Bush institui o grampo geral dos americanos por 6 meses
Notável exemplo da democracia
que vigora nos EUA - a lei que permite por 180 dias o grampo de telefonemas e
e-mails sem autorização judicial - foi arrancado de um Congresso chantageado
por “alarmes” sobre os “iminentes ataques terroristas”
Após difundir pela mídia
“alarmes” sobre “iminentes ataques terroristas” da “escala do 11 de Setembro”,
o governo Bush obteve do Congresso dos EUA mais seis meses de grampo e
espionagem generalizada dos telefonemas e e-mails dos cidadãos
norte-americanos, assim como das comunicações do mundo inteiro que passam
através dos “back-bones” de fibra ótica das grandes operadoras, como a AT&T,
Verizon e Quest. A “lei” – notável exemplo da maravilha de democracia que
vigora nos EUA – tem como efeito colateral proporcionar doravante imunidade
para a AT&T e congêneres, que agora vão poder dizer que aquelas salas da CIA
dentro dos centros de comunicação estão lá porque o secretário da Tortura dos
EUA, perdão, da Justiça, Alberto Gonzáles, e o Czar da Espionagem, almirante
Mike McConnell, mandaram. Tudo “na lei”. Com toda essa escuta e grampo, não há
o menor sinal de que o atoleiro no Iraque e o recorde de impopularidade de
Bush dentro (e fora) dos EUA vão mudar.
Na prática, por seis meses
estará revogada outra lei, o assim chamado “FISA” (iniciais de “Foreign
Affairs Survei-llance Act”), que proíbe que norte-americanos sejam espionados
dentro do seu próprio país pela CIA e co-irmãs. A aprovação do “FISA” em 1978
foi fruto das investigações do Comitê Church sobre os escândalos da vigilância
e grampo dos ativistas dos direitos civis, líderes negros e entidades contra a
guerra do Vietnã. A bem da verdade, o “FISA” era uma tênue barreira, com um
“tribunal” secreto que tinha a incumbência de analisar pedidos do governo para
espionar cidadãos norte-americanos, o que na imensa maioria dos casos
concedia. Depois do 11 de Setembro, suas normas foram revisadas oito vezes
para torná-las ainda mais flácidas. Mas mesmo assim é considerado pela Casa
Branca como um “excessivo” controle. É que é uma gente sem limites. Com seu
costume de mentir, Bush apresentou sua “lei” como o “upgrade” do “FISA”.
Agora, com o “upgrade”, vai ser
a raposa que, por seis meses, vai autorizar suas visitas ao galinheiro:
bastará a assinatura de Gonzáles, sob cerco por seu papel de teórico da
tortura e pela demissão de sete procuradores que se recusaram a ajudar no
roubo das eleições de 2004. Mais a do almirante McConnell , a quem Bush
incumbiu de supervisionar a CIA, todas suas alas e porões, mais outras 30
agências e esgotos, e o Serviço Nacional de Grampo dos EUA, também conhecido
pelo nome de fantasia de NSA.
DESINFORMAÇÃO
Um dos baluartes da
desinformação que permite Bush prosseguir nos seus desmandos e guerras, o
“Washington Post” se viu acometido de súbita preocupação com a submissão do
Congresso às “demandas do governo para permitir vigilância sem garantias dos
telefonemas e e-mails dos cidadãos americanos, com escassa supervisão judicial
e nenhum relato ao Congresso sobre quantas informações estão sendo
interceptadas”. Trata-se, apontou, de que o Programa de Grampeamento ilegal
foi tornado lei, ou mais precisamente, foi reescrito para não ter qualquer
restrição legal”. É isso mesmo, mas isso só é possível a Bush exatamente pelo
papel que a mídia dos EUA joga de, nas palavras de um deputado democrata
indignado com a “lei” do Grampo, dos “fomentadores do medo”.
Agora, por meio ano, se é que
vai lhes adiantar de alguma coisa, Bush, Cheney, o substituto de Rumsfeld
(como é mesmo o nome dele, Gates?) vão poder se entupir de grampo. Aliás, só
uma das instalações da NSA grampeia “um milhão de telefonemas e e-mails por
hora”, de acordo com um ex-diretor. A nova “lei” expande o grampo: agora é
contra a “inteligência estrangeira” – “não apenas terrorismo”, explicita o WP.
CINISMO
Uma das coisas mais cínicas da
nova “lei” do Grampo é que libera geral a bisbilhotice sobre os cidadãos
norte- americanos. Pode ser grampeado à vontade “a menos que seja o “alvo
primário” da campana, ainda de acordo com o “Post”. Se fosse o “alvo
primário”, aí toda aquela questão da autorização judicial iria prevalecer. Mas
a CIA pode muito bem considerar o cidadão vigiado apenas como um “alvo
secundário” de outra investigação qualquer, que ninguém sabe qual é, cujas
contas têm de prestar a si mesma, mais os guardiões da lei Mr. Gonzáles e Mr.
McConnell.
A “lei” alivia a AT&T e as
demais operadoras de Grampo daquela montanha de processos – e pagamento de
indenizações – pelos próximos seis meses. Vão poder mandar cobrar de Bush,
Gonzáles e McConnell. Embora não as livre dos que já estão correndo. Ainda de
acordo com a mídia dos EUA, um dos motivos para a pressa de Bush foi que o
tribunal do “FISA” andava apertando a CIA quando ao volume do grampo de
comunicações internacionais que passam através dos EUA, mas não têm nada a ver
com os EUA. Estava cobrando um mínimo de procedimentos legais, ainda que os de
um tribunal secreto.
INCONSTITUCIONAL
Então, nos próximos seis meses,
mais escândalos do grampo para aumentar a popularidade de Bush. A presidenta
da Câmara de Representantes, Nancy Pelosi, afirmou que a “lei” do grampo
“viola a Constituição dos Estados Unidos”. O diretor-executivo da principal
entidade dos EUA, a União Americana pelas Liberdades Civis, Anthony Romero,
mostrou-se “atônito” pela aprovação. “Este Congresso provou ser tão sem
espinha dorsal ao se sujeitar ao governo Bush, quanto o que aprovou o “Ato
Patriótico” ou o ‘Ato do Dever Militar’”. Tim Lynch, do “Catho Institute”,
afirmou que “apesar de passados seis anos após o 11 de Setembro e mesmo com a
folha corrida do secretário da Justiça Gonzáles, a maioria dos parlamentares
pôs suas reservas de lado, se ajeitou na posição fetal e disse ‘sou contra os
terroristas também’, conforme votaram a favor”.
Os candidatos a candidatos a
presidente pelo Partido Democrata, Barack Obama, Hillary Clinton, Dennis
Kucinich, Joe Bidden e Christopher Dodd votaram contra. A liderança do Partido
Democrata anunciou que vai preparar uma lei alternativa, e permanente, ao
grampo de Bush. “De jeito algum nós vamos esperar seis meses”, apontou o
deputado Rahm Emanuel, do Illinois, presidente do Caucus Democrático da
Câmara.
ANTONIO PIMENTA