Kamel e o teste das mentiras
“A grande
imprensa está sob ataque” – assim começa o artigo de Ali Kamel, publicado há
alguns dias em “O Globo”.
“Grande
imprensa” é como Kamel, ex-editor assistente da “Veja” e atualmente diretor de
jornalismo da Rede Globo, chama a mídia golpista. Parafraseando um dito
célebre, essa imprensa só lhe parece “grande” porque Kamel vive em permanente
genuflexão. No entanto, mesmo nessa posição incômoda, ele esforça-se por dar
cambalhotas: tudo é invertido - naturalmente, o país é que esteve sob ataque
dessa mídia. Por isso, ela levou a pior. É dessa última parte do negócio que
Kamel está se queixando.
Porém, não é
a imprensa, grande ou pequena, que Kamel quer defender. Ele está defendendo
apenas a si próprio, ao seu lauto salário - e à sua incompetência, que levou a
“Globo” a uma situação inédita de acelerado descrédito. Kamel é, sem dúvida, o
mais inepto diretor de jornalismo que a “Globo” já teve. Inclusive, e
sobretudo, do ponto de vista do ilusionismo e da prestidigitação que são
chamados de jornalismo pela “Globo”. Kamel é incapaz de disfarçar os truques
que está tentando fazer. Assim, o “jornalismo” torna-se inútil, e, pior que
isso, um risco para a própria “Globo”, além de um estrupício para os
anunciantes, que são associados, sem querer, à desonestidade flagrante do
veículo onde anunciam.
Voltemos ao
seu artigo. Diz ele: “na cobertura da tragédia da TAM, a grande imprensa se
portou como devia. Não é pitonisa, como não é adivinha, desde o primeiro
instante foi, honestamente, testando hipóteses, montando um quebra-cabeça que
está longe do fim”.
Resumindo: a
mídia não erra. Não mente. Não falseia nem falsifica. Ela apenas “testa
hipóteses”. Não tem culpa se a hipótese é falsa. Para que ela noticiasse
apenas os fatos, seria necessário que ela fosse “pitonisa” ou “adivinha” (o
que, aliás, é a mesma coisa).
Kamel não
explica porque o “testar hipóteses” que preconiza como o supra-sumo da
atividade jornalística é sempre contra o mesmo lado e a favor do
mesmo outro lado.
CALÚNIAS
Mas é
interessante essa nova teoria jornalística. “Testando hipóteses”? Sim, leitor,
foi isso o que o sujeito escreveu. Ao invés de noticiar os fatos, a imprensa
tem que “testar hipóteses”. Será possível forma mais desastrada de confessar a
mentira, ainda por cima defendendo que é muito justo mentir? Só se ele
escrevesse algo como: “desde o primeiro instante a mídia golpista foi,
honestamente, mentindo, montando um quebra-cabeça que está longe do fim”.
Mas, dessa
honestidade o sr. Ali Kamel realmente não é capaz. Nem que um raio o atingisse
no caminho para a Barra da Tijuca (lá é a central de novelas e não de
jornalismo? Perdão, leitores, pela compreensível confusão).
Continuemos:
jornalismo que, em vez de noticiar os fatos, fica “testando hipóteses” é
mentira, calúnia, e não jornalismo. Pois é exatamente esse o “jornalismo” que
Kamel defende. Não por acaso, seu primeiro cargo de importância foi na “Veja”,
que não faz outra coisa: fica “testando hipóteses” que interessam aos seus
donos. Kamel levou essa tecnologia para a “Globo” – que, desde que ele deu com
os costados lá, não faz outra coisa senão seguir a “Veja” com alguns dias de
atraso.
Porém,
vejamos algumas hipóteses que ele testou recentemente:
1) Às
vésperas do primeiro turno das eleições passadas, Kamel “testou a hipótese” de
que não existia um avião da Gol, com 154 pessoas a bordo, que estava
desaparecido. Todos os telejornais daquele dia divulgaram o desaparecimento,
menos um: o “Jornal Nacional”. Kamel “testou essa hipótese” porque achou que a
divulgação do desaparecimento do avião ofuscaria o “teste” de outra
“hipótese”: a de atribuir, dois dias antes das eleições e com o programa
eleitoral gratuito encerrado, ao presidente Lula a compra de um dossiê,
com a exibição escandalosa das imagens do dinheiro com que alguns aloprados
tentaram adquiri-lo – imagens, de resto, inteiramente ilegais. Tudo isso para
“testar” outra “hipótese”: a de que o presidente Lula não fosse o eleito. As
três “hipóteses” eram falsas, mas Kamel, segundo seu parecer, não errou.
Estava apenas “testando hipóteses”. Afinal, o rapaz não é “pitonisa”.
2) Em
seguida, Kamel “testou a hipótese” de que a queda do avião da Gol não havia
sido provocada pelos dois irresponsáveis pilotos norte-americanos do Legacy,
como era evidente, mas pelo controle de vôo da Aeronáutica. A hipótese também
era falsa. Mas Kamel também não errou. O problema é que ele não “adivinha”.
Por isso, estava “testando a hipótese” da realidade ser falsa e do falso ser
realidade.
3) Mas Kamel
não desanimou: arrumou uma nova hipótese para testar: a de que o irmão mais
velho do presidente da República, Vavá, um homem idoso, pobre e doente, era um
terrível gênio do tráfico de influência. Nada havia que indicasse qualquer
influência de Vavá no governo ou na máquina administrativa, nenhum suposto
pedido seu havia sido atendido – e, aliás, nem feito. Seria o primeiro cidadão
a traficar influência sem ter influência. Mas isso são questões de somenos
importância. Importante era “testar a hipótese” – que também era falsa, mas o
importante é testar. A realidade, que se dane.
4) Convicto,
Kamel continuou seus experimentos, sempre “testando hipóteses”: diante de uma
vaia claramente armada pelo ilustre filósofo do factóide, César Maia, Kamel
insistiu que eram “vaias espontâneas” ao presidente. Ele realmente estava bem
informado: segundo vários relatos, Kamel participou de uma reunião onde a vaia
espontânea foi discutida – e armada. Portanto, a vaia só poderia ser
espontânea, ora essa. O problema é que todo mundo viu que não foi. Mas o
importante é que a hipótese foi testada, isto é, a vaia apareceu no “Jornal
Nacional”.
5) Por
último, nesse resumo das atividades científicas de Kamel: menos de uma hora
após a queda do avião da TAM, a “Globo” já tinha lançado a hipótese de que o
problema era a pista que o governo reformara, que a falta de “grooving”
causara o acidente, e que a culpa era do presidente Lula. Não se sabia nada
sobre as condições do pouso, a caixa-preta não havia sido encontrada, não
havia nem mesmo palpite de algum técnico, mas Kamel, dinâmico como sempre, já
estava “testando” a sua hipótese: a culpa é do Lula. O teste deu errado. Ou,
melhor, deu certo, porque, como se sabe, a mídia não erra. A “hipótese” é que
era falsa.
FABRICAÇÃO
Referindo-se
a estudos sobre a mídia que apontam a cavalar falta de isenção contra Lula nos
meses anteriores às eleições, diz ele: “tais estudos se esquecem apenas de
contar que todo o noticiário sobre o mensalão e outros escândalos foi
considerado prova de desequilíbrio contra Lula. Ora, se é assim, qual seria a
alternativa para que o estudo apontasse equilíbrio? Não noticiar os
escândalos? Mas isso sim seria perder o equilíbrio e a isenção”.
Não é uma
gracinha? Os caras fabricam um escândalo, não conseguem provar nada, passam
por cima de todas as evidências e provas, tentam dar um golpe, difamam,
insultam e caluniam, e depois acham uma injustiça que se aponte que essa
porcaria toda era mera tentativa golpista. Segundo Kamel, se não divulgasse o
que ele mesmo fabricou, “isso sim seria perder o equilíbrio e a isenção”. Ou
seja, as hipóteses que Kamel testa são sempre contra Lula porque Lula é sempre
culpado, não importa o que faça – ou deixe de fazer.
CARLOS LOPES