O futebol das mulheres
arrasou
ARIOVALDO IZAC *
Aquelas 60 mil vozes que
ecoaram no Estádio do Maracanã, nos aplausos às meninas do futebol do Brasil
na final dos Jogos Pan-Americanos, foram um recado claro para os “barbados”:
pratiquem um futebol bonito, alegre, que também serão ovacionados. As moças
brasileiras arrasaram as norte-americanas por 5 a 0, no dia 25 de julho,
botaram o ouro no peito, e não desperdiçaram o momento oportuno para cobrar
mais apoio à modalidade.
A rigor, são velhas
cobranças partilhadas até por setores da imprensa que minimizam o noticiário
de competições organizadas por ligas municipais, regionais e federações, com
reação imediata da CBF através do assessor de imprensa Rodrigo Paiva: “A
entidade está em condições de organizar um Campeonato Brasileiro. Temos
know-how e estrutura. Falta apenas o interesse de clubes e de televisões
interessadas em patrocinar”.
Evidente que um
empurrãozinho, venha de onde vier, sempre é bem recebido pela modalidade, e
não se pode dizer que ela esteja totalmente desamparada.
Professores de educação
física a estimulam entre as colegiais no ensino fundamental, e orientadores de
escolinhas de futebol têm paciência para explicar que o correto não é o chute
de bico para o lado em que estejam viradas, mas de “peito de pé”.
ENTUSIASMO
Quando criança e durante
relativo período da adolescência, a menina até se entusiasma com a prática do
futebol. Basta atingir a fase de paquera e namoro para dar um bico
literalmente na bola, ou à vezes é coagida pelo namoradinho machista, que
herdou dos avôs o ultrapassado dito que “futebol é coisa para homem”.
Com a recente conquista do
Pan abre-se novamente a perspectiva de crescimento da modalidade, são feitas
projeções para aparições de novas Martas, e a tendência é de se reviver a
febre pós Olimpíada de Atlanta, nos Estados Unidos, em 1996, quando o quarto
lugar foi festejadíssimo no país.
E quando se fala de futebol
feminino é impossível dissociar o trabalho feito pelo técnico Zé Duarte (já
falecido) no selecionado brasileiro a partir de 1995. Se antes a modalidade
sobrevivia graças a meia dúzia de clubes, e a concentração das melhores
atletas era no time carioca do Radar, com o paizão Zé Duarte tudo mudou, a
começar pelo conceito de realizar um trabalho de base até com a nata do país.
Elas aprenderam chute, cabeceio, passe, domínio de bola, drible, antecipação,
desarme, etc. Repetiram à exaustão os quesitos de fundamento indispensável ao
atleta. Trocado em miúdos, tiveram que aprender o bê-a-bá do futebol.
POSICIONAMENTO
O segundo estágio foi
estruturação tática, com posicionamento adequado em campo. E a absorção desse
conjunto de valores resultou naquela equipe competitiva e surpreendente na
Olimpíada de Atlanta, com respingos no âmbito doméstico. Pena que a bola foi
colocada irracionalmente nos pés de milhares de meninas neste Brasil afora. A
maioria tinha dificuldades para o giro, falta de malícia e de coordenação para
rápidas “freadas”. Assim, os choques eram constantes, resultando em contusões
e dispersão da modalidade. Portanto, com a natural projeção de crescimento da
prática do futebol feminino, que saibamos absorver os sábios ensinamentos de
Zé Duarte para que as meninas pratiquem a modalidade de forma saudável e
qualitativa. Antes da ferramenta bola, que aprendam a indispensável
coordenação motora.
* É jornalista e colaborador
do HP em Campinas