos burros”.

Intitulado “um movimento cívico” formado por empresários de direita e pelo movimento “República de São Paulo”, grupo que defende a separação do estado do restante do país, a turma que passeou até o obelisco preparou um prato cheio para colunistas e bloguistas que tentaram captar a essência do séqüito. O jornalista Luiz Carlos Azenha nos brindou em seu blog com entrevistas primorosas. Numa delas, uma senhora rechonchuda – que carregava um cartaz “Fora Guevara e Fidel” – explicava que não queria o fora Lula, mas sim o de Che “porque os jovens de hoje ficam cultuando esse Guevara”. Questionada sobre quem eram os seus ídolos, ela não pensou duas vezes: “FHC, Heloisa Helena e Gabeira”.

Até mesmo a “Folha de S. Paulo” não teve como não registrar entrevistas como a da empresária e estilista Patrícia Guizzardi: “Eu acho esse comentário até racista (sobre a origem elitista da manifestação). Sou povão. Passei dez carnavais seguidos no Rio de Janeiro, sambando no meio de negros”, dizia ela, mal disfarçando seu sentimento de sacrifício hercúleo ter ficado no meio desses “negros”. Em meio a tanta socialite, a imprensa disputava a tapa a única mulher negra que participou do desfile, a desempregada Jéssica Verônica Aquino Nascimento –, que fazia questão de repetir que seus “irmãos de raça e os pobres em geral, infelizmente, ainda são muito ignorantes”.

Ainda tinha uma amiga do finado coronel Ubiratan Guimarães – aquele do Carandiru -, a empresária Ana Prudente, se desmanchando em saudosismo: “Ele [o coronel Ubiratan], se estivesse vivo, certamente estaria nos apoiando. Ele era desses que nunca fugiu à luta”.

ALESSANDRO RODRIGUES 

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