Venda da TVA para Telefónica rende R$ 1 bi ao Grupo Abril
Com anuência da Anatel, espanhola empalmou a TVA do
Grupo Abril, dona da revista “Veja”
A Agência Nacional de Telecomunicações
(Anatel) aprovou em julho a compra de parte da TVA (Grupo Abril) pela Telefónica,
anunciada em outubro do ano passado, por R$ 922 milhões. Foram transferidos
100% da TV por assinatura via microondas (MMDS), 49% das ações votantes de TV
a cabo fora de São Paulo e 19,9% da operação de TV a cabo no estado. A
Telefónica, com “valor de mercado” de US$ 104 bilhões, só não empalmou
integralmente a TVA por restrições da Lei do Cabo, o que torna o Grupo Abril
“laranja” da empresa espanhola.
O valor da venda foi
revelado com a publicação, no sítio da Anatel, do voto do conselheiro Plínio
de Aguiar Jr, a seu pedido. O Conselho Diretor condicionou a anuência prévia à
mudança do contrato de acionistas da TVA em São Paulo, para tirar o poder de
veto da Telefónica, pelo menos oficialmente. No entanto, não houve o mesmo
cuidado nas localidades fora de São Paulo, em que o número de ações adquirido
chegou ao limite estabelecido de 49%. Isso foi o que motivou o voto contrário
do conselheiro Plínio. Segundo ele, isso contraria o artigo 7º da Lei do Cabo,
“uma vez que seu objetivo é assegurar que as decisões em concessionárias de TV
a cabo sejam tomadas exclusivamente por brasileiros, o que não ocorrerá no
presente caso, uma vez que as decisões da GTR estarão sujeitas à aprovação da
Telesp, que é controlada por estrangeiros”.
A Telefónica é oficialmente
espanhola, mas devidamente turbinada pelos fundos de pensão norte-americanos,
que têm por trás bancos como Citigroup, JP Morgan-Chase, BankBoston. Já o
Grupo Abril, criado por um norte-americano, repassou 30% do seu capital no ano
passado para o conglomerado de mídia nazi-africâner Naspers, por US$ 422
milhões.
OBSCURIDADE
Em carta enviada a todos os
senadores, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), questionou os
motivos da nova investida da revista Veja, publicada pelo Grupo Abril, segundo
a qual teria comprado ilegalmente uma rádio e um jornal. “Patriotismo?
Compromisso ético com a lisura e o comportamento dos homens públicos? Ou, quem
sabe, usar-me como cortina de fumaça para que, por suas sombras, acabe
celebrada uma nebulosa transação de cerca de R$ 1 bilhão, envolvendo a venda
de uma concessão de canal de televisão pelo Grupo Abril, proprietário da
revista Veja, a uma empresa estrangeira?”.
Para Renan, “esse, sim, um
assunto que verdadeiramente interessa à sociedade brasileira. Talvez fosse o
caso de investigar o negócio bilionário que se deseja manter na obscuridade”.
A aprovação da Anatel apenas
referenda o que já vinha ocorrendo na prática. Desde o início do ano -
portanto, antes mesmo de anuência prévia -, Telefónica e TVA já ofereciam
conjuntamente serviços aos usuários. “Isso já está acontecendo e a gente
percebe inclusive pela propaganda comercial que está sendo feita. Você abre os
jornais e vê as propagandas conjuntas, sendo oferecido ao consumidor que ele
pode ter como provedor de internet o Speedy, da Telefónica, ou o Ajato, da
TVA. A Telefónica já está oferecendo pacotes de TV por assinatura, o que
mostra que a operação comercial já está em andamento”, afirmou em março, em
entrevista ao HP, o diretor-executivo da Associação Brasileira de Televisão
por Assinatura (ABTA), Alexandre Annenberg.
Em junho, falando sobre o
processo Telefônica-TVA, o superintendente de Serviços de Comunicação de
Massas da Anatel, Ara Apkar Minassian, já havia dados sinais da aprovação.
Segundo ele, a Anatel só analisa a questão “regulatória”, ficando sob a
competência do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), o tema
concentração. “Essas duas etapas são distintas e sempre são vistas em todos os
processos. Toda aquisição ou fusão de empresas que tenham faturamento anual de
R$ 400 milhões deve ser submetida ao órgão responsável pela concorrência”,
disse.
O Cade, por seu turno, “não
tem imposto grandes restrições aos atos de concentração na área de
telecomunicações”, segundo sua presidente, Elizabeth Farina.
Em recente debate em São
Paulo, sobre a concentração no setor, a diretora-superintendente da TVA, Leila
Loria, constatou que “de fato, hoje, quando olhamos em volta, não há mais os
concorrentes pequenos. Eles estão tentando sobreviver. Já houve esse processo
de concentração e consolidação, nos últimos anos”. Sendo assim, buscou alguma
palavra de apoio ao guarda-chuva dos açambarcadores do patrimônio público:
“Queria defender um pouco a Anatel, já que todo mundo acha que sabe o que a
Anatel deve fazer”.
VALDO ALBUQUERQUE