O pesadelo capitalista
dos pugilistas cubanos
A ficha caiu, e os dois
boxeadores cubanos, que haviam caído no conto do vigário de um empresário
alemão, de uma montanha de dinheiro para lutar na Europa, apareceram no Rio de
Janeiro e anunciando que queriam voltar para Cuba. O próprio comandante Fidel
comentou em artigo a decisão deles, e que haviam comunicado à Polícia Federal
brasileira “que tinham errado e estavam arrependidos”. É, experimentaram o
capitalismo e não gostaram. Quando um advogado da empresa mafiosa alemã tentou
interferir, os boxeadores se recusaram a recebê-lo.
O desfecho torna ainda mais
notória a ação da TV Globo, que havia levado ao ar na véspera do encerramento
do Pan a mentira de que, por causa de uma “ameaça de deserção em massa” da
delegação cubana, o governo de Raúl Castro havia ordenado que seus atletas
voltassem imediatamente em um avião da Cubana que aguardava no Aeroporto Tom
Jobim. “Os atletas cubanos estão saindo às pressas da Vila Olímpica”, mentia
com voz empolada o locutor Galvão Bueno, e acionando um repórter no aeroporto
para supostamente confirmar o que dizia. Não ia haver delegação cubana no
encerramento, asseverou. No dia seguinte, no encerramento, lá estavam 200
atletas cubanos, provavelmente a maior delegação ainda presente no Rio naquele
momento. A delegação cubana estava lá em peso, mas não a Globo que,
estranhamente – será estranhamente mesmo ? – não transmitiu o encerramento do
Pan. E logo o Pan do Brasil, o Pan do Rio de Janeiro.
O jornalista Laerte Braga
relatou que na Globo “tudo estava preparado para a transmissão, Galvão Bueno,
a equipe de atletas/comentaristas, a técnica, todos. O evento foi inteiramente
gravado pela Rede, mas transmitido ao vivo só pela Bandeirantes”. Então, de
onde partiu a ordem para esconder a festa de encerramento do Pan, o Galvão, a
equipe de comentaristas, a técnica, e esticar a enchimento de lingüiça do
Faustão? Laerte explica mais: “A Globo passou o dia inteiro transmitindo o
final dos jogos e várias inserções sobre a propalada deserção em massa da
equipe cubana. Como a Globo poderia mostrar depois de ter mentido o dia
inteiro sobre a volta dos cubanos, 200 atletas cubanos entrando no Maracanã na
festa de encerramento dos jogos? Iria explicar a mentira como? Não mostrar a
delegação cubana?”.
A forçação do repórter César
Tralli, tentando arrancar dos atletas cubanos no aeroporto uma declaração
contra sua pátria socialista era tal, que o jogador de vôlei, Pavel Pimienta,
ironizou: “É que está para passar um furação, e nós precisamos chegar antes
dele”. “Estamos com saudade de Cuba. Tem atleta aqui que competiu no primeiro
dia do Pan e está há duas semanas sem fazer nada na Vila”, contou o saltador
Yoandris Betanzos, mas a Globo insistia na versão de “deserção em massa.
Não havia mistério maior quanto
à partida, antes da festa de encerramento, dos atletas. À medida que as
competições para as quais os atletas estrangeiros de quaisquer países se
encerram, eles vão voltando para sua terra. As diversas modalidades esportivas
foram distribuídas ao longo da duração do Pan, algumas acontecendo nos
primeiros dias, se encerrando, outras começando e indo até a semana anterior
ao encerramento do Pan e algumas na semana final. O fator para planejar e
escalonar a volta dos atletas é a questão dos vôos. Também não chega a ser
propriamente uma novidade o fato de que uma delegação retorne, em função do
vôo, até antes de receber a medalha, caso dos cubanos premiados com o bronze
no vôlei. Isso já aconteceu com o Brasil em Atlanta. Assim, os 50 cubanos que
voltaram a Cuba na manhã de domingo o fizeram numa programação previamente
estabelecida; e a entusiástica delegação cubana era possivelmente a maior
delegação estrangeira ainda presente ao encerramento do Pan do Rio.