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“Nossa vitória consistia em não nos deixar abater”

A grande marcha (3)

A 1ª Divisão Revolucionária atravessa o norte de Goiás (atualmente, Tocantins) e entra no Nordeste combatendo: o cerco de Teresina

SÉRGIO RUBENS DE ARAÚJO TORRES

A travessia do norte de Goiás durou 68 dias, ao longo dos quais a 1ª Divisão Revolucionária ocupou doze vilas e cidades, transpondo oito rios, afluentes ou subafluentes do Tocantins.

A ausência de combates estimulava Siqueira Campos a superar-se na arte de pregar peças nos companheiros. Algumas delas eram bastante trabalhosas, conforme revela Juarez Távora, em suas Memórias, ao mencionar um episódio ocorrido, no dia 22 de setembro, na cidade de Arraias, importante centro de mineração de ouro, nos tempos coloniais:

“Siqueira, com a ajuda de outro oficial, escrevera num papel bem amarelado e gasto (obtido, não sabia onde nem quando) uma espécie de roteiro indicando a existência, no subsolo da igreja, de um tesouro... A perversidade maior estava em haver no papel do roteiro dois buracos, como se fossem artes da traça, exatamente nos lugares onde deviam estar declarados os números de braças marcando o local e a profundidade em que devia ser encontrado o tesouro.... Esse documento fora meticulosamente metido numa das rachaduras existentes na parede frontal da igreja, de jeito a despertar a curiosidade de quem olhasse para o local”.

De Arraias, o QG da Divisão seguiu para Natividade, enquanto duas flanco-guardas eram lançadas sobre Palmas e Santa Maria de Taguatinga. 

CHUVA DE MANGA 

A 29 de setembro, o destacamento Siqueira Campos, que marchava como flanco-guarda direita, bateu-se com uma força da Polícia Militar goiana, na vila de Taguatinga, onde a mesma se entrincheirou, desistindo de prosseguir o seu avanço em direção ao grosso da coluna. Foi esse o único confronto ocorrido, durante toda a campanha no norte de Goiás.

A outra flanco-guarda, depois de atravessar o rio Palmas, chegou à localidade Chuva de Manga onde o capitão Moreira Lima tomou ciência de extraordinárias ocorrências que assim passou a relatar:

“Acampamos... num bosque de mangueiras colossais, junto à casa de moradia de dois pretos velhos que ali viviam. Eram pai e filho. Um, de 85 anos, inteiramente calvo, e o outro, de 60, ostentando farto cavanhaque todo branco...

Esses pretos ficaram escandalizados quando Cordeiro de Farias lhes perguntou pelas canoas, porque lhes haviam dito que atravessávamos os rios sem nos utilizarmos de embarcações, por conduzirmos um ‘apareio de mangaba’ que estendíamos sobre as águas passando por ‘riba deles’, bem como uma ‘rede de apanhar homens e cavalos’, rede que ‘não havia vivente que lhe escapasse’...

Como essa, muitas outras lendas se formaram a nosso respeito... só comíamos as partes dianteiras  do gado para andarmos mais depressa... Prestes ‘adivinhava’, razão porque não podíamos ser batidos, pela forças do ‘gunverno’...

Em Chuva de Manga os pretos nos contaram coisas espantosas do rio Palmas. Disseram-nos que havia neles peixes colossais, feras monstruosas que atacavam as criaturas até fora do rio, salientando-se pela sua audácia o ‘Negro D’Água’, um ‘bicho feroz’ que saltava em terra, ereto como um gigante e as perseguia, arrastando-as para o fundo d’água; e ... um ‘horrendo terém’, que o preto de cavanhaque me afirmou ter visto uma noite, quando se achava trepado num ‘pé de arvore’ , de tocaia às antas, e tão horrendo era que ele não se animara a lhe atirar e começou a tremer de medo, apesar de ser acostumado a ‘topar onça’; e estava certo de ter sido salvo por haver chamado por Nossa Senhora”.

Coincidências a parte o capitão Moreira Lima conclui assim a sua narrativa:

“Tendo sido arranjadas algumas canoas, foi iniciada a travessia do rio Palmas, passando a cavalhada a nado.

Aí perdemos um soldado, que desapareceu de repente, quando tomava banho perto da margem, com água pouco acima da cintura, certamente arrebatado por algum peixe.

Houve um momento de grande ansiedade, quando atravessava a canoa dirigida pelo preto de cavanhaque, que pilotava em pé.

A embarcação caiu numa grande corredeira e começou a meter água por um dos bordos.

Os soldados que ela conduzia não sabiam nadar e se amedrontaram... O preto remava corajosamente, gritando em altas vozes:

- Com a ajuda de Nossa Senhora, nos havemos de chegá. Valei-me Nossa Senhora da Conceição!

A canoa encostou, afinal, à outra margem, sem que se registrasse a desgraça que se avizinhava”.

Muitas histórias fantásticas brotavam daqueles rincões. O morro do Moleque, na serra de São Domingos, era povoado por assombrações que se manifestavam a noite: frades sem cabeça, montados em esqueletos de cavalos imensos, cobras enormes com olhos de fogo, isso quando não aparecia o próprio demo, no alto do morro, cavalgando um gigantesco porco-espinho, cujos grunhidos podiam ser ouvidos a mais de 100 léguas de distância.

Também a Coluna já deitara suas raízes naquele imaginário. 

SOBRE AS REQUISIÇÕES 

O grosso da Divisão descansou em Palmas, durante cinco dias, a espera da reincorporação das  flanco-guardas, seguindo a 12 de outubro para Porto Nacional, na margem direita do Tocantins, onde acantonou, durante oito dias.

A travessia do norte de Goiás prosseguia, sem maiores surpresas.

O único incidente grave fora de caráter interno - uma conspiração chefiada pelo major Aldo Geri, membro do Estado Maior, ex-comandante do batalhão italiano formado durante a insurreição paulista, em julho de 1924. O objetivo era atacar o QG, liquidar seus integrantes, assaltar as finanças da caixa de guerra e fugir para a Bolívia. Detectado o plano, antes que ele fosse posto em prática, foram expulsos o major Geri, o tenente Morgado e dois ex-oficiais que meses antes haviam sido rebaixados por mau comportamento, além de alguns soldados.

Em todas as vilas e cidades goianas pelas quais passavam, os revolucionários destruíam sistematicamente os troncos e gargalheiras, que povoavam as cadeias, bem como as palmatórias, abundantes também nas escolas.

Em Porto Nacional, o povo acorreu curioso para ver a princesa Isabel que, conforme se espalhara, acompanhava a marcha da 1ª Divisão Revolucionária. As cinqüenta vivandeiras que seguiam com a coluna e a destruição dos antigos instrumentos de tortura, da época da escravidão, davam asas à imaginação sertaneja.

O QG da Divisão ficou hospedado no Convento dos Dominicanos, a convite de Frei José Maria Audrin, que substituía o prelado Dom Domingos Carrerot, então em visita apostólica no Araguaia.

A única fotografia, na qual todos os chefes da 1ª Divisão Revolucionária aparecem juntos, foi tirada pelo próprio frei Audrin, em Porto Nacional.

Deveras atencioso e hospitaleiro, o frei considerou, no entanto, de bom tom formalizar por escrito ao general Miguel Costa uma proposta de intermediar junto ao governo federal um acordo de paz. A proposta vinha precedida de um veemente protesto contra as requisições, através das quais as forças revolucionárias se abasteciam durante a marcha.

O documento, datado de 21 de outubro, dizia:

“Ilmo Sr. General Miguel Costa

A passagem da coluna revolucionária através dos nossos sertões e por nossa cidade tem sido um lamentável desastre que ficará, por alguns anos, irreparável. Em poucos dias, nosso povo, na maioria pobre, viu-se reduzido a quase completa miséria.

... Se é grato dever para nós reconhecermos a elevada disciplina que tem reinado na Coluna, quanto ao respeito aos lares e ao cuidado extremo do Estado-Maior e comandos de corpos em prevenir e castigar severamente qualquer ofensa à moralidade e ao sossego do povo - se acreditamos que os danos materiais sofridos pela população em gado e animais, longe de serem motivados pelo instinto do roubo, são apenas uma imposição vexatória mas fatal das duras necessidades da guerra, sentimo-nos não obstante forçados a deplorar tais prejuízos e levar contra eles perante Vossa Excelência o nosso protesto...

E o mesmo sentimento de caridade cristã que nos tem obrigado a lamentar as misérias do nosso povo, excita-nos a procurar um meio de contribuir para a conclusão de tantas angústias...”.

Miguel Costa poderia ter lembrado ao missionário que a pobreza secular do povo daquelas regiões tinha causas que os revolucionários corajosamente empenhavam-se em erradicar, ao contrário de certas almas piedosas que pouco faziam para alterar aquele estado de coisas.

Porém, mais útil, naquele momento, era fortalecer a disposição de frei Audrin de bater-se pela abertura de negociações de paz, e reiterar a lisura que presidia o processo de requisições.

A resposta, assinada por Miguel Costa, Prestes e Juarez, dizia:

Não ignoramos nenhuma das vicissitudes deploráveis que constituem o séqüito sombrio da guerra civil.

Bem medimos a penúria em que fica a debater-se a população menos abastada das regiões sertanejas por onde transitamos...

Afiançamo-lhe, entretanto, que só temos retirado ao patrimônio do povo aquilo que é indispensável à satisfação das necessidades imprescindíveis da tropa. E se não indenizamos ao particular os prejuízos que lhe causamos é porque - ao contrário do que a má-fé de alguns tem propalado - transitamos na revolução tão pobres como quando para ela entramos.

De qualquer forma, porém, temos assegurado, indistintamente, a amigos e adversários, por meio de um documento idôneo, o recurso de reaver, mais tarde, pelos trâmites legais, a importância total dos bens de que houverem sido despojados”.

Um dispositivo da Constituição e do Código Civil obrigava a União a indenizar os prejuízos causados pela ação das forças revolucionárias. Ainda que o governo quase sempre o desconsiderasse, nunca era demais lembrar a sua existência.               

CERCO DE TERESINA 

Cruzando o rio Manoel Alves Grande, a 1ª Divisão Revolucionária penetrou em território maranhense, no dia 13 de novembro.

O 1º Destacamento rumou para Carolina, como flanco-guarda esquerda da Divisão, devendo cobri-la contra incursões de tropas vindas do Pará pelo rio Tocantins, enquanto o grosso avançou até São Raimundo das Mangabeiras, passando por Balsas.

Acolhido com comício e banda de música, pela população de Carolina, o 1º Destacamento permaneceu até o dia 23 naquela cidade, onde aproveitou para imprimir a oitava edição do jornal O Libertador, alcançando a Divisão, em Mangabeiras, a 29 de novembro.

No dia anterior, o destacamento João Alberto destacara-se do grosso, seguindo a noroeste para Grajaú, com o objetivo de libertar o major Paulo Kruger, membro do Estado Maior, que havia sido preso nas proximidades daquela cidade, quando viajava em missão de estabelecer contatos com chefes políticos oposicionistas do estado.

A 3 de dezembro, o comando revolucionário deu início a uma manobra de envolvimento da forte concentração de tropas governistas estacionadas na região de Benedito Lima e Uruçui, cidades respectivamente situadas nas margens maranhense e piauiense do rio Parnaíba.

Lançando o destacamento Djalma Dutra como flanco-guarda direita, em direção às forças governistas, a Divisão marchou para Mirador, com o objetivo de atingir Nova Iorque, no Rio Parnaíba, vários quilômetros abaixo de Benedito Lima e Uruçui, a fim de cortar a comunicação fluvial e telegráfica entre Teresina e aquela força de 1.500 homens que guarnecia o sul dos dois estados.

Na manhã do dia 7, uma patrulha do destacamento Dutra atacou um posto avançado e ao escurecer tiroteou as primeiras posições do adversário, retirando-se em seguida. Este, fortemente entrincheirado, prorrompeu em fogo maciço, durante toda a noite, contra um inimigo que já se encontrava a léguas de distância, tendo se retirado precipitadamente, a pé, a cavalo, em vapores, canoas e balsas, na direção de Teresina, ao raiar do dia.

Dutra, mal acreditando no que via, perseguiu-os até Nova Iorque, por onde a força governista passou aceleradamente, antes que o grosso da 1ª Divisão Revolucionária, em Mirador, pudesse agir.

Impressionado, o capitão Moreira Lima registrou, em seu diário de campanha:                 

“... os prisioneiros que fizemos... diziam ter sabido que não podíamos ser batidos porque conduzíamos uma preta feiticeira, chamada tia Maria, que dançava nua diante das ‘metraiadeiras’, ao som de um flautim... para ‘fechar o corpo’  dos nossos homens às balas dos inimigos”.

No dia 9 de dezembro, João Alberto chega a Mirador. Não conseguira libertar Kruger, porque o governo já havia transferido o prisioneiro - de Grajaú, para São Luís.

Acompanhavam o 2º Destacamento 200 homens comandados por Manoel Bernardino, fazendeiro da Zona da Mata, e 50 liderados por Euclides Neiva, todos armados e municiados.

Conta o capitão Lourenço Moreira Lima:

“Manuel Bernardino era cearense. Homem inteligente e entusiasta, exercia grande influência no povo... Chamavam-no o Lenine da Mata, porque era o defensor dos direitos dos fracos e oprimidos”.

Em sua fuga, as forças governistas de Uruçui se entrincheiraram em Floriano, somando-se à guarnição daquela cidade. O QG ordenou o assalto imediato da posição pelo 2º Destacamento e o 4º, que transpuseram o Parnaíba. Ao mesmo tempo o 1º e as tropas de Manoel Bernardino deviam atacar a vila de Barão de Grajaú, situada na margem maranhense do rio, enquanto o 3º cortaria mais abaixo as comunicações entre as duas localidades e Teresina.

Empreendendo novo recuo, a força governista sofreu pesadas baixas ao ser atacada por Siqueira Campos que estava à sua espera em Queimados e Araçás.

Uma ampla faixa dos territórios do Maranhão e Piauí, desde os altos sertões, às cercanias de Teresina, passou às mãos dos revolucionários.

No dia 18 de dezembro, o QG ocupou Barão de Grajaú e Floriano. Daí partiu o Esquadrão Ari Freire, do 4º Destacamento, na direção leste, a fim de se apoderar das cidades piauienses de Oeiras e Picos, devendo observar a coluna inimiga do coronel Almada que avançara de Remanso, na Bahia, em direção a Vitória, no alto Parnaíba.

Os destacamentos João Alberto e Dutra seguiram pela margem direita do Parnaíba, para Teresina, sob comando de Juarez Távora, enquanto os destacamentos Cordeiro de Farias e Siqueira Campos, sob o comando de Prestes, marchavam pela margem maranhense do rio para atacar a contígua cidade de Flores.

A 26, a 1ª Divisão Revolucionária instalava o seu QG em Amarante.

Teresina e Flores eram guarnecidas por um efetivo de 3.000 homens do Exército, Polícias Militares e Marinha, navios de guerra e artilharia, sob comando geral do coronel Gustavo Bentemuller.

As incursões das forças revolucionárias sobre as trincheiras dessas cidades só teriam início no dia 28.

No entanto, desde o dia 23, sobressaltadas, as forças governistas atiravam a esmo, conforme assinala João Alberto, com fina ironia, em bilhete enviado a Juarez Távora:

“De ontem para hoje repetiu-se o mesmo tiroteio forte em Teresina e foi ouvido daqui do meu acampamento. Decididamente estão gastando toda a nossa munição”.

Na manhã do dia 27, ao embarcar de Floriano para Amarante, o capitão Moreira Lima foi contatado pelo capitão Waldemar de Paula Lima e o jornalista pernambucano Josias Carneiro Leão. Procedentes do Recife, eles eram portadores de uma correspondência do tenente Cleto Campelo. Cleto tencionava apoderar-se daquela cidade, e destacara os tenentes Lourival Seroa da Mota e Aristóteles de Sousa Dantas para apossarem-se da capital da Paraíba.

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17/08/2007
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