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“Nossa vitória consistia em não nos deixar abater”

A grande marcha (1)

Iniciamos hoje a série histórica sobre a 1ª Divisão Revolucionária, que empreendeu  sua marcha pelo Brasil em 1924, contra o assalto da oligarquia cafeeira paulista, que submetia o Brasil ao imperialismo inglês e ao atraso. O período de lutas culminou com a Revolução de 1930, que levou Getúlio à presidência, colocando na ordem do dia a reconstrução e o desenvolvimento

SÉRGIO RUBENS DE ARAÚJO TORRES

Durante os 21 meses em que percorreu uma extensão de 25.000 km, através de 10 estados brasileiros, a 1ª Divisão Revolucionária foi duramente combatida pelo governo que mobilizou contra ela um vasto aparato militar composto por forças regulares do Exército, polícias militares de quinze estados, jagunços e cangaceiros.

Tendo ocupado, ao longo da marcha, mais de 500 cidades e vilas, os revolucionários encerraram a campanha, em fevereiro de 1927, cercados por uma aura de invencibilidade e prestígio que feriu de morte o poder da oligarquia cafeeira paulista.

Esta conseguiria manter ainda, por mais alguns anos, o seu domínio sobre a vida nacional. Porém, a nova onda revolucionária que se ergueria  em 1930, sob o comando de Getúlio Vargas, levaria de roldão o velho regime baseado na submissão aos interesses do imperialismo inglês, na política de valorização artificial do café - às custas do empobrecimento dos demais setores da sociedade - e na imposição de um sistema eleitoral notoriamente fraudulento.

A eclosão da primeira rebelião inspirada pelos ideais de voto secreto, ensino público, industrialização, direitos trabalhistas, independência econômica e moralidade administrativa ocorreria no Rio de Janeiro, em 1922.

A segunda onda revolucionária teria início em julho de 1924, quando as guarnições do Exército da capital paulista e parte do contingente da Polícia Militar, com o apoio da população civil, assumiram o controle da cidade. Ainda no mês de julho, as forças revolucionárias tomam Aracaju e Manaus, mas são sufocadas no mês seguinte.

Em São Paulo, após 22 dias de combates que culminaram num, devastador e indiscriminado bombardeio promovido pelos representantes da oligarquia contra a população da cidade, os revolucionários se retiram para o interior. Cruzando o estado, atingem o rio Paraná, de onde seguem para o sul, assumindo, no mês de setembro, o controle da faixa oeste do território paranaense, de Guaíra a Foz do Iguaçu.

A 29 de outubro, revoltam-se as guarnições do Exército das cidades gaúchas de Santo Ângelo, São Luis Gonzaga das Missões, São Borja, Uruguaiana e Alegrete, em ação conjugada com as milícias dos generais maragatos Honório Lemes e Zeca Neto.

Em abril de 1925, as forças revolucionárias gaúchas atingem Foz do Iguaçu, reunindo-se às forças paulistas.

Decidem então constituir a 1ª Divisão Revolucionária e prosseguir a luta cruzando uma faixa do território paraguaio, para atingir o estado do Mato Grosso, iniciando assim a Grande Marcha através dos sertões brasileiros.

Com um efetivo de 1.500 homens, armados de fuzis e revólveres, 600 animais de carga, sela e tração, duas seções de metralhadoras pesadas e uma bateria de artilharia, a 1ª Divisão Revolucionária era comandada pelo general Miguel Costa, sendo formada pelas brigadas Rio Grande e São Paulo. A primeira comandada pelo coronel Luís Carlos Prestes e a segunda pelo tenente-coronel Juarez Távora.

Alguns oficiais revolucionários que participaram da fase anterior da luta emigraram para o Paraguai, entre eles o marechal Isidoro Dias, o general Bernardo Padilha, os tenentes-coronéis Estilac Leal e João Cabanas, o major Felinto Muller, os capitães Gwyer de Azevedo e Ricardo Holl. A maioria, com a saúde abalada, não se encontrava em condições de enfrentar os rigores da nova campanha.

PRIMEIRAS VITÓRIAS

Penetrando em solo paraguaio, a 29 de abril de 1925, o grosso da 1ª Divisão Revolucionária retornou ao Brasil, no dia 1º de maio, após percorrer 125 km, através de uma picada ligando Puerto Adela à fazenda Jacareí, situada na fralda brasileira da serra de Maracaju.

Marchando na vanguarda, o regimento João Alberto, um dos quatro destacamentos que compunha a Brigada Rio Grande, atingiu o estado do Mato Grosso, a 30 de abril, atravessando, na mesma data, o rio Iguatemi, na localidade de Porto Lindo. Poucos dias depois, o batalhão Virgílio dos Santos, da Brigada São Paulo, ocupou Porto Felicidade, e, em seguida, a vila de Campanário, sede da empresa Mate Laranjeira.

O povoamento dos ricos campos do sul mato-grossense tivera seu início com a chegada das forças do maragato Juca Tigre, em 1894. Formara-se, desde então, uma ininterrupta corrente migratória procedente do Rio Grande do Sul.

A farta quantidade de gado, mate e outros recursos ali existentes faziam a felicidade da tropa revolucionária que voltava a sentir-se como peixe dentro d’água.                 

Os combates não tardaram, tendo se iniciado no dia 6 de maio, conforme relato do comandante do 2º Regimento da Brigada Rio Grande, tenente-coronel João Alberto:

“Em Panchita, a meio caminho de Ponta Porã, fui acometido, quando almoçava, por um forte destacamento do Exército - que vinha ao nosso encontro em caminhões. O combate foi duro, mas obtivemos brilhante vitória. Prendemos 20 caminhões e fizemos mais de 100 prisioneiros.

Usando esses caminhões avançamos naquela mesma noite até a ponte do Amambaí que encontramos destruída. O adversário manobrava na defensiva. Passados dois dias... prosseguimos para Ponta Porã”.

A guarnição dessa cidade, situada na fronteira paraguaia, era constituída do 11º Regimento de Cavalaria Independente, reforçado por um batalhão do 3º Regimento de Infantaria, recém-chegado, e por cerca de 100 jagunços do coronel Mário Gonçalves. O efetivo total era de 800 homens. A tropa do governo, no entanto, recebeu  ordens do QG para retirar-se, indo entrincheirar-se em Cabeceira do Apa, encruzilhada de estradas no caminho para Campo Grande - sede da 4ª Região Militar, no estado.

No dia 8, o batalhão Cordeiro de Farias, da Brigada Rio Grande,  ocupou Porto Carlos, na margem do rio Paraná, como flanco-guarda direita, batendo-se com o inimigo durante o dia e a noite de 10 de maio, impedindo que ele avançasse contra o grosso da força insurgente. 

No dia 11, quando o general Miguel Costa e o Estado Maior da 1ª Divisão Revolucionária chegaram a Ponta Porã, os regimentos de João Alberto e Siqueira Campos já haviam deixado a cidade, em perseguição às tropas governistas. Estas haviam recebido reforço procedente de Campo Grande, sob o comando do major Bertoldo Klinger, dispondo de muitas metralhadoras e farta munição.

Em carta datada de 14 de maio, João Alberto relata a Prestes o desenrolar dessa batalha:

“Durante a aproximação fui tiroteado quatro léguas aquém do Apa... Atropelei; e, na madrugada de hoje, ataquei as posições inimigas. Até às 15 horas combati fortemente e a coluna inimiga retirou quase completamente, deixando uma retaguarda de 100 homens de infantaria e 60 de cavalaria. Mas notando que meu fogo estava fraco... a cavalaria inimiga atacou o flanco esquerdo que debandou... forçando-me a recuar meia légua, depois do que consegui opor resistência.

Às 16 horas, chegou o Siqueira que avançou um pelotão, fazendo parar a cavalaria inimiga. Fiz prisioneiro o 1º tenente Sayão que me informou... que a concentração do governo será em Campo Grande onde esperam, a cada momento, 1.000 homens da polícia gaúcha”.

Em marcha na direção de Campo Grande, no dia 19 de maio, o esquadrão de cavalaria do capitão Ari Salgado Freire dispersou uma tropa de jagunços, pouco além da margem esquerda do Rio Dourados.

A 4 de junho, a 1ª Divisão Revolucionária, tendo contornado as forças governistas entrincheiradas em Campo Grande, atingia a localidade de Patrimônio de Jaguari, situada 50 km ao norte daquela cidade.                        

Seguindo na direção nordeste, os revolucionários visavam atingir a cidade de Mineiros, no estado de Goiás. Ao alcançá-la teriam concluído um percurso de 2.000 km em território mato-grossense, dos quais já haviam coberto a metade.

Os canhões da artilharia, que os acompanhavam desde a insurreição na capital paulista, em julho de 1924, haviam sido cuidadosamente ocultos, em terras da fazenda Jacareí, nas proximidades da fronteira paraguaia, no dia 15 de maio. O ritmo veloz que se impunha a marcha impossibilitava o seu transporte.

ASSALTO AO 3º RI 

Na madrugada do dia 1º de maio, antes do amanhecer, enquanto a coluna revolucionária realiza sua penetração no território do Mato Grosso, os capitães Carlos da Costa Leite, Leopoldo Néri da Fonseca e o tenente Jansen de Melo, integrando um grupo de 20 homens, entre militares e civis, tentam tomar de surpresa o 3º Regimento de Infantaria, situado na Praia Vermelha, Rio de Janeiro.

O tenente, há pouco mais de um mês, fugira do Hospital Central do Exército, onde se encontrava detido por haver participado da Revolução de 1922. Costa Leite, Leopoldo Néri e outros oficiais também haviam escapado do presídio militar da Ilha Grande.

Conforme o plano dos revoltosos, depois de dominado o 3º RI, seriam tomadas de assalto as  fortalezas de São João e Copacabana. Em seguida, um destacamento marcharia ao palácio do Catete, para prender o presidente da República. O vice-presidente Estácio Coimbra seria detido na praça José de Alencar por um comando liderado pelo deputado gaúcho Batista Luzardo.

O plano, porém, fracassa. Apesar dos atacantes terem conseguido penetrar no quartel, a guarda, comandada pelo capitão Aquino Correia, reage. O tenente Jansen, ferido mortalmente, é resgatado por seus companheiros, que se retiram em meio a cerrado tiroteio. Eles transportam também, para a Casa de Saúde Pedro Ernesto, o cabo Cecílio, outro revolucionário ferido no confronto.

O tenente Jansen de Melo, com hemorragia intensa, morre antes de receber os primeiros socorros.

O cabo Cecílio, depois de medicado, é transferido para o Hospital Central do Exército. Para lá também fora removido o capitão Aquino Correia, cuja reação frustrara o levante.                     

O único revolucionário preso não fornece à polícia informações sobre a rede que planificara e realizara o assalto. Os deputados Batista Luzardo, Adolfo Bergamini e Azevedo Lima retomam normalmente suas atividade parlamentares. O médico Pedro Ernesto, outro civil que participara do levante, também prossegue em liberdade.

No dia 18 de julho, o capitão Costa Leite participa de novo embate com as forças do governo, rompendo a tiros um cerco, no bairro do Riachuelo. O alvo era a residência do capitão Cristóvão Barcelos, na rua Flack, onde ambos estavam reunidos com o estudante de engenharia João Beckeuser. Os três escaparam ilesos.

A ação conspirativa na capital da República não daria descanso a Artur Bernardes, até o último dia de sua permanência no palácio das Águias. Anos mais tarde, ele desabafaria:

“Como presidente da República não fui mais que um chefe de Polícia”.

Continua na próxima edição

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