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“Nossa vitória consistia em não nos deixar abater”

A grande marcha (2)

A reestruturação da 1ª Divisão Revolucionária, feita por iniciativa do general Miguel Costa, para integrar as tropas gaúchas e paulistas, dotou-a de maior mobilidade e unidade de comando, e vigorou até o final da Grande Marcha, em 1927

SÉRGIO RUBENS DE ARAÚJO TORRES

No dia 10 de junho, as duas brigadas que compunham a 1ª Divisão Revolucionária se reuniram na fazenda Cilada, nas proximidades da cidade de Camapuã, para reorganizar-se.

O comandante da Brigada São Paulo, tenente-coronel Juarez Távora, revela em suas Memórias que:

“Enquanto grande parte da Brigada Rio Grande estava montada, a quase totalidade da Brigada São Paulo se deslocava a pé, e, por isso mesmo, tinha dificuldade de afastar-se do itinerário da marcha, para potrear animais de sela, nas estâncias circunvizinhas de seu itinerário de marcha”.

Por iniciativa do general Miguel Costa, foi apresentado aos comandantes das duas unidades e aos chefes de seus respectivos destacamentos um plano para a reestruturação da Divisão. O objetivo principal era promover a integração entre as tropas gaúchas e paulistas, de modo a superar as contradições que começavam a despertar animosidade entre elementos das duas brigadas.

Foi decidida então a dissolução dessas forças e a constituição de quatro destacamentos, cada um deles composto por soldados paulistas e gaúchos.

De acordo com a nova organização, que vigorou até o final da Grande Marcha, Prestes e Juarez Távora tornaram-se respectivamente chefe e subchefe do Estado-Maior da 1ª Divisão Revolucionária, permanecendo como seu comandante o general Miguel Costa.

Para o comando do 1º, 2º, 3º e 4º destacamentos foram designados os tenentes-coronéis Cordeiro de Farias, João Alberto, Siqueira Campos e Djalma Dutra.

Além de resolver o problema que lhe dera origem, a reorganização da 1ª Divisão Revolucionária dotou-a de maior mobilidade e unidade de comando. A critério deste, os destacamentos revezavam-se nas funções de vanguarda, retaguarda e flanco-guarda, durante a marcha. Sempre protegido, o QG, apenas por uma vez, viveu situação de sério risco, em toda a campanha.

Cada destacamento tinha freqüentemente um conhecimento detalhado das condições do terreno e das posições do adversário, num raio de vários quilômetros, em virtude da ação incansável de seus potreadores.

Criadas inicialmente com o objetivo de cumprir um papel meramente logístico, na captura de animais de montaria, as potreadas logo se transformaram em importantes instrumentos de luta.

Dotados de grande mobilidade, os pequenos grupos de 10 a 15 cavaleiros se afastavam 20 a 30 km de seus destacamentos, durante vários dias, vasculhado a região, arrebanhando o gado, realizando missões de reconhecimento e fustigando o inimigo, onde ele menos esperava.

Retomando a marcha em direção à fronteira goiana, e tendo vencido todos os combates que tomara a iniciativa de travar, a coluna revolucionária mantinha as forcas governistas em situação de defensiva.

A imprensa, porém, controlada pelo governo, desdobrava-se na apresentação das mais fantasiosas versões dos acontecimentos, a exemplo da nota publicada no jornal carioca A  Notícia, no dia 18 de junho:

“Acossados por todos os lados... os rebeldes completamente desanimados, sem armas e sem munição, continuam a fugir das forças legais, evitando sempre entrar em combate... As tropas federais continuam galhardamente a perseguir de perto os bandoleiros, não lhes dando trégua e desbaratando-os totalmente, a fim de livrar o território nacional da permanência desses impertinentes e desmoralizados inimigos da ordem”. 

AS MISSIVAS DE KLINGER 

Transportadas em caminhões, as tropas do major Klinger se deslocaram de Campo Grande, ultrapassando a 1ª Divisão Revolucionária e atingindo a localidade de Baús, nos limites da fronteira goiana.

Dispondo suas forças de modo a barrar a progressão da coluna, na ponte da Capela, sobre o rio Sucuriú,  o chefe do estado-maior das tropas governistas buscava virar o jogo que até então lhe fora desfavorável.

A ofensiva revolucionária contra essas defesas foi empreendida por três destacamentos: 1º, 3º, e 4º.                    No dia 19 de junho, Cordeiro de Farias atacou as forcas oponentes na ponte da Capela. Klinger repeliu o ataque, mas não conseguindo contato com a sua retaguarda, interceptada pelo destacamento Djalma Dutra, tentou com duas investidas romper, pelo norte, o cerco que o constrangia. Foi, porém, rechaçado pelas forças de Siqueira Campos, que então contra-atacaram, tomando-lhe parte do acampamento - situado na margem direita do arroio Dois Córregos.      

O major Klinger estava virtualmente sitiado.

Visando poupar homens e munições, o QG ordenou o levantamento do cerco, na madrugada do dia 21, deixando Siqueira Campos ocupado em fixar o inimigo. E passou para Goiás, atingindo a localidade de Mineiros, no dia 26. A travessia do território mato-grossense durara 53 dias.

A 29 de junho, às 11h, a 1ª Divisão Revolucionária acampou na invernada Zeca Lopes. Pouco tempo depois, o general Miguel Costa recebia um emissário que trazia uma carta do major Klinger:

“Meus camaradas,

Acho-me muito próximo de vós, dispondo de recurso de velocidade e de fogo, bem como de uma tropa excelente. Esta tem sobretudo vontade decidida e grande superioridade moral. Não desejo empregar esses meios de força contra patrícios, sem tentar antes, mais uma vez, a cessação pacífica da luta pelas armas. Por que não vos entregueis à minha discrição confiantes de que tereis o máximo de concessões possíveis, militarmente?...

Saudações do camarada,

Major Bertoldo Klinger”

Não era a primeira carta que Bertoldo Klinger enviava a seus antigos parceiros de conspiração. No dia 19 de maio, vazada no mesmo tom melífluo, porém transbordante de arrogância, a carta do major Klinger dizia:

“Meus destemidos camaradas,

Apresento-lhes meus cumprimentos com o propósito de convidá-los a pôr termo à inglória luta pelas armas. O destacamento onde sirvo está, só ele, com um efetivo equivalente ao total dos vossos combatentes. Já vos rodeiam outros destacamentos e continua crescendo o efetivo das tropas fiéis ao governo, que de toda a parte vem chegando...

Se não for pois uma completa subversão da lógica dos fatos, não mais podeis pretender êxito para vossa causa...”.

Miguel Costa que conhecia bem os prejuízos que a pusilanimidade de Klinger haviam causado ao levante de 1924, pôs-se imediatamente a responder a carta. O resultado foi arrasador:

Invernada Zeca Lopes, 30 de junho de 1925

Sr. Bertoldo Klinger,

A história julgará amanhã, talvez, a sinceridade das propostas que nos tendes enviado.

Ex-companheiro de ideal revolucionário, vós não deveis procurar nunca injuriar com as vossas fraquezas a fé inquebrantável dos que não abjuraram as suas crenças.

Se quereis merecer daqueles que justamente vos julgam traidor algum sentimento de respeito, não os incomodeis mais com as vossas cartas tão cheias de orgulho por comandardes valentes esbirros de Bernardes.

Estamos contentes com os nossos soldados. Também eles não quiseram essas pomposas garantias que os vossos policiais de Minas lhes ofereceram.

A maldição pelo sangue derramado cairá um dia na consciência dos traidores.

Miguel Costa

Comandante dos homens de brio”

A resposta por certo não foi apreciada pelo chefe das tropas governistas que desferiu violento ataque contra as forças revolucionárias, contido pelos destacamentos João Alberto e Siqueira Campos, na entrada da invernada.

O próximo confronto de vulto só ocorreria no dia 24 de julho, já nas proximidades da cidade de Anápolis, ponto terminal da estrada de ferro que ligava Goiás a Minas e São Paulo.

O tenente-coronel João Alberto fez a seguinte descrição do combate:

“Simulando um ataque frontal a Anápolis, a Coluna forçou os governistas à defensiva... Assumindo a vanguarda, enquanto Siqueira e o Cordeiro de Farias cobriam o lado direito, achei-me em certo momento no flanco de uma das colunas legalistas. Temendo um ataque, o adversário retirou-se apressadamente em caminhões para a cidade...   

Avançamos de revólver em punho aos gritos de carga, enquanto o adversário fugia, atirando contra nós de cima dos caminhões. A estrada arenosa e cheia de buracos não lhe permitia velocidade...

Confirmando a regra geral das cargas de cavalaria que nos ensina que quase sempre um dos adversários cede terreno e foge, a tropa adversária abandonou os caminhões e, atirando o armamento para o chão, fugiu a pé pelo cerrado na direção da cidade”.

Depois dessa derrota as forças de Bertoldo Klinger não deram mais trabalho à 1ª Divisão Revolucionária.

Amante das missivas, o major escreveria ao ministro da Guerra, general Setembrino de Carvalho:

“O esmagamento é pura teoria.  A questão não tem solução pela força: importa corajosamente resolvê-la por via política com um ato radical de ampla volta à paz”. 

SOPINHA DE ARROZ 

A travessia do território goiano durou 51 dias, sendo concluída a 10 de agosto. Desenvolvera-se na direção sudoeste-nordeste, até a região de Formosa, na altura do paralelo 15º, de onde infletira para leste, buscando as cabeceiras do rio Urucuia, em Minas Gerais.

Entre 10 de agosto e 5 de setembro, a Divisão Revolucionária fez uma incursão diversionista pelo noroeste de Minas e sudoeste da Bahia, percorrendo, em 26 dias, cerca de 600 km, enfrentando apenas dois pequenos combates sustentados pelo destacamento João Alberto contra um batalhão da Polícia Militar baiana, dentro de São Romão, e logo à sua jusante, à margem do rio São Francisco. 

Atravessando uma região pobre e pouco povoada, a 1ª Divisão Revolucionária teve de suportar um dos piores períodos de subsistência, devido à falta de agricultura e de criação de qualquer espécie.

O tenente-coronel Juarez Távora assinala em suas Memórias:

“Na última etapa do nosso percurso em território baiano, bivacamos, tarde alta, às margens do rio Formoso, sem ter tido oportunidade de ingerir qualquer alimento substancial. E as potreadas lançadas pelo Destacamento Siqueira Campos, com o qual então me deslocava, foram chegando, uma após outra, sem qualquer notícia de bois... O cozinheiro de Siqueira, uma hora depois de bivacarmos, trouxe-nos, para consolar-nos, o que chamou de uma ‘sopinha de arroz’. Mas, na verdade, era uma panela de água salgada, com meia dúzia de caroços de arroz, no fundo... Siqueira olhou-a de soslaio; e, desacreditando o pretendido milagre da multiplicação dos grãos de arroz, tentado por seu ‘mestre-cuca’, disse-lhe, com a moca costumeira de seus olhos de gato:

- Água por água, prefiro a água fresca do rio.

E despejando o prato de sopa na panela, foi, calmamente beber a água fresca do Formoso...

Eu, com a humildade de sertanejo cearense, enfrentei a água quente... Ao encerrar essa excursão, já sentíamos saudade da abundância de recursos a que nos habituáramos, marchando pelo sul de Goiás.         

Tratamos por isso de regressar, o mais rapidamente possível, ao território goiano”.                                              

PLANO DE CAMPANHA 

Alcançada a Vila de Posse, em Goiás, o plano de campanha era percorrer 1.100 km, em direção ao norte, para penetrar no Maranhão, estado onde os revolucionários possuíam ligações que poderiam abrir novos horizontes para a luta.

O Maranhão seria a porta de entrada para o Nordeste e a Bahia. O Estado-Maior considerava essas regiões como as mais favoráveis para um acúmulo de forças que lhe permitisse ameaçar Minas e a capital da República ou, na pior das hipóteses, prolongar a guerra de movimento pelo tempo que julgasse necessário.

Segundo relato do secretário do Estado-Maior da 1ª Divisão Revolucionária, capitão Lourenço Moreira Lima, no início do mês de julho os revolucionários tinham enviado um emissário ao marechal Isidoro, no Paraguai, solicitando a remessa de armas e munições, que “deveriam ser colocadas em qualquer ponto do Nordeste ou Bahia, confiadas aos nossos amigos, ali, a fim de nos serem entregues”.

De Posse, Miguel Costa, Prestes e Juarez escreveram ao deputado Batista Luzardo, no dia 14 de setembro:

“Apesar das asperezas da campanha, força é confessar que ela tem se abrandado nos últimos tempos graças à completa liberdade de ação que nos permitem as forças governistas... A eficiência dos nossos adversários se torna cada vez menos sensível. Dir-se-ia que essas forças adivinham sempre onde não estamos e para aí marcham.

Não é absurdo que prevejamos a possibilidade de prolongar indefinidamente a atividade da campanha.

Sem julgarmo-nos fortes, ousamos confessar que, por meio de exclusiva violência, será difícil ao governo submeter-nos...

Autorizamos Vossa Excelência a declarar ao país, da sua tribuna de legítimo representante do povo, que somos francos e sinceros partidários da paz...

Nada pedimos para que ela seja estabelecida, que não se justifique como um preceito de liberdade.

Como limite mínimo de nossas aspirações liberais, incluímos a revogação da lei de imprensa e a adoção do voto secreto.

Com tais medidas, uma natural anistia e imprescindível suspensão do estado de sítio, talvez seja possível ao governo trazer ao Brasil a paz e a tranqüilidade de que tanto necessita.

Eis as bases em que se poderia apoiar uma paz grata para nós, honrosa para o governo e proveitosa para o país”.

Continua na próxima edição
 

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