Giambiagi, Lacerda e a
futurologia dos “fatos”
Na quarta-feira, o estimado
ex-assessor de José Serra no Ministério do Planejamento e economista cedido ao
IPEA, Fábio Giambiagi - especialista em astrologia e futurologia
previdenciária - voltou a usar as páginas da “Folha” para propalar seus
pareceres sobre a Previdência Social. Neste texto, Giambiagi procura se
defender das certeiras observações proferidas pelos economistas Eduardo
Fagnani e José Carlos Cardoso, em artigo publicado no mesmo espaço dia 8 de
agosto.
Moço apegado a “projeções”,
Giambiagi reclama da “retórica” que teria sido usada pelos economistas para
desmontar as suas manipulações da situação em que se encontraria a
Previdência. Disse que deixaria as palavras de lado e partiria para os
“fatos”. Cita cinco deles, pelos quais comprovaria a necessidade de se fazer
uma reforma da Previdência e, assim, impedir a falência do sistema.
Segundo ele, o “fato” mais
importante é que “em 1988, a despesa do INSS era de 2,5% do PIB; deverá ser de
7,2% do PIB em 2007”. Entretanto, o problema não foi que a despesa do INSS
cresceu e sim que o PIB ficou estagnado neste período, principalmente em
virtude de políticas econômicas destrutivas como a de FHC. Mesmo assim, se os
gastos aumentaram, as receitas do governo também, mas a maior parte dos
recursos foi destinada para os juros.
SUPERAVITÁRIA
Ao instituir o sistema de
Seguridade Social em 1988 – que engloba a Previdência - os constituintes
criaram também as fontes para o seu financiamento. Não é à toa, ao contrário
do que divulga Giambiagi, que a Seguridade Social (contando todas as fontes
constitucionais) é superavitária e dispõe de recursos para garantir a
aposentadoria de muita gente. No primeiro ano do governo Lula, 2003, o
superávit foi de R$ 31,7 bilhões; em 2004, R$ 42,5 bilhões; em 2005, R$ 57,7
bilhões; no ano passado, R$ 47,9 bilhões.
O segundo “fato” citado por
Giambiagi é que “o número de brasileiros com 60 anos ou mais crescerá 4% ao
ano de 2010 a 2025”. Desde quando projeções são fatos? Até onde sabemos,
“fato” significa “coisa ou ação feita, acontecimento. Aquilo que é real”. Como
observou Carlos Lopes, em artigo recente na Hora do Povo, “a demografia é
condicionada pela situação econômica. Por exemplo, é sabido que a expansão
econômica capitalista sempre cria uma ‘superpopulação’, pela própria
necessidade de um ‘exército industrial de reserva’. Assim, dizer que 4% da
população, em 1980, estava na faixa acima dos 65 anos, subindo para 5,4% em
2000, e, por isso, essa percentagem será de 8,7% em 2020, de 15,3% em 2040 e
de 18,8% em 2050, não passa de idiotice (...) ninguém garante que isso será
assim. Por que razão a taxa de crescimento (ou redução) populacional (ou a
variação dessa taxa) se manterá estável no período que vai de 2007 até 2050?”
Antes de seguirmos adiante,
é necessário deixar claro que o motivo de todo esse terrorismo sobre déficit
da Previdência é desmontar a Seguridade Social, reduzir seus recursos para
desviá-los ainda mais para os juros. Sobre este ponto, os economistas Eduardo
Fagnani e José Carlos Cardoso afirmaram: “A Previdência é o segundo maior item
de gasto corrente. Daí a fome do mercado pela reforma e captura desses
recursos”.
Em seu artigo, Giambiagi
reclama ainda de ter sido chamado de “porta-voz dos setores conservadores”.
Num de seus “estudos”, (“Texto para Discussão, 1.050”, do Ipea), Giambiagi
cita um evento histórico que é fortemente revelador, não só da sua origem e
referência polícia, mas também dos métodos utilizados para manipular os
“fatos”. Diz o texto: “Nos agitados meses que se seguiram ao suicídio de
Getúlio Vargas, em 1954, utilizando as páginas da Tribuna da Imprensa para a
pregação em que estava empenhado na época (...) Carlos Lacerda esboçou o que
deveria ser um programa integral de reformas, dizendo, entre outras coisas,
que: ‘é preciso (...) uma reforma da previdência social (...), livrando os
institutos da falência em que se encontram’”. Giambiagi ressalta que “o
comentário de Lacerda tem 50 anos e o tema da necessidade de fazer uma ampla
reforma do sistema de seguridade social no Brasil continua na ordem do dia”.
Após esta revelação, é desnecessário maiores comentários, a não ser lembrarmos
que nem a Previdência faliu, nem Lacerda foi elevado a grande patriota, bem
pelo contrário.
PRIVATISTA
Giambiagi se esmera em
proferir pérolas que dariam inveja até em Lacerda, tais como os aumentos reais
do salário mínimo e do piso previdenciário “foram extremamente generosos”, que
os aposentados se acham “sempre prejudicados”, mas o “fato é que o país” tem
“regras muito benevolentes de aposentadoria”, entre outras. Para acabar com a
farra desse povo que trabalha na roça, nas construções, nas fábricas e em
casas de família, ele propõe a redução da pensão por morte, a desvinculação
do aumento das aposentadorias do salário mínimo, a redução das pensões pagas
pela LOAS e, apesar de negar em seu último artigo, o aumento da idade mínima
para requerer a aposentadoria, fixando-a em 67 anos (H) e 66 (M).
O propagandista da
privatização afirma que não renega “a existência do Estado”. No entanto,
ninguém o acusou disso, visto que os próprios monopolistas também não renegam,
eles apenas operam para que o Estado centralize os recursos da produção para
colocá-los em seus bolsos. Portanto, é por isso que os neoliberais, cujo
programa foi rejeitado nas urnas, tentam por todos os lados reduzir recursos
para investimentos. A intenção é aumentar os recursos destinados para os
especuladores estrangeiros. E Giambiagi nem disfarça ao defender o superávit
primário de 5%.
Em suma, para Giambiagi, o
que atrapalha o Brasil é o povo brasileiro, que é muito folgado. Se os
brasileiros trabalharem até morrer e o dinheiro for parar nas mãos dos
monopólios estrangeiros, o problema estará resolvido.
ALESSANDRO RODRIGUES