Argentina e Venezuela firmam Tratado de Segurança
Energética
Chávez e Kirchner irão
construir usina para processamento de gás
Através de acordos firmados, empresa energética
argentina, Enarsa, atuará junto com a PDVSA na prospecção de hidrocarbonetos
no Orinoco
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, afirmou em sua visita a Argentina que a “América do Sul tem tudo para se
transformar num pólo de força mundial e contribuir assim para fazer um mundo pluripolar, esse é o caminho que nos trouxe a Buenos Aires”.
Néstor Kirchner acrescentou que os acordos que os dois
chefes de Estado assinaram na terça-feira, dia 7, são passos fundamentais para
fortalecer a aliança regional “com plena consciência política da integração,
que é decisiva para garantir a nossa soberania”. Chávez confirmou a retomada
das relações de seu país com o México, e advertiu que os Estados Unidos
trabalham ativamente “para obstaculizar os avanços na unidade
latino-americana, e nós não podemos cair nessa armadilha”.
Durante a reunião que realizaram na Casa Rosada, Kirchner
e Chávez ressaltaram os fortes laços que os unem, e o presidente argentino
também se referiu ao México, entendendo que seu par venezuelano coincidia com
os esforços de aproximação com esse país, na construção, consolidação e
ampliação do Mercado Comum do Sul (Mercosul) “independentemente das eventuais
diferenças políticas que possam existir entre as nossas nações”. No mesmo dia,
o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, se encontrava na Cidade do
México, acertando uma série de acordos comerciais e tecnológicos. A Venezuela
e o México se distanciaram no final do mandato do ex-funcionário da Coca-Cola
Vicente Fox na presidência do México.
BÔNUS
No encontro, os chefes de Estado assinaram um acordo
através do qual Caracas adquiriu bônus da dívida externa argentina por um
bilhão de dólares, que se somarão aos 4 bilhões e 300 milhões comprados nos
últimos três anos pelo seu país. Haverá uma emissão imediata por 500 milhões
que se completará no que resta do ano com duas emissões por 250 milhões mais.
“É mais uma prova de que não precisamos dos organismos internacionais às
ordens do império, como o FMI. Os incomodados dizem que a Venezuela lucra com
a nossa operação. Claro que lucra, da mesma forma como a Argentina lucra. Só
que de forma civilizada, solidária, conjunta, amiga. E não selvagem e
predatória, com o resultado de terra arrasada na economia dos nossos países”,
assinalou Hugo.
“Os argentinos acreditamos firmemente na consolidação do
Mercosul e a contribuição da Venezuela é muito importante. Nós agradecemos os
gestos desinteressados que você teve em momentos tremendamente difíceis que
passou o nosso país. Foi a atitude de um irmão. Nós queremos colaborar com a
experiência, com a tecnologia, com a garra do nosso povo para o crescimento da
Venezuela. No setor agrário, na tecnologia industrial, com o que temos de
melhor”, respondeu Néstor Kirchner.
Depois, Chávez visitou a sede central do Instituto
Nacional de Tecnologia Industrial da Argentina, INTI, para supervisionar o
contrato da Corporação de Indústrias Intermediárias da Venezuela S.A,
Corpi-vensa, para a construção e início do funcionamento de 56 empresas
industriais em 21 setores que vão desde a fabricação de máquinas e
equipamentos até produção de alimentos e vestuário.
Anunciou-se também o Tratado de Segurança Energética que
tem como centro a construção de uma usina de reprocessamento de gás para a
qual foram destinados 400 milhões de dólares. O gás natural pode ser
transportado através de gasodutos ou pode ser liquidificado e transportado por
navios. É o chamado gás liquefeito de petróleo, GLP. No lugar de destino, o
combustível volta a ser gasificado para ser distribuído. A fábrica que se
anunciou permitirá regasificar o fluido embarcado na Venezuela.
ORINOCO
“Sabemos que o mundo está entrando numa crise energética
que tem provocado golpes por parte dos Estados Unidos, invasões e guerras,
como a do Iraque, que revoltam todos os homens e mulheres de bem do mundo”,
sublinhou Chávez, acrescentando que Washington considerava como própria a
grande reserva da Faixa do rio Orinoco, que “agora será destinada a toda
América, sem excluir aos Estados Unidos”.
“Temos a maior reserva de gás do continente. O gás que
precisam o Brasil e a Argentina, está na Venezuela e na Bolívia. Nós não
queremos dar energia barata, de graça aos Estados Unidos. Ela é chave para
contribuir com a integração e o desenvolvimento. Rompemos acordos lesivos e,
eu diria, produto do servilismo abjeto de governos anteriores, com as
transnacionais do norte e isso nos custou um golpe de Estado e quase me custa
a vida. Mas, só reforçou em nós a certeza de que estamos certos. Quando os
cachorros latem , Sancho, é sinal de que estamos certos”, afirmou Chávez, ao
lado de Kirchner e sua esposa, Cristina Fernández, candidata à presidente nas
próximas eleições.
“Há dois anos chegou ao Rio da Prata o primeiro barco com
petróleo de Venezuela”, indicou Chávez e enfatizou a importância do convenio
para a exploração conjunta das empresas PDVSA da Venezuela, e Enarsa da
Argentina na Faixa do Orinoco. “Há suficientes reservas para abastecer durante
outros 200 anos a América Latina”, disse Chávez, que informou que seguirá
enviando petróleo aos Estados Unidos, resgatando a relação com o povo desse
país e ponderando que “é muito provável que o próximo governo americano se dê
conta de que essa política de Bush é insustentável e mude a atitude para com a
nossa região. Mas não somos ingênuos, nossa independência, nossa soberania
depende de nós, da nossa união e integração”.
Cristina Fernández de Kirchner “já é presidenta. Até as
pedras falam isso por aqui”, assegurou também Chávez, em referência à
candidatura da esposa do presidente argentino, que é favorita para as eleições
presidenciais de 28 de outubro próximo, e a quem agradeceu o apoio público que
tem prestado a seu governo em diversas ocasiões, como em recentes visitas a
Espanha e México. “A integração com a Venezuela é chave para a Argentina e
para toda a nossa América”, devolveu Cristina.
SUSANA SANTOS